<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138</id><updated>2012-01-19T08:45:23.687-02:00</updated><category term='romance'/><category term='frase'/><category term='metâmeros'/><category term='poesia'/><category term='Jaime'/><category term='Beauty Projection'/><category term='inglês'/><category term='não sei que fim vai ter.'/><category term='capítulo'/><category term='colaborações para revistas'/><category term='desenho'/><category term='antologia'/><category term='de Alice'/><category term='Across Infinity'/><category term='Palágrimas'/><category term='música'/><category term='Victoria'/><category term='lyrics'/><category term='conto'/><category term='fotografia'/><category term='Dream Theater'/><category term='microconto'/><category term='de Pedro'/><category term='livros'/><category term='EU IMPLORO'/><category term='Caio F.'/><category term='de Bruna'/><category term='confissão'/><category term='Promessa Vazia'/><category term='hai-kai'/><category term='lançamento'/><title type='text'>Os oráculos de meus óculos</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default?start-index=101&amp;max-results=100'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>149</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-6454419643499202987</id><published>2011-09-16T16:38:00.000-03:00</published><updated>2011-09-16T16:40:06.788-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Beauty Projection'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='conto'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='livros'/><title type='text'>TRÊS COLHERES DE AÇÚCAR – um conto clichê</title><content type='html'>&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:worddocument&gt;   &lt;w:view&gt;Normal&lt;/w:View&gt;   &lt;w:zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt;   &lt;w:hyphenationzone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt;   &lt;w:compatibility&gt;    &lt;w:breakwrappedtables/&gt;    &lt;w:snaptogridincell/&gt;    &lt;w:wraptextwithpunct/&gt;    &lt;w:useasianbreakrules/&gt;   &lt;/w:Compatibility&gt;   &lt;w:browserlevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt;  &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 10]&gt; &lt;style&gt;  /* Style Definitions */  table.MsoNormalTable  {mso-style-name:"Tabela normal";  mso-tstyle-rowband-size:0;  mso-tstyle-colband-size:0;  mso-style-noshow:yes;  mso-style-parent:"";  mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt;  mso-para-margin:0cm;  mso-para-margin-bottom:.0001pt;  mso-pagination:widow-orphan;  font-size:10.0pt;  font-family:"Times New Roman";} &lt;/style&gt; &lt;![endif]--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;Mal posso com a crueldade da saudade. Que maldade! Vivo sem afago. Sim, sou o cara mais desinteressante da face da Terra. Eu admito. Satisfeito? Agora cala a boca, Noel!&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;Desligo o som. A sala em silêncio é assustadora. Ligo o som. Tu vais ficar corcunda. Desligo o som. Farrokh Bulsara me irrita arranhando algo. Mudo o disco, ligo o som. Farrokh Bulsara me diz pra não pará-lo agora, porque ele está vivendo um momento bom, o desgraçado. Desligo o som. Farrokhs Bulsaras são muito irritantes, não sei porque insisto neles.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;Se Ângelo não tivesse se irritado com o papo cabeça do Otávio, não houvesse se levantado brusco, jogando, no impulso, a cadeira de rodinhas pra trás até fazê-la bater na parede, e ido pegar uma xícara de café no exato momento em que eu dava um tempo do trabalho pra descansar meus olhos turvos e assimétricos da tela iluminada do computador, o café não teria acabado antes de a minha xícara estar cheia, eu não teria me arrependido de pôr o açúcar na minha xícara antes de ela estar cheia tampouco desenvolveria esse meu hábito obsessivo de só adoçar o café depois de ter certeza de o café ter enchido a xícara, eu não provaria o café e o acharia doce demais tampouco o jogaria fora no instante seguinte, não caminharia frustrado até a janela do escritório nem me debruçaria nela muito puto no exato momento da caminhada diária daquela mulher pela calçada. E se Gabriel não tivesse desviado minha atenção reclamando aos gritos da falta de café, eu a teria seguido com os olhos naquele dia, e visto pra onde ela sempre vai.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;O que faria essas palavras completamente desnecessárias.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;Tudo isso foi há três meses atrás. Eu diria que pode até ter sido mais, ou menos, se eu não fosse tão obcecado por originalidade – e essa duvidazinha com relação ao tempo já está batida. Não sei se foi ontem ou hoje, pode ter sido amanhã que matei meu professor de lógica etc.. Isso que quero contar começou há três meses atrás e, ainda que eu não tenha mesmo certeza disso, você não precisa ficar sabendo. A exatidão está muito em baixa, então serei exato. A primeira vez que a vi passar em baixo da janela do meu escritório gelado foi há três meses, ela estava de azul e era já naquele tempo tão feia quanto hoje, mas tinha o cabelo menor. Ele cresceu bastante e cobre agora as duas orelhas de abano. Eu gostava mais antes.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;É uma merda isso de tentar ser ícone genial de uma geração. Por exemplo: merda é algo que só escrevo pra tentar ser natural, essa confissão é só pra tentar alcançar a autoficção tão em voga hoje em dia, citar a geração é só uma forma de sustentar esse conceito deturpado, deturpado é uma palavra bonita pra tentar ser poético, poético é um conceito deturpado. Mas não serei ícone de porra nenhuma e só escrevi o porra nenhuma porque acho bastante &lt;i style=""&gt;in&lt;/i&gt; jogar um palavrãozinho no meio das sentenças sérias, o que essa, por acaso, não era. Era só uma conjetura insone de alguém que não sabe a história que quer contar. Meu consolo é que, de repente, essa história vira um best-seller mundial, fico rico e levo Farrokh Bulsara pra viajar comigo. E então poderemos ser insones em Veneza, Florença, Paris, Londres, até porque ser insone em Veneza deve ser mais romântico, em Florença mais culto, em Paris mais chique, em Londres mais pontual.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;Eu gosto dessa história toda dos caras que voltaram mudos da guerra. Não falar é melhor que falar como eu. Também gosto muito disso de a narração oral ter acabado etc., apesar de discordar, porque minha mãe não foi apelidada de Janete Clair à toa. É que a narração oral é falada, óbvio, e eu prefiro a escrita, porque escrevendo eu falo um bocado e, apesar de não saber por onde nem de que forma começar, como se vê, escrevendo eu posso contar essa história. Posso até me sentir o marinheiro viajante, voltando com a experiência debaixo do braço pronta a ser ofertada aos que nunca puderam deixar sua terra – dos quais, no reino da fala, eu sempre faço parte. Gente entaipada como eu, incapaz de pegar as coisas e ir, simplesmente. Se o mundo fosse só escrito, meu nomadismo faria sentido. Porque todos falam, eu continuo dividindo minha quitinete com Farrokh Bulsara, que gosta de músicas lentas demais.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;Aos dezessete anos, fiquei louco ao saber que Bob Dylan fugiu de casa depois de ler on the road. Fui ler on the road. Quis fugir de casa. Aí li the catcher in the rye e talvez eu até quisesse matar o John Lennon se ele já não estivesse morto. Hoje sei que no primeiro resfriado que eu pegasse, juntaria minhas coisas molhadas de chuva no meio da estrada e voltaria correndo pras cobertas com cheiro de amaciante da casa dos meus pais e pras mãos com cheiro de Vick Vaporub da minha mãe, dando os olhos da cara e demais olhos pra voltar a ser criança. Na verdade, eu não chegaria a me molhar no meio de estrada nenhuma e, se isso acontecesse, eu já teria chegado longe até demais, porque eu não tenho porra nenhuma nessa vida e pra pagar uma passagem pra qualquer lugar eu teria de atrasar o aluguel e deixar Farrokh Bulsara desabrigado, já que, convenhamos, de carona não se vai mais a lugar nenhum. De manhã, antes de sair pro trabalho, os motoristas veem a primeira das muitas torrentes televisivas de más notícias do dia e consideram qualquer um que não seja si mesmos, isso que ninguém mais é além de si mesmo, um inimigo em potencial. Aí eles entram no carro e ligam o rádio num repórter aéreo qualquer pra fugir do fluxo intenso. Não conseguem, porque o fluxo é intenso o tempo todo em todos os lugares dessa cidade do hell e, só de sacanagem, começam a buzinar nas próprias e nas demais cabeças como se isso fosse abrir todos os sinais e acabar com todos os engarrafamentos, mesmo sabendo, como sabem, como sabemos todos, que isso só serve pra irritar. Eu?, eu falo três vezes a mesma sílaba e olho dobrado. Bob Dylan fez sucesso, eu ia me foder. Muita gente se fodeu tentando e você não sabe, porque só nos contaram a história bonita. Até porque, convenhamos, você pega as suas coisas e sai por aí esperando o quê? Meu filho, já virou o século, não tem mais nenhuma margarida nos escombros, eles mudaram o mundo pra pior. Eles fizeram o hoje e construíram a gente. O hoje é feio e a gente é má.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;O fato é que eu estou obcecado por compreender tudo isso. No fundo, nem tão fundo assim, você é o que menos importa. Estou tentando escrever esta história porque não sei se existe uma história. Saberei no final. Descobrir esta história é só o que tem me interessado, por isso deixei crescerem as unhas dos pés e acabo de conseguir prender a parte de trás do cabelo com elástico, de fazer uma trança na barba e de levar um esporro de Vanessa – minha chefe gorda, chata e que não gosta de mim – por ter aparecido no trabalho parecendo saído de um filme com Tom Hanks, comentário pelo qual acho que vou apelidá-la de Wilson.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;Vanessa não tem nada a ver com isso. Se intrometeu aqui por que é abusada, como todo mundo nesse quadrilátero gelado é para comigo, afinal, eu sou só o Daniel. E logo você vai descobrir que esse “só o Daniel” não é autopiedade nem autodemérito, e sim um senso de realidade aguçado pra caralho. Mas eu também não tenho nada a ver com isso e me intrometi aqui porque presto tão pouco quanto Vanessa. Ela, que passa todo dia embaixo da janela do escritório, ela tem tudo a ver com isso, ela é isso, ela é tudo.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;E não me conta nada, claro, porque eu não falo com ela, eu não falo com ninguém, e ela é real. Se ela fosse minha personagem, me diria um nome e uma vida, ou nada disso, por que essa história de personagens que têm poder sobre os autores já deu, essa poesiazinha barata de quem viu muito conto de fadas na infância e quer mesmo acreditar que escrever é uma coisa sobrenatural ou – o que é mais constante – de quem sabe que essa porra é só um teatro mal-feito e faz pose de escritor maldito assolado pelo carma da escrita, pelo Fado sem escape da literatura, pra convencer primeiro a si mesmo e depois a todo mundo de que ser artista é especial, uma palhaçada. Mas se ela fosse minha, eu pelo menos teria poder sobre ela pra lhe dar o que eu quisesse segundo minha vontade, sobrenome, número de telefone, data de aniversário, endereço de trabalho, tipo sanguíneo, conta bancária. Acontece, porém, que ela infelizmente existe e eu nunca me aproximei dela e, ainda que me aproximasse, não conseguiria perguntar seu nome ou dizer só uma vez cada sílaba do meu.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;É tudo culpa do Ângelo. Se ele tivesse lido Camus, se ele gostasse de Polanski, se ele conhecesse Diego de Rivera, se ele ouvisse Thelonious Monk, ele aturaria o Otávio e eu teria tomado o meu café há exatos três meses atrás. E agora estaria vendo pela quinta vez o discurso do rei com Farrokh deitado no meu colo.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;E como não conseguirei falar pra ele pessoalmente, abro este parágrafo e aproveito esta linha pra mandar o Ângelo pra puta que o pariu. Na companhia do Otávio e de algumas citações de Foucault.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;Sabem, fui um bebê de olhos azuis bem claros, e o esquerdo sempre era o segundo a se abrir quando eu piscava. O esquerdo continua azul, e mais opaco a cada dia, enquanto o direito ficou opaco, acinzentou e esverdeou antes de eu completar quatro anos e agora clareia verde cada dia mais, clareia cada dia mais, clareia, clareia, até desaparecer.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;Deve ser por isso que moro com Farrokh num apartamento de um quarto, que é também sala, metade de cozinha, biblioteca e área de serviço. Chego do trabalho todo dia e abro a porta de casa sabendo que encontrarei Farrokh Bulsara sentado no tapete da sala. Ele levanta a cabeça, sabe que sou eu e torna a baixá-la. Então sento do lado dele e faço carinho no pelo amarelo depois de pôr no som uma música lenta. Farrokh gosta, fica quieto, com os olhos vazios parados no escuro, e às vezes chega a dormir. Ele não sabe falar, porque é gato. Não sabe o que é cor, porque seria daltônico não fosse cego. Gosta do meu toque de mãos pequenas. E não me pergunta nada. Porque gostaria de qualquer toque. E tem a sorte de não precisar preencher com palavras o espaço entre os laços. Invejo Farrokh Bulsara, nunca fui um gato cego, nunca aprendi a cantar.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;E talvez por tudo isso eu sempre vá sozinho ao sempre mesmo restaurante na hora do almoço, que é a mesma todos os dias. Sempre passo na frente de um monte de outros restaurantes, mas não entro. Sempre tenho a oportunidade de sair pra almoçar antes ou depois do meu horário costumeiro, mas não saio. Sempre penso em pedir um pão com parmesão e orégano de trinta centímetros com recheio de frango defumado com cream cheese e molho de cebola agridoce, mas peço um pão de três queijos de quinze centímetros com recheio de almôndegas e molho de mostarda e mel no Subway. Com uma Coca-Cola de meio litro e um cookie de gotas de chocolate. Me imponho rotinas que sou incapaz de quebrar, pelo que me proíbo há exatos seis meses e dois dias de rever into the wild, que me faz ficar insatisfeito com a minha vidinha que só não muda porque eu não tenho força pra me dar coragem.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;Daí que estou sempre na mesma mesa do mesmo restaurante, meio-dia e meia em ponto, exceto fins de semana e feriados, quando não vou ao trabalho e almoço sanduíche e janto lasanha congelada no meu apertamento velho e cheio de umidade. Nunca tem ninguém à minha frente na mesma mesa do mesmo restaurante. Nem ao lado da minha frente. Nem em frente ao lado da minha frente, ou seja, ao meu lado. Eu e quatro cadeiras vazias comendo em silêncio. Imagino meu par de pés grandes se sacolejando em baixo da sempre igual toalha vermelha do sempre mesmo restaurante em que almoço sempre à mesma hora, porque sou baixo demais pra que meus pés alcancem o chão quando me sento. Imagino meu par de pés suspensos no ar calçados com o mesmo par de tênis All Star comprados há exatos dois anos, isso que é mentira.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;Eu poderia escrever uma carta de suicídio e até pensar em cometê-lo. Dizer o quanto a minha vida medíocre é medíocre e o quanto o meu estado de espírito infeliz é infeliz. Discorrer sobre a minha necessidade de me tacar da janela. Inventar um personagem depressivo cuja cena de suicídio com uma dose cavalar de barbitúricos eu descrevesse detalhadamente. Um tiro na testa é sempre uma boa estratégia de marketing. Mas eu prefiro me lembrar dela, que passa pela calçada todos os dias, feia e com orelhas de abando, e descrevê-la com amor e esperança, algumas conjeturas e muita idealização, como se ela pudesse mudar a minha vida medíocre e o meu estado de espírito infeliz, porque uma boa dose de romantismo vende mais.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;Há três meses, ela é tudo o que existe. Ela é a tinta dessa caneta, a quarta, comprada há exatas três semanas juntamente com outras três na papelaria incrustada em baixo desse prédio velho de subúrbio. Eu poderia agora ficar enrolando sobre o quanto eu moro longe do trabalho e tenho que pegar dois ônibus na ida e na volta do centro da cidade todos os dias e sobre o quanto eu acho tristes os olhares dos mortos-vivos apinhados uns sobre os outros, os braços dependurados nos ferros do ônibus, ou andando em meio à multidão pavloviana das ruas do centro do Rio, indo todos os dias pros seus trabalhos à mesma hora e voltando contentes pra casa a tempo de ver a novela das oito que começa às nove. Eu também poderia contar que há três exatas semanas comprei quatro canetas azuis Compactor na papelariazinha chinfrin em baixo do prédio velho de subúrbio onde eu moro e que eu as testei num papelote amarelo, joguei-as na minha bolsa e voltei pro meu apertamento velho e úmido onde Farrokh me esperava ansioso por ouvir uma música lenta. Eu poderia até contar que a primeira caneta não escrevia quando a testei e que a troquei por outra, que parou de escrever quando cheguei em casa, que a segunda escrevia muito claro e resolvi dar uma chance pra tinta sair mais forte com o uso, mas ela foi clareando até desaparecer, como o meu olho verde, que a terceira vazava tinta, o que achei que fosse por pouco tempo e, quando a tirei de dentro da bolsa, o de dentro da bolsa estava azul. Mas a tinta da quarta caneta está quase acabando, ela é a tinta da quarta caneta e eu não quero que ela acabe antes de eu saber quem ela é.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;Por ela desenvolvi uma lenta incapacidade de sublinhar frases marcantes nos livros sem riscar as palavras. Isso é marcante. É também emblemático e bonito, bom pra ser sublinhado com canetas azuis de quem ainda consegue não riscar as palavras. Gastei metade do meu último cigarro pra escrever tudo isso, que ela não vai ler, talvez nem você esteja lendo. Meu único consolo é que eu não fumo.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;Eu deveria comprar um maço de cigarros, pra andar com um deles aceso entre as pontas do indicador e do médio. E deveria comprar um violão, pra andar com ele nas costas enrolado numa capa preta. O que me daria uma bela pose com esse cabelo desgrenhado e essa barba enorme com trança na ponta. Eu deveria cantar, rolar de rir ou chorar, mas na vida real, que não é romance B nem letra de samba, ninguém teria pena de um gago vagabundo. Nem quero que ela fique corcunda. Ela já é feia demais.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;O escritório todo vazio à noite, uma luz amarela sobre mim e a cidade apagada aos meus pés, enquanto eu permanecia à janela, olhando pra fora, pra calçada onde ela sempre passa no mesmo horário, duas e meia de todas as tardes, e apalpando com minhas mãos pequenas os traços de meu próprio rosto. Quem enxerga pouco como eu reconhece melhor pelo toque. Meu olho verde abriu-se primeiro, depois se abriu o azul, sempre atrasado. O trabalho me iluminou de branco, era dia e eu tinha perdido meia hora num devaneio covarde. Limpei os óculos fortes, não limpei o suor da testa, tive medo das minhas mãos. Porque sou ambidestro o mundo é reto. Porque sou gago a dor se repete. Porque vejo pouco e tenho mãos pequenas não me conheço. Porque não gosto de café doce demais ela existe. Porque Ângelo não gosta de Godard, ela hoje vestia vermelho.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;Isso foi há cinco horas atrás, antes de eu vir pra casa sentado no ônibus, observando à janela a cidade que se acendia. A cidade muito grande onde estou para sempre aprisionado na minha covardia de ir embora e na minha frustração por ser covarde, apenas inerentes ambas do meu desejo idiotinha e ultrapassado de correr o mundo pra ver se há algo mais do que o pouco de todos os dias, se a vida de um gago hipermétrope com um olho de cada cor é no Canadá a mesma que levo no Rio de Janeiro.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;Eu sou um bundão. Por ter escrito aquele &lt;i style=""&gt;para&lt;/i&gt; sempre lá de cima. E esse bundão aqui do lado.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;E por ficar tentado a escrever agora que a cidade é o meu crânio esmagado entre os paralelepípedos, os meus peitos de asfalto à espera das línguas de enchente, o som de todas as catedrais a me pender das orelhas. A cidade é meus dentes de nicotina piscando atenção, meus olhos de siga, meus hematomas pisando em freios. A tinta das fachadas é minhas lágrimas de parafina pingando sobre as flores. E todas as pétalas de sangue chovendo dos flamboyants. Quero ferver de novo as cordas do meu violão, soprar meu clarinete de unhas vermelhas, tomar uma xícara de café com ópio e tentar não dormir durante o pesadelo. A cidade é grande e tem cheiro de esgoto. A cidade é suja, a cidade é cinza, a cidade é uma pedra no peito. E eu sou um suspiro de dor.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;Mas não escreverei nada disso, é brega demais.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;Ou escreverei. Escreverei tudo, percorrerei todos os temas, me voltarei sobre todas as questões, e serei brega, serei tosco, clichê, pobre, vulgo, serei poeta barato, autor sem talento floreando vocabulário pra compensar a falta de assunto, matando personagens no final pra compensar a falta de profundidade. Eu não preciso de lirismo, eu não preciso de beleza, nem de força, nem da sua opinião. Sou o dono dessas palavras, o mundo é aqui e é meu. Sou a velha rota de olhar triste à espera do ônibus, sou as dobras nas orelhas de todos os livros, o pelo amarelo de todos os gatos cegos e as mãos nos ombros das crianças em fila. Sou o relógio da Central do Brasil, sou o azar dos coelhos sem patas, os graves de Fedora Barbieri e os agudos de Florence Jenkins. Sou o solstício de inverno anoitecendo às cinco e meia de uma tarde fria na beira do mar, sou a tarde fria, sou o frio, sou a beira e sou o mar. Sou os ipês lilases de julho, os amarelos de setembro, os flamboyants de novembro, sou o ano inteiro, sou todas as cores, sou o caos e o equilibro, a vida e a paralisia, a minha falta de humildade e os meus arroubos de pretensão. Sou muito, sou além, sou você e sou ela. Sou inconsumível e absoluto. Sou a plenitude que penetra meus olhos diversos e por eles posso ver todas as faces de todas as coisas, porque a palavra é o tolhimento da imagem. E tudo é imagem. Então tudo é meu, ela é minha. Sou a primeira centelha da criação.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;E dou a ela o nome de Maria Lucia, sem acento, é claro. Gosto de Maria Lucia, sem acento, porque é o nome da minha mãe, que aqui se chama Teresa, o que não importa, já que aqui sou homem e me chamo Daniel, meu avô morto de enormes e claros olhos azuis que nunca se tornaram verdes como ficaram os meus. Maria Lucia está de vermelho e trabalha num escritório gelado, desce todos os dias sempre no mesmo exato horário pelo elevador do prédio onde trabalha e vai almoçar no sempre mesmo restaurante onde sempre almoço, todos os dias, duas horas antes dela, à mesma mesa a que ela agora se senta. Vermelha como uma pétala de flamboyant.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;Saio do trabalho sem avisar Vanessa, que me vê saindo e reclama, gritando comigo pelas escadas. Viro-me pra Vanessa e mando-a à puta que a pariu com todas as letras ditas apenas uma vez. Vanessa se assusta agora, porque cresço e ela precisa levantar a cabeça pra me olhar nos olhos assimétricos, um de cada cor. Desço as escadas correndo e atravesso a portaria do prédio onde trabalho. Corro, corro, corro, o mais rápido que posso, vou atrás de Maria Lucia, que almoça sozinha neste exato momento.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;Ela põe os cabelos pra trás porque sabe que ninguém a observa, ela já perdeu a prepotência esquizofrênica dos tímidos, que se acreditam observados o tempo todo, mal de que ainda não me curei. Maria Lucia joga os fios crescidos pra trás das orelhas de abano de que ela tanto se envergonha pra que possa levar o garfo à boca sem correr o risco de morder seu próprio cabelo liso preto. E segue mastigando lentamente seu prato de macarrão, segue carregando seu sangue A negativo, precisando soletrar seu sobrenome Cochrane quando perguntada, movimentando o pouco dinheiro de sua conta salário no Banco Itaú, frequentando frustrada seu emprego na rua da Quitanda 192, comemorando seu aniversário no dia 6 de agosto, atendendo seu telefone celular sem bateria com um número cheio de oitos.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;Sei onde ela está e tudo que ela faz e pensa. Sei de tudo, porque sou o restaurante, sou a mesa, as quatro cadeiras, as duas e meia da tarde e a roupa vermelha de Maria Lucia. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;Sou Maria Lucia, de quem agora me aproximo, sem deixar que ela me veja. Sou toda a minha vontade de puxá-la pela mão e levá-la pra outro restaurante, outra mesa, em outro horário, longe dali e das nossas vidas medíocres com nossos estados infelizes de espírito.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;Sou o ônibus que pegaremos pra lugar nenhum, só pra quebrar a rotina, sou o batom vermelho que ela comprará pra tentar ficar mais bela pra mim, sem sucesso, é claro. Sou suas orelhas de abano sacolejando dois brincos de contas de vidro que compraremos numa cidade qualquer.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;E um beijo estalado que ela me dará na orelha.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;Sou nossas mãos geladas se entrelaçando durante uma chuva torrencial. Sou nossos arrependimentos e nossas alegrias. Sou nossa mudez recíproca, porque sou gago e ela surda e não precisamos falar.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;Sou sua surdez que a impedirá de ouvir minha gagueira. E seu daltonismo que a impedirá de diferenciar meus olhos assimétricos.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;Sou tanto e isso me dá um poder tão grande que me sinto sozinho no escuro, que sou o escuro e a sala em volta. Que sou meus olhos se abrindo, o verde primeiro e só depois o azul, pra sala escura em volta, silenciosa, porque a música acabou.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;Sou Farrokh Bulsara lambendo os dedos de meus pés, sou o silêncio assustador na sala vazia e a música lenta que acabou no som.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;Sou as folhas marcadas em vão no meu caderno pautado. Eu sou as folhas do meu caderno pautado e as marcas fundas das palavras ilegíveis que tentei traçar. Sou Maria Lucia e ela é tudo o que entendo, gravado fundo sobre o branco.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;Porque eu sou o fim da tinta.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;E da linha.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-6454419643499202987?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/6454419643499202987/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2011/09/tres-colheres-de-acucar-um-conto-cliche.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/6454419643499202987'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/6454419643499202987'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2011/09/tres-colheres-de-acucar-um-conto-cliche.html' title='TRÊS COLHERES DE AÇÚCAR – um conto clichê'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-8385339479313942254</id><published>2011-09-12T14:08:00.003-03:00</published><updated>2011-09-12T14:10:12.835-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Caros, estive ausente. E não sei por quanto tempo durará minha atual presença. Estou voltando, estou tentando voltar a. O tempo é curto, muitas coisas acabam tomando a frente do carma da escrita. Mas estou voltando, estou tentando voltar a.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-8385339479313942254?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/8385339479313942254/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2011/09/caros-estive-ausente.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/8385339479313942254'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/8385339479313942254'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2011/09/caros-estive-ausente.html' title=''/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-1236534042474143129</id><published>2011-09-10T15:17:00.008-03:00</published><updated>2011-09-10T16:04:02.711-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='não sei que fim vai ter.'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='confissão'/><title type='text'>Risoto de Camarão com Abobrinhas</title><content type='html'>&lt;h6 style="font-weight: normal; text-align: right; font-style: italic;" class="uiStreamMessage" ft="{&amp;quot;type&amp;quot;:1}"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span class="messageBody" ft="{&amp;quot;type&amp;quot;:3}"&gt;Aprendendo  os benefícios de abrir as janelas, respirar fundo, ver os pardais por  entre os galhos do loureiro, os miosótis azulando a fachada, as flores  amarelas desabrochando no ipê. Pôr a água no fogo pra uma xícara de chá,  lavar os pratos, a roupa. Ouvir uns solos de piano, cantarolar com  minha voz grave demais. Acordar sem ondas, transparente, conchas brancas  no fundo.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/h6&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Tudo isso é lindo, mas... eu não sou escritora,... não é mesmo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que mais me incomoda nesse "ser escritor" (eu diria contemporâneo, mas não tenho certeza de ser isso assim tão recente, na verdade creio ter sido sempre assim) é o "ter que". Não apenas parece que o texto é o que menos interessa, que o talento, o sentimento, a profundidade e essa coisa toda são o que menos interessa. Não apenas parece: não interessam mesmo. Importante é frequentar as festinhas, babar ovo de fulaninhos que chegaram antes e que, diga-se de passagem, são tão ninguém quanto você, se digladiar atrás de um espaço ínfimo num meio só lido por gente do meio que vai te criticar porque queria o seu espaço... no meio. Tudo tão mediano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho visto coisas como: reuniõeszinhas chinfrinzíssimas com um bando de gente que se conhece se rasgando em elogios aos livrinhos recém-publicados dos seus coleguinhas (sem sequer tê-los lido); gente sem o mínimo talento, escrevendo três milhões de merda, com cinco livros editados, lançados na Europa, resenhas em jornais, revistas, rádio e tevê; uma geração desunida de escritores que competem uns com os outros, que fomentam uma guerra inexistente, esquecendo-se de que escrever NÃO É um negócio (embora o mercado editorial seja,  PUBLICAR não é ESCREVER) e os demais escritores NÃO SÃO seus concorrentes, mas companheiros de estrada, pra trocar ideias, não tacar pedras ou pisar no pescoço, for the God's sake; toda uma geração parada no tempo, ainda ouvindo música dos anos sessenta, vendo filmes dos anos trinta, usando roupas dos anos oitenta e achando o máximo não correr o risco do novo, porque ser old-fashioned é muito cult e a pose é tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho me decepcionado com o meio literário porque noto que os "escritores" querem ser lidos e não querem ler, querem ser publicados e não compram o que está sendo publicado, querem admiradores e não se mostram humildes pra elogiar o trabalho alheiro. Em geral, querem o que não oferecem, não consequem o que querem e tentam puxar o tapete de quem quis e conseguiu. E talvez tudo isso não passe de um ressentimento meu próprio, que, como boa gaga, não falo uma palavra com ninguém, o que me impede de manter contatos, isso que é tão mais importante do que o que está escrito - inusitado, não?, dado que escritor, acima de tudo,... ESCREVE. Uma pessoa muda que vive da escrita eu sou, e acho extremamente injusto esse mundo ser dos espertos marketeiros que quase sempre têm vocação pra cabo eleitoral, mas nenhum talento literário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não acredito no marketing, muito menos pessoal, não acredito no "vender o peixe", não acredito em nada disso, porque acho que é justamente o "estar ligado" no que querem vender, no que tem poder suficiente pra ter um grande raio de alcance, que faz do público um grande glutão preguiçoso estilo D. João VI, com uma coxa de frango no bolso e um best-seller debaixo do braço. É porque há uma empresa editorial endinheirada vendendo e vendendo, e porque os "escritores" de hoje aceitam isso, corroboram com a ideia, reduplicam o discurso e desejam money money acima de tudo, que não possuímos a justiça competitiva que merecíamos: uma prateleira com o sucesso internacional ao lado de um autor iniciante que não está ali por contatos, mas por mérito, porque sua escrita vale mais do que sua foto ao lado do Arnaldo Jabor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, escritor quer ser lido. E claro, escritor precisa comer. As contas não param de chegar no fim do mês porque deu bloqueio criativo no escritor. Artista tem que sobreviver, como qualquer profissional, e me irritam muito pessoas que acreditam que você, que escreve, o faz por gosto e tem que guardar seus sonhos nas gavetas ou esperar que o Nobel venha até você. É claro que nós, escritores, queremos sim, e temos o direito de, ver nosso trabalho reconhecido sem que isso se dê postumamente, não é? Mas acontece que ninguém pediu pra gente escrever um livro e é por isso mesmo que ninguém dá a mínima se seu livro foi publicado. Seus amigos vão achar um arraso, sua família vai esfregar na cara dos vizinhos. E? E pra que haja mais do que isso, vamos dar as mãos, cacete, vamos ler o que está sendo produzido, vamos parar de reduplicar o bonequinho do Globo, a opinião da "crítica especializada", vamos trocar ideias entre nós e tudo e tal, em vez de nos enxergarmos como inimigos. LITERATURA, verdadeira, com gosto, com paixão, pra expurgar os demônios, não é peixaria.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-1236534042474143129?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/1236534042474143129/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2011/09/risoto-de-camarao-com-abobrinhas.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/1236534042474143129'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/1236534042474143129'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2011/09/risoto-de-camarao-com-abobrinhas.html' title='Risoto de Camarão com Abobrinhas'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-3168843373245052792</id><published>2011-06-14T23:38:00.001-03:00</published><updated>2011-06-14T23:39:20.793-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Beauty Projection'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='conto'/><title type='text'>Voices</title><content type='html'>&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;b style="mso-bidi-font-weight: normal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;VOICES&lt;?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;b style="mso-bidi-font-weight: normal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Queria aprender a patinar no gelo, a ler em hebraico bíblico e tocar violoncelo, lutar karatê e amarrar os sapatos, pilotar jet ski e dar cambalhota, ler hora em ponteiros, assobiar, nadar e dançar balé clássico, tocar piano e bateria e guitarra e baixo elétrico, harpa, viola e oboé, falar italiano, romeno e grego koiné, cozinhar, sapatear, sorrir na hora certa, falar na hora certa, dormir oito horas por dia, ter dez orgasmos por vez. Mas de tudo o que não fui ficou só a vontade. E essa dor que chamaram esperança.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Vivo calada.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Isolada no meu&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Canto.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Olho o meu passado. Ele é tão feio.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;O maestro disse que não sabe o que eu sou.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;A única diferença entre mim e todos os que me cercam é que o meu fim tem data marcada. Isso não é um desastre. A vida é uma imposição à carcaça. A vida longa é uma tortura à natureza. Cada dia é uma perda e dizer isso é um clichê. Poupo à humanidade a dor do meu perecer.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Passei mais um dia calada à mesa do jantar. Eu não falo porque não consigo. Eles não falam porque eu estou ali. De dentro da minha cela escura, olho a rua. Lá fora não há criança nenhuma brincando agora, às cinco da manhã. Eu não sou mais criança, mas um cadáver não pode envelhecer. A luz amarela do poste em frente à minha janela se reflete na poça da chuva de ontem. Ontem ainda não secou.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Dói muito. Dói muito. Dói muito. Eu quero querer desistir, mas acho que é sina. Devo ser a moura encantada. Cada nota musical é um pedaço de morte. Sou uma cascata rubra desaguando no meu rosto branco. Sou um romance descartado de Santiago Nazarian.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Eles riem do meu nome, porque é feio. Eles riem do meu rosto, porque é feio. Eles riem das minhas roupas, dos meus sapatos, meus olhos opacos, minhas espinhas pustulentas, minhas sobrancelhas grossas com pelos sem direção. Eles riem de mim, eu sei, e talvez eu mereça. Talvez seja a minha sina, meu signo, vidas passadas, e Freud, búzios, tarôs, quiromancias, banhos de ervas, seções de descarrego e benzedeiras possam explicar. Eles podem rir de mim. Mas só eu posso cantar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;MÚSICA PLENA: Você é uma das poucas cantoras no mundo inteiro que conseguem executar mais de uma voz ao mesmo tempo, às vezes até articulando palavras ou mesmo melodias diferentes. O que te motivou a aprender essa técnica tão rara?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;NARA VEIGA: Uma voz só era muito pouco.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;MP: Você possui uma doença raríssima que, segundo os médicos, não te permitiria cantar. Entretanto, você é uma das cantoras com maior habilidade técnica do mundo. Ao que você acha que isso se deve?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;NV: À justiça cósmica.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;MP: Muitas foram, ao longo da sua carreira, as cenas de dor que seu público presenciou durante as suas apresentações. Se cantar te faz tão mal, por que você continua?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;NV: Porque nem toda paixão é prazerosa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Eu sou branca demais, branca demais, branca demais. Eu sou um fantasma. E não consigo nem mesmo gritar pra assustar os vivos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Subi em um palco sozinha pela primeira vez hoje. Meu pai estava na plateia e foi o primeiro a levantar pra me aplaudir. Por um curto momento, acreditei que isso era amor.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Ontem fiz aniversário. Ninguém apareceu. Não tive bolo. Sou a única que poderia cantar parabéns pra mim, mas não posso. Quando eles vestirem preto e as velas acesas não forem mais pra eu assoprar, será um alívio pra eles. Às vezes penso que só vivo pra contrariar meus pais.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;REVISTA CLAVEZ: Você adotou o nome Nara em homenagem a Nara Leão?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;NARA VEIGA: Meu nome é Nara.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;RC: Mas pela nossa pesquisa, seu nome verdadeiro é Vanilceia.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;NV: Nara Veiga é cantora. Vanilceia é apenas humana.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Deixei a caixa cair. Todos os retalhos se misturaram. Achei bonito. Minha vida não tem mais ponto de partida. Olho o digital da cabeceira. São 22:22. De igual já basta o tempo. Vou deixar meus retalhos por organizar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Eles saíram. Devem ter ido jantar. A vida deles é normal com exceção de mim. A filha, a neta, a sobrinha, a irmã que perdeu a deixa e insistiu em viver. A minha morte seria motivo de comoção nos Natais e, todos os anos, no dia que deveria ser o do meu aniversário. Na dor da minha perda, todos se uniriam pra chorar e imaginar como eu teria sido se tivesse podido viver. Mas eu fui fraca e não quis morrer.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Diva Nara,&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Pensa bem, é arriscado. É melhor desistir, vai por mim. Você é a melhor, todo mundo sabe disso. Não precisa arriscar sua saúde para provar nada a ninguém. A última nota é alta demais. Por favor, não esqueça da sua doença. Seu pulmão pode não aguentar, você sabe. Estou voando para o Rio agora mesmo. Não aceite o papel antes de conversarmos. Não faça nenhuma besteira. Você sabe que dessa hemorragia você pode não passar. Quando receber essa carta, por favor me ligue.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Um beijo carinhoso do seu&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Fernando.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Um pé. Eu não vi. Ele não estava lá antes. Mas estava quando eu caí. Eu não pude me levantar, eu não conseguia respirar, eu queria gritar de dor, mas ninguém ia me escutar. Escrever é tudo o que eu tenho. Nesse hospital eu nunca tinha vindo parar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Estamos de mudança. Não faz diferença. Eu tenho quinze anos, nenhum amigo, cinco pares de All Star e um sonho impossível. Não deixo nada. Não levo nada. O Steve Perry deixou o Journey, o Freddie morreu, o James LaBrie rompeu as cordas vocais. Meus heróis não são os do Cazuza, mas eu ando tão down.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;u&gt;&lt;span style="FONT-SIZE: 13pt"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;ESCOLA DE MÚSICA CARLOS GOMES&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/u&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Promoção&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Mensalidade a partir de R$ 350,00 para o primeiro semestre.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;CURSO PREPARATÓRIO PARA VESTIBULAR.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Aulas de canto lírico, canto popular, violão,&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;guitarra, bateria, baixo elétrico,&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;piano, teclado,&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;violino, violoncelo, contrabaixo,&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;clarinete, oboé, flauta transversa,&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;saxofone e muito mais.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;QUEM QUER APRENDER MÚSICA&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;ESTUDA NA&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;u&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;ESCOLA DE MÚSICA CARLOS GOMES&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/u&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="FONT-SIZE: 10pt"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(Mantenha a cidade limpa)&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;A recordação mais antiga da minha infância é da minha mãe chorando ao meu lado no primeiro dos muitos leitos de hospital em que me deitei. Deve ter sido nesse dia que ela ficou sabendo que eu viveria pouco, que o meu ar seria sempre pouco, a minha voz, eternamente sussurrada e a minha força, extremamente nula. Se ela soubesse que eles estavam errados naquele dia, eu teria vivido. Mas desde então ela me matou.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Cantei hoje na varanda. Eles vieram ver quem cantava. Nelson me perguntou quem mais cantava junto comigo. Eu estava só. Ele não acreditou. Então cantei novamente. Espanto. Vi minha avó ajoelhada aos pés do menino Jesus guardado no quarto dos fundos junto com as madeiras velhas e as ferramentas desusadas. Quis gritar muito alto, exigir a autoria do milagre e cobrar os agradecimentos. Abri a boca, articulei a vogal escolhida. Quase, quase, quase gritei. Agora estou com medo. Antes, o silêncio me protegia de mim.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;A professora faz a chamada. Não escuta a minha voz. Depois de dez anos estudando nessa mesma escola, ela ainda não sabe que tenho pulmões de pássaro, que não posso falar alto ou meu nariz sangra, que a minha voz é um sopro informe. É bom que ela nunca aprenda. Porque isso vai mudar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Desmaiei no palco. Antes de perder por completo os sentidos, ouvi o grito de horror da plateia. Antes de fechar por completo os olhos, vi a poça de sangue ao meu redor. Meu empresário acaba de vir me trazer um buquê de flores, um cartão e os jornais de hoje. Sou capa de três dos principais deles. Os entendidos me elogiam. Não há como negar: eu sou a melhor cantora que o mundo já viu. E hoje eu só queria poder esfregar todas essas críticas na cara dos médicos, da minha família, da minha mãe.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Recolho cinco pedaços de papel na escrivaninha de meu pai. Rasuro três, jogo um no lixo. Sobrou só este e só estou escrevendo nele porque eu odeio muito. Eu odeio muito, muito. Me odeiam muito também. Eu insisto, eu insisto. Eu não vou desistir de viver até que eu possa cantar. Eu vou continuar aqui até que a vida ou alguma justiça cósmica me permita extravasar tanta música coagulada no meu sangue.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Os dirigentes do teatro decidiram que eu sou contralto porque eu alcanço o fá da primeira oitava. Depois me disseram que era mentira, que eu sou um enigma e que os recursos humanos não deviam saber que preencher o espaço destinado ao naipe vocal no meu cadastro de funcionários pode dar diarréia mental.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Fugi da escola e agora espero. Tive que roubar muito dinheiro do meu pai pra pagar essa mensalidade. Mês que vem não sei.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Querem que eu interprete uma ária medieval escrita pra um castrado. Fernando disse pra eu recusar, que pode ser arriscado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Aceitei. Achei muito apropriado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Risquei o fósforo, mas não consegui prosseguir. Eu odeio o meu passado, a minha infância de fantasma, a minha juventude sob risos. Eu odeio tudo de tão horrendo que já vivi, o reflexo horrendo que já tive no espelho. Mas essa caixa é um membro meu. Ela também quer sobreviver.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Eu disse:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;“Mãe”.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Ela chorou.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Ontem eles vieram. Me enfiaram um cateter na veia do pulso e o sangue jorrou. Depois jogaram pra dentro de mim algum anestésico sem efeito e eu dormi. Está chegando. Eu sabia desde que nasci e não me enganei, como fazem os outros. Meu lado esquerdo não se movimenta mais. Meu pulso direito dói terrivelmente a cada letra. É insuportável, mas é preciso. Só me resta escrever agora que sou novamente silêncio. E depois de tudo que vivi, no fim só podia mesmo me esperar o grande silêncio. Minha voz é um imenso vácuo pulsando no meu pulmão fetal. Já não gorjeio. Por dentro, sou pura música desperdiçada. Amanhã, quando eles voltarem, talvez eu já não possa mais nem escrever. Cada minuto é uma perda. Todos os clichês são inúteis, que o maior deles está pra chegar. Será breve. E talvez essa seja a minha última frase: estou morrendo de derrame musical.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Perdi minha mãe. Ganhei uma bolsa de estudos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Eu tenho sete anos e não sei falar. Eu me olho no espelho e sou muito feia. Meu irmão é grande, é bonito e sabe nadar. Meu irmão tem um futuro bonito e se chama Nelson. Deve ser bom andar na rua olhando pra frente e se chamar Nelson. A casa inteira está prendendo o ar desde que eu nasci. Devo pesar. Quando eu morrer será mais leve.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;NARA VEIGA interpreta a ópera MEDEIA&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Em cartaz no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;NÃO PERCA!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="FONT-SIZE: 10pt"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(Mantenha a cidade limpa)&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: center; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Minha voz é um feto crescendo num ventre pequeno demais. A cada música, minha garganta pare um membro paralítico do filho natimorto que insiste em se regenerar. O som nunca acaba por dentro. Sou melodia aprisionada num instrumento fadado a perecer.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Diva Nara,&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Sua apresentação ontem foi a melhor execução de Medeia que o mundo já viu. Derrame mais música para o mundo. Muito mais!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Um beijo carinhoso do seu&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Fernando.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Em três meses, termino meu curso de música. O maestro do coro do Municipal me chamou pra um teste. Eu sei que eu passo. Eu sei que eu passo. Eu sei que eu passo. Ele sabe disso também. Eu sou muitas cantoras dentro da minha carcaça perecível.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;“Vanilceia Veiga, não sobe aí! Você vai cair!”&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Queria gritar: meu nome é Nara! E eu não vou cair, bater com a cabeça e morrer agora. Só depois que eu puder cantar, cantar, cantar, pro mundo inteiro ouvir toda a minha música represada. Aí então, mãe, eu te dou essa alegria!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Quando alcancei o fá sustenido da sétima oitava, meu nariz começou a sangrar. Nunca tinha sido tanto. Senti algo arrebentando no meu peito. A dor escorreu por todas as veias. Cerrei os olhos com mais força tentando manter o vibrato sem interrupção. Abri os olhos no sétimo segundo. A plateia me olhava com horror. Fernando gritou a alguém na coxia que era preciso me fazer parar. Senti o sangue cair pelo rosto, descer pelo pescoço, entrar pelo decote e escorrer pelo meu corpo manchando o vestido vermelho. O ar faltou no décimo primeiro segundo. Faltavam ainda dois pra acabar a sequência. Os aplausos foram os mais fortes que já ouvi na minha vida.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Até que o meu fracasso me cegou.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-3168843373245052792?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/3168843373245052792/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2011/06/voices.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/3168843373245052792'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/3168843373245052792'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2011/06/voices.html' title='Voices'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-8509829818986797694</id><published>2011-06-14T22:30:00.000-03:00</published><updated>2011-06-14T22:32:03.547-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='não sei que fim vai ter.'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='confissão'/><title type='text'></title><content type='html'>...O cheiro dos teus olhos ainda nas minhas mãos. A saudade me jorra por todos os poros, a tristeza me escorre por todas as lágrimas, o amor me sai por todos os clichês. Tua partida é uma pedra no peito. E eu sou um soluço de dor...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-8509829818986797694?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/8509829818986797694/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2011/06/blog-post.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/8509829818986797694'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/8509829818986797694'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2011/06/blog-post.html' title=''/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-5107645165495256504</id><published>2011-06-07T06:13:00.001-03:00</published><updated>2011-06-07T06:13:50.107-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Beauty Projection'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='conto'/><title type='text'>Raining</title><content type='html'>&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Saio de casa. Olho os lados. Ninguém. A rua deserta num domingo de sol incomum no inverno. Não chove, não chove. Se chovesse. Se. As esquinas vazias, nenhum intruso me observando atrás dos postes. Tranco a porta deliberando olhos escondidos por trás das cortinas de algum apartamento do prédio em frente. Olho as janelas, uma a uma, enquanto guardo as chaves no bolso da minha calça rasgada de velha, como as que eu comprava mais caras pelo estilo underground. Tão longe aquele tempo. Vidros abertos, cortinas escancaradas nos apartamentos. Ninguém me seguirá pelas ruas da vizinhança até o lugar que há tantas semanas eu planejo indeciso visitar. Estou a salvo. Abro o portão do quintal. Piso a calçada com o pé esquerdo e me arrependo. Mas sei que nenhum ritual pode me salvar. E sigo em frente.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Mas quero virar estátua de sal.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Mãos nos bolsos. Olhos no chão. Meus sapatos de grife estão rasgados na ponta. Sinto as pedras portuguesas das calçadas me arranharem as solas dos pés. Tudo está apodrecendo, o bolor na minha casa, nas minhas roupas, dentro de mim. Quero chorar. Quero querer gritar. Quero voltar no tempo ou conseguir sentir alguma coisa, qualquer coisa, reavivar uma lembrança de quando tudo era perfeito e eu só pensava em querer mais. Os peitos da minha prima ao sol na praia. O rock dos meus tios no último volume ecoando pelo sítio quando o poder ainda estava em botão. Mas toda flor apodrece. Tudo distante, tudo opaco. Se pelo menos chovesse, eu poderia cantar. Não consigo. Respiro o ar pesado do calor carioca, minha testa sua. E por um curto momento fico feliz, acreditando que o que sinto é esperança. Ou tentando com força lembrar como sentir esperança é. Paro em frente a ele. Ele me pergunta o que você quer?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Olho os lados, olho outros lados, olho pra frente e pra trás, pro azul e branco e pros sapatos rasgados. Estou fadado a ter sempre esse aperto no peito que chamam medo até que tudo isso acabe. E será logo. Sinto alguém às minhas costas. Ninguém. Sinto que me seguem pelos postes, que me observam pelas esquinas, que invadem o meu quarto e me apontam um dedo na cara, que me descobrem, que me punem. Ninguém. Pestanejo, hesito, quase chego a desistir, mas tenho medo do mim mesmo que voltará frustrado praquela casa desgraçada que chamo de minha, enfurecido pela covardia desse eu de agora que duvida e se retrai. O primeiro banho de chuva com os filhos dos vizinhos. O chão de cimento molhado da tia que sumiu no mundo. Vou em frente, olho o homem à minha frente, estendo o dedo às folhas verdes sobre a tábua de madeira à minha frente. O homem pega as folhas, enrola num plástico, pega o dinheiro das minhas mãos, oferece mais alguma coisa, recuso e vou.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Acho que você chegou a me amar. Acho que você chegou a me odiar. Acho que eu te abandonei no passado, que te troquei por uma mochila nas costas, nenhum dinheiro e um caminho. Mas no fim da estrada, o abismo da memória. E eu já não lembro mais de você.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Três dias. As folhas guardadas como tesouros dentro da geladeira velha e engordurada. Não tenho coragem. Não tenho coragem. Por trás dos vidros rachados das minhas janelas, o sol forte me queima as saudades e o passado, isso que tento revolver por dentro pra me trazer alguma angústia, alguma culpa, alguma coisa, por favor, agora, já, pra que eu vomite esse frio escuro que me tomou por dentro. Minha mãe me pedindo cuidado pra eu não cair. Meu pai contando piadas na piscina. No espelho do banheiro, oxidação. As manchas amarelas pela lâmina espelhada, pelo branco dos meus olhos, pela vida embolorada em que eu não sei ao certo quando me deixei abandonar. Esse homem magro e empobrecido não estava ali, me olhando. Agora está. Me imita cada movimento e não posso lhe socar a cara amarela de foto velha. Ele deve ter me tragado num cigarro fiado, ter me engolido num copo de cerveja quente. Ele levanta a mão. Fecha o punho. Dá o impulso. E para. Com medo de cortar a mão com o soco. Ou de finalmente terminar a tortura delicada e longa com que planeja me despedaçar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Estou velho. Todos devem ter morrido enquanto as rugas tomavam conta de mim. Eu nasci quando tudo já estava morto, eu não peguei a coisa viva. Quis as rosas de Cartola, quis os cravos de Coimbra, quis as flores de Woodstock, quis os lírios de Pessoa. E com os espinhos que sobraram, quero o destino de Édipo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Enquanto esquento a água na panela amassada, me pego olhando os lados. E desespero. Sinto meus olhos se inundarem, minha garganta se fechar. E de repente sorrio. Porque as portas estão trancadas. Porque a casa está fechada. E aqui dentro ninguém pode me alcançar. Ninguém está me vendo, ninguém está me seguindo, ninguém, ninguém está aqui. Há muito tempo que só eu circulo dentro dessas paredes gastas. Estou sozinho e isso me alivia. E o alívio me dói, porque cedo ou tarde não será suspeita. Chegará o dia em que os vidros rachados se quebrarão. E tudo será pior quando invadirem a minha solidão.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Mergulho o primeiro ramo. Depois o segundo. Assim, folha a folha, talo a talo, com cuidado, tentando não pensar. O verde vai escurecendo na água fervente. Sinto o cheiro das folhas subir no ar. Meu coração acelera. Tenho medo. Meu avô de olhos azuis sentado sob o guarda-sol. Minha avó baiana mexendo a comida com as mãos. Tenho medo. Tenho medo. Do cheiro daquelas folhas, do gosto daquelas folhas, da viagem que virá depois. Tenho medo. Faz muitos anos que não me permito. Muitos anos se passaram desde que tudo era festa e eu era confiante e não tinha medo de experimentar tudo, a vida, o mundo, sem passado, sem remorsos, sem saudades, sem saber. Que um dia começa a doer.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Sem sal. Sem sal. O sal deixa a chuva com gosto de mar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Me escondo no quarto escuro, me esparramo na poltrona barata macia demais. Tento acalmar o coração, fechar os olhos e esquecer. Mas não consigo. Quero bater em retirada, de volta no tempo. E começar a viagem.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Ponho a primeira folha verde sobre a língua. Ponho a segunda, a terceira, ponho todas, tenho pressa. Lambo o verde da folha que tem gosto de nuvem cinza, de céu pesado e tormenta. Depois mastigo, mastigo, mastigo. E vou pensando que eu vivo sozinho e sou infeliz, que se eu não vivesse sozinho eu seria infeliz, que se eu não vivesse aqui eu seria infeliz, que em qualquer um dos lugares onde eu vivi eu fui infeliz, correndo o mundo eu fui infeliz, fui infeliz no passado, sou infeliz agora, a dor é anacrônica, ser infeliz é universal. Sou mochila pesada nas costas, atrapalhando a trilha. E não há nada dentro de mim que valha o sacrifício de me suportar pelo caminho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;O teto se desprende. Começou, começou. E a cadeira se desintegra, e eu flutuo, em direção ao teto que não há, aos espíritos luminosos das estrelas do espaço, mortas há milênios atrás. Começou, eu estou indo. Eu estou voltando.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Pros peitos da minha prima na praia, pro sítio dos meus tios, pro meu avô de olhos azuis.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Pras chuvas da minha infância, o cheiro de cimento molhado do quintal da tia que sumiu no mundo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Pros dias escuros de cortinas fechadas, o amarelo da lâmpada penumbrosa sob a cúpula do abajur, iluminando a sala de infância e carinho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Pro prato de sopa quente no dia frio, minha mãe me mandando tomar cuidado com a roupa, meu pai ouvindo no rádio alguma canção antiga que hoje dói.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Pra vista do meu quarto, pra vista da minha casa, pra minha casa, pra mim.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Pra algum dia chuvoso e frio, em algum lugar que não pesasse tanto quanto aqui. Pra a igreja onde eu fiz primeira comunhão, pro velório da irmã que morreu de repente, pra lugares de um passado que devo ter imaginado, e que é melhor do que o que é presente e real.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Pra você, que deve ter se casado, deve ter se matado, deve ter entrado pro serviço militar, tentado vestibular, recebido ordem de despejo, ganhado na loteria, virado freira, ou puta, ou alcoólatra, e esquecido de mim. Você que talvez tenha dois filhos lindos, ou um marido bêbado, ou uma mulher frustrada, ou tome gardenal. Pra você que era magra e tinha as pernas finas, os olhos castanhos e sardas. Que eu deixei me acenando adeus enquanto o ônibus virava a esquina. Pra você, que poderia ter sido, poderia ter sido você.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Pra antes. Antes de tudo. Trancado nessa casa miserável, mastigando folhas verdes de bertalha com gosto do cheiro de terra molhada da chuva de ontem, antes de tudo, dos cigarros, das drogas, dos porres, da fuga, da estrada, dos países, das pessoas que eu conheci pelas estradas dos países, antes, antes de tudo, antes dessa casa miserável com vidros partidos e paredes descascadas, abandonado, esperando que venham cortar a luz e a água, já cortaram o telefone e os credores vão chegar e os traficantes vão chegar e eu devo e eu não tenho, Deus!, Deus!, vontade de chorar, gritar, correr, morrer, Deus!, antes de tudo, meu avô de olhos azuis, minha avó baiana mexendo a comida com as mãos, meus pais conversando sobre um passado antes de eu existir, Deus!, trancado nessa casa miserável, mastigando o passado, mastigando, mastigando, mastigando as sobras, mastigando, mastigando as culpas, os remorsos, as saudades, as lamentações inúteis, porque o tempo não vai voltar, porque eu nunca vou voltar, porque a felicidade só vale quando compartilhada, mastigando a felicidade morta que apodreceu na lembrança em que a plantei, mastigando, mastigando, mastigando a minha vida miserável, a minha casa miserável, o homem magro do espelho oxidado, mastigando os vidros partidos, o sangue nos dentes, mastigando sem poder engolir, sem conseguir cuspir.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-5107645165495256504?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/5107645165495256504/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2011/06/raining.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/5107645165495256504'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/5107645165495256504'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2011/06/raining.html' title='Raining'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-5216212310245141688</id><published>2011-06-07T06:11:00.000-03:00</published><updated>2011-06-07T06:12:05.929-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Beauty Projection'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='conto'/><title type='text'>Beauty Projection</title><content type='html'>&lt;p style="TEXT-ALIGN: right; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="right"&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;&lt;span style="mso-ansi-language: EN-US" lang="EN-US"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;“Beauty projection in the reflection.&lt;?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: right; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="right"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;&lt;span style="mso-ansi-language: EN-US" lang="EN-US"&gt;Always the worst way to start”&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="mso-ansi-language: EN-US" lang="EN-US"&gt;.&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: right; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="right"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(Kevin Moore)&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: right; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="right"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Peguei um ônibus pra Praça Mauá. Desci. Peguei um ônibus pra Campo Grande. Saltei. Peguei um ônibus pra Madureira. Desci. Peguei um ônibus pro Castelo. Saltei. Peguei um ônibus pra Tijuca. Desci. Peguei um ônibus pra Copacabana. Saltei. Peguei um ônibus pro Meier. Desci. Peguei um ônibus pra Paraty. Saltei. Peguei um ônibus pra Belo Horizonte. Desci. Peguei um ônibus pra Montevidéu. Saltei. Peguei um ônibus pra Buenos Aires. Desci. Peguei um ônibus pra Toronto. Saltei. Peguei um ônibus pra Londres. Desci. Peguei um ônibus pra Dubai. Saltei. Peguei o ônibus onde estou. Enquanto escrevo, um peso. Uma hora eu vou ter que voltar pra casa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Pentear os cabelos, lavar o rosto e as mãos. Acordar num grito como se alguma coisa pudesse efetivamente mudar na minha vida: um espinho, um espinho, uma saída. Esperar, talvez. Talvez esperar. Como se alguém pudesse me apagar a solidão. Ou me apagar, talvez. Talvez.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Tudo é o que não parece.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Lá fora, ruídos de teclas de computador, um rádio incompreensível, a blusa vermelha do meu chefe entrevista na brecha da janela, rodas de cadeiras com rodas rodando no chão, gemidos de molas de cadeiras com gente se espreguiçando em cima, chuva no telhado de zinco e silêncio. Um mundo inteiro se matando de tédio chuvoso e rotineiro. Enquanto escrevo pra tentar não me matar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Ela não fala com ninguém. Ela não fala comigo. Ela tem os olhos verdes muito escuros. Como um mar. Ela chegou ontem e é muito estranha. Eu não sei o nome dela. Ela não se apresentou.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Eu me debrucei nas costas da cadeira que gira e fiquei girando. De olhos fechados, eu ouvia a música soprada bem perto do meu tímpano. O mundo lá de fora derretido no meu som. Depois abri os olhos e com o pé parei de girar a cadeira, e então tive a curiosidade de ver pra onde meus olhos olhavam agora com a cadeira parada. Eu nunca tinha reparado nos furos nas laterais dos armários ou que a marca das lâmpadas é Philips etc.. Pareço, percebo agora, drogado ou bêbado ou louco girando ou olhando assim e ajo agora como drogado ou bêbado ou louco, o que, talvez, eu esteja, ou seja assim já quase naturalmente, mas, enfim, é só descoragem, nem é medo, e pura literatura. E a música ainda toca e eu quero chorar, porque if I die tomorrow, I'd be all right.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Ficar sentado aqui esperando&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;é como ficar imóvel&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;quando se quer dançar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Ela me assustou, parada do outro lado da janela, olhando pra mim fixamente com aqueles olhos azuis translúcidos. Ela fingia que limpava o vidro, mas me olhava fixamente com aqueles olhos azuis translúcidos. Eu estava de olhos fechados, não vi quando ela chegou. Eu estou debruçado sobre o caderno, não vi quando ela foi embora. Mas ela já foi embora. O vidro está limpo. Ela me assusta.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Um soco na cara seria o suficiente. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Bem dado, no exato centro do meu nariz, onde doesse mais.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Se eu pudesse dormir em paz depois disso, já teria valido.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;“Todos nós estamos sangrando por dentro” (Franko B.).&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Desci as escadas, cruzei o hall de entrada, saí do prédio. Ela fumava lá fora. Me olhou fixamente com seus olhos negros fundos. Virou a cara e soprou a fumaça pro outro lado. Virou pra mim de novo e me sorriu. Sorri de volta, idiotamente. Quis beijar sua boca pra lhe sugar o de dentro. Ela tem alma demais.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Você tem que morar no mistério. Tem que morar no mistério.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Hoje acho que vou passar o dia ouvindo Led Zepellin e lendo Sylvia Plath. Minha vida é um compasso dois por oito em fá menor. Quis querer chorar. Mas acabei não querendo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Eu quero fugir, eu quero fugir, eu quero fugir. Eu não gosto daqui, eu não gosto deles, eu não gosto disso. Eu preciso ir embora dessa casa, eu não posso mais ficar nessa casa, eu não sou mais parte dessa casa. Essa família já não é mais minha, eu não tenho lugar, eu não tenho ninguém. Uma mão estendida no abismo, uma saída, pelo amor de Deus. Alguém, eu suplico, eu imploro, por caridade, por favor, por favor, faça esses dois calarem a boca, traga o silêncio de volta essa noite, faça o meu pai parar de bater na minha mãe.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Arrumei minhas malas às cinco da manhã. Quatro sacolas baratas, tudo o que eu tenho. Guardei tudo no armário. E vim trabalhar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Ela limpa o chão. Ela limpa o chão. Ela limpa o chão. Ela vai continuar limpando o chão. Até que alguém lhe diga que o chão nunca vai brilhar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Você tem que morar no mistério. Tem que morar no mistério.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Acho que amanhã vou começar a fumar. E sair pra fumar sempre que ela estiver fumando lá fora.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Hoje ela entrou no escritório. Ela nunca entra aqui. Ela sempre limpa a janela pelo lado de fora. Hoje ela entrou. E limpou a janela pelo lado de dentro. Recolheu o lixo da lixeira ao lado da minha mesa. Pra isso, teve que se abaixar. Ela é muito magra, seus ossos de dinossauro protuberavam nas costas. Quis mordê-los pra lhe sugar o de dentro. Ela tem alma demais.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Entrei no bar com o rosto quente, o coração apertado, o intestino também. Achei que todo mundo me olhava. Ninguém me olhava. Parei no balcão, chamei o funcionário. Ele veio. Pedi um maço de Carlton branco e um isqueiro da Bic. Ele trouxe. Paguei. Saí do bar. Parei. Abri o maço. Peguei um cigarro. Acendi. Fui andando pela rua com o cigarro entre os dois dedos das mãos, revezando entre elas pra não ficar o cheiro. Parei no ponto de ônibus. Achei que todo mundo me olhava. Ninguém me olhava. No terceiro trago, minhas pernas tremeram. No sexto, comecei a ficar feliz. Eu não sou feliz. Escondi o maço num forro falso da mochila. Dei o último trago quando o ônibus chegou. Joguei a guimba no chão, não consegui pisar em cima. Estava tonto. Fiz sinal pro ônibus. Ele parou. Subi. Esse é o capítulo que o Luiz Ruffato nunca escreveu.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Vontade de cantar bem alto, bem, bem alto. Mas ninguém nunca me escuta. Então não canto. Mas, por dentro, sou pura música desperdiçada. &lt;span style="mso-ansi-language: EN-US" lang="EN-US"&gt;If I die tomorrow, I’d be all right because I believe that after we’re gone spirit carries on.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="mso-ansi-language: EN-US" lang="EN-US"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Estou despenteado. Com a calça remendada. Desnorteado. E triste.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Se eu estivesse penteado e bem vestido&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;talvez eu tivesse esperança.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Mas não tenho.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Ela me assustou colocando a mão no meu ombro. Me estendeu um envelope e me olhou fixamente com seus olhos castanhos comuns. Peguei o envelope da mão dela. Ela sorriu. Ela deu as costas. Ela foi embora. Ainda gritei Obrigado! Mas ela não respondeu. Ela não fala com ninguém. Ela nunca bate à porta. Eu nunca escutei a voz dela.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Queria dizer: vem ser meu sol em clave de fá, grave mas leve, aquecido entre as últimas linhas. Mas e se você confunde as claves? O mi é agudo demais. E dói.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Me esconder de mim não basta.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Eu vou me achar de novo, mesmo sem querer.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;E eu não quero.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Tudo aqui é dela. Ninguém sabe disso. Eu também sou dela. E disso ela não sabe. Cada cadeira sobre o chão e cada ser sobre cada cadeira sobre o chão e o chão e as paredes e o teto e tudo que está enjaulado entre o chão, as paredes e o teto dentro dessa cela de rotina e sono e ar-condicionado frio demais e teclas teclando e grampeadores grampeando e papel papel papel é dela. Tudo é dela. Ela é tudo. Ela hoje chorou.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Por muitos motivos já mentalizei um suicídio perfeito.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Um tiro bem dado, um nó bem dado, um pulo bem dado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Já que tudo está dando errado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Mue pai bateutanto na mihna mãe que elaestá em coma. Fui vê ela lá e enconteri com ele. Bati nele com força,muita forlça e ele desmaiou. Quis continura datendo até ele morrer. Mas emvez disso vim pra esse bar e enchi a cara. Eu estoumuito bêbadpo. Já não sei mias o que fazer. Não quero voltar pra casa. Eu não tenho lugar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Nunca me lembro como começa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Mas sempre há algo que termina mal.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Hoje fui ver um apartamento pra alugar. Ele é pequeno e úmido, tem um quarto só, não tem área de serviço, não tem aquecedor a gás, não tem gás natural encanado nem fiação pra linha telefônica. A cozinha é pequena. O banheiro é pequeno. O chão é de tacos de madeira e reparei que no canto do corredor tem um ninho de cupins. Me senti tão em casa que fechei negócio.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Impactante, alguém me chuta o estômago.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Cravo as costas na parede até despencar no tapete.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Imagino essa cena pra tentar não enlouquecer.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Mas já é tarde.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Saímos no mesmo horário ontem. Resolvi segui-la, como nos filmes, me escondendo atrás dos postes pra ela não me ver caso se sentisse seguida, isso que só acontece nos filmes. Mas não precisei segui-la. Ela parou no mesmo ponto que eu. Ela pegou o mesmo ônibus que eu. Ela saltou no mesmo ponto que eu. Ela entrou no mesmo prédio que eu. Ela mora no apartamento ao lado. Antes de entrar e fechar a porta, ela me olhou fixamente com seus olhos vermelhos sanguíneos. E me deu boa noite.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Ela não ouve música, não vê tevê, não usa batedeira, liquidificador, aspirador de pó, secador de cabelo. Me sinto sozinho no mundo sabendo que a tenho perto. E isso é bom.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Minha mãe saiu do hospital. Meu pai entrou na cadeia. Acendo um cigarro pra ficar feliz.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Ontem, ela caiu três degraus da escada. Ela estava descendo. Eu estava subindo. Pra ajudá-la, eu a abracei. Ela encostou a cabeça no meu peito. Eu a apertei contra o meu peito. Ela chorou por trinta minutos. Eu perdi a minha reunião. Quando fui embora, ela limpava o chão.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Você tem que morar no mistério. Tem que morar no mistério. Por favor, por favor. Não saia do mistério.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Respiro fundo. Abro a minha porta. Cruzo o corredor. Toco a campainha. Ela demora dois minutos sem nem dizer já vai. E vem me atender. Fico calado. Não tenho nada a dizer. Não sei porque estou aqui. Olho praqueles olhos lilases dela, pareço um idiota olhando assim pra ela. São cinco minutos inteiros de silêncio mútuo, ela dentro, eu fora do apartamento. No sexto minuto ela me puxa pela mão.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Eu não estou em paz.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Comprei um maço de cigarros e uma garrafa de vodka. Trouxe pra casa. Eu me sinto muito cheio. Tem alma demais dentro de mim.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Uma grande força por dentro me empurra ao mais fundo de mim. Ela é tão grande que, só por um minuto, eu cresço. Só por um minuto, antes de tudo desabar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Me olho no espelho do banheiro de novo. Passei o dia me olhando no espelho do banheiro. Alguém vem me chamar pro happy hour. Recuso. Alguém sai do box e vem lavar as mãos. Desvio. Não quero ninguém, não quero ninguém, não quero ninguém. Eu quero tanto chorar que é involuntário. Choro. No meio do embaçado das lágrimas, noto um ponto claro que não estava lá, no meu olho escuro.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Acho que amanhã vou enxergar o mistério.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-5216212310245141688?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/5216212310245141688/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2011/06/beauty-projection.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/5216212310245141688'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/5216212310245141688'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2011/06/beauty-projection.html' title='Beauty Projection'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-971243150010686523</id><published>2011-06-07T06:08:00.001-03:00</published><updated>2011-06-07T06:10:18.626-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Beauty Projection'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='conto'/><title type='text'>The Chill</title><content type='html'>&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoBodyTextIndent"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Mesmo que depois venham as árvores feridas de corações desconhecidos, ainda que cheguem os feriados enforcados, mesmo que depois venham os livros nunca lidos, os filmes dublados, ainda que a rua inunde à altura do parapeito, ainda que os letreiros se apaguem antes de chegar amanhã, mesmo que depois do escuro depois do vento me espere a sanidade, ainda que os muros sejam baixos e as janelas estejam abertas apesar de a vista não ser pro mar, mesmo que os sinais vermelhos não retenham a minha mudez, hoje eu não vou ligar o gás, eu não vou pular do abismo, eu não vou mastigar trinta vezes a mesma porção de silêncio. Abrirei os lábios. E deixarei sair o horror.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;As fronhas estão limpas envolvendo os travesseiros, as blusas estão brancas secando ao sol, o chão está brilhante à luz falsa da lâmpada, as toalhas estão dispostas à espera dos corpos, a tevê está desligada, o som está mudo, a comida está pronta. A casa me inutiliza na sua gigantesca autossuficiência. A incompletude é toda minha.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Deve ser o meu modo de dizer eu te amo, o meu modo de gritar de dor, de gemer de gozo. Deve ser o meu modo de escalar as paredes do poço. Deve ser o meu modo de lavar as mãos cantarolando Wagner, de assoprar as velas antes de untar o tabuleiro. Deve ser o meu modo de ser do meu modo o que me faz apagar as luzes pra mergulhar paciente na sua ausência.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Nem se eu cantar mais um hino em latim, nem se eu compuser mais uma ária ao acaso, nem se eu escrever mais um poema à água desperdiçada no lavar dos pratos, no banhar dos corpos, nem se eu insistir no erro do tédio ou no erro ainda maior da euforia você ocupará a cabeceira desta mesa hoje à noite.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Porque sempre há o dia em que eu acordo só. Sempre há a noite em que os passos ecoam pela metade. Sempre há a hora em que bater à porta é inútil, em que pedir um beijo é devaneio, em que travar conversa é alucinação. Porque chega sempre o tempo em que as paredes não envolvem mais que um corpo, em que os lençóis não embrulham mais que uma pele, em que os tapetes não sustentam mais que um andar, em que você está demasiado longe pra se sentar a esta mesa e ocupar o seu lugar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;E se chamar não adianta, eu pinto os lábios. E se chorar não adianta, eu pinto os olhos. E se correr não adianta, eu pinto as unhas. Pra não morrer, vou beber uísque, já que a ausência se esforça por me envenenar. Lavarei o rosto quando você voltar. E expurgo então as sobras contaminadas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-971243150010686523?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/971243150010686523/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2011/06/chill.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/971243150010686523'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/971243150010686523'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2011/06/chill.html' title='The Chill'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-3535413235848920899</id><published>2011-03-19T18:05:00.002-03:00</published><updated>2011-03-19T18:33:59.502-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Ontem me peguei feliz passando a roupa. Essa é uma frase muito estranha vinda de mim. Por dois motivos:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Eu? Dizendo estar feliz?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Eu? Passando roupa?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E ontem fiquei feliz passando roupa. Feliz talvez não seja exatamente o termo, acho. Mas se eu for procurar um termo, soará ainda mais estranho... Estou em paz. Paz..., essa promessa vazia. Whatever.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sinto-me bem em executar tarefas simples, assistir uma comédia romântica que eu já vi, chorar cortando cebolas, recolher as flores amarelas que caem no quintal.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sinto-me bem passando pano na mesa, fazendo compras de mês, penteando o cabelo pra sair.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;As coisas estão iluminadas. Pedro Artur está a meu lado. Escrevi o primeiro capítulo da minha dissertação. Lancei meu segundo livro. Meus pais me amam. Tenho grandes amigos, não muitos, mas excepcionais! E que meus óculos sejam fortes demais, que minha pele seja branca demais, que minha voz seja grave demais, que meus cabelos sejam difíceis demais de pentear. Que seja, I don't care!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Por dentro, pelo menos por um tempo, respiro.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-3535413235848920899?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/3535413235848920899/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2011/03/ontem-me-peguei-feliz-passando-roupa.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/3535413235848920899'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/3535413235848920899'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2011/03/ontem-me-peguei-feliz-passando-roupa.html' title=''/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-6752416062948081661</id><published>2011-02-18T10:32:00.003-02:00</published><updated>2011-02-18T10:35:44.076-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='lançamento'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Promessa Vazia'/><title type='text'>Promessa Vazia saindo do forno!</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-Jww9jsBsqus/TV5nlERsrfI/AAAAAAAAALA/lryOifmYCH0/s1600/convite-promessavazia.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 320px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5575007275232046578" border="0" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/-Jww9jsBsqus/TV5nlERsrfI/AAAAAAAAALA/lryOifmYCH0/s320/convite-promessavazia.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Caros,&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Enfim, o Promessa chegou! Convido a todos vocês para o lançamento, que será no dia 22 de fevereiro, às 19h, no casarão da editora Multifoco, na Lapa. O endereço é av. Men de Sá, 126.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Espero por todos.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Um grande abraço!&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-6752416062948081661?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/6752416062948081661/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2011/02/promessa-vazia-saindo-do-forno.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/6752416062948081661'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/6752416062948081661'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2011/02/promessa-vazia-saindo-do-forno.html' title='Promessa Vazia saindo do forno!'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-Jww9jsBsqus/TV5nlERsrfI/AAAAAAAAALA/lryOifmYCH0/s72-c/convite-promessavazia.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-8076345422160169281</id><published>2010-12-30T21:44:00.002-02:00</published><updated>2010-12-30T22:06:37.444-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='não sei que fim vai ter.'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='poesia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='inglês'/><title type='text'>Middle blue</title><content type='html'>Smoking a cigarrete in the dark&lt;br /&gt;I remember the past to cry.&lt;br /&gt;I'm not used to this feeling.&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;Is it because year's ending?&lt;br /&gt;Is it because life's changing?&lt;br /&gt;It must be.&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;My soda isn't cold in the glass&lt;br /&gt;and my milk isn't warm in the cup.&lt;br /&gt;I'm not used to this feeling.&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;Is it because year's ending?&lt;br /&gt;Is it because life's passing?&lt;br /&gt;It must be.&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;No, I'm not feeling hungry.&lt;br /&gt;No, I don't lie in bed to sleep.&lt;br /&gt;I've lost the essence within my eyes&lt;br /&gt;yellow and green.&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;I'm sweetening my coffee&lt;br /&gt;with a melted white body&lt;br /&gt;of a weird, empty absence&lt;br /&gt;of who I'm supposed to be.&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;But this is not gonna work&lt;br /&gt;and I know this is useless&lt;br /&gt;as I'm supposed to be.&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;No, this is not gonna work.&lt;br /&gt;The white ghost dries in the clothesline&lt;br /&gt;behind the mask yellow and green.&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;The white ghost lies in the clothesline.&lt;br /&gt;It's because year's changing.&lt;br /&gt;It's because life's ending&lt;br /&gt;behind the mask yellow and green.&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;Carrying that pure dead one who's lain&lt;br /&gt;behind the mask yellow and green.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-8076345422160169281?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/8076345422160169281/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/12/middle-blue.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/8076345422160169281'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/8076345422160169281'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/12/middle-blue.html' title='Middle blue'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-6903673741713244651</id><published>2010-12-28T19:55:00.002-02:00</published><updated>2010-12-28T19:57:55.483-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='poesia'/><title type='text'>bobagem 691: falta</title><content type='html'>&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;a saudade não&lt;br /&gt;há o que há&lt;br /&gt;é algo que falta&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;serpente encantada&lt;br /&gt;só com a lembrança&lt;br /&gt;do feitiço da flauta&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;(Paulo de Toledo)&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;Poema gentilmente cedido. Obrigadíssima, Paulo!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-6903673741713244651?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://paulodetoledo.blogspot.com/2010/09/bobagem-691-falta.html' title='bobagem 691: falta'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/6903673741713244651/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/12/bobagem-691-falta.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/6903673741713244651'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/6903673741713244651'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/12/bobagem-691-falta.html' title='bobagem 691: falta'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-965077360568740477</id><published>2010-12-21T20:55:00.003-02:00</published><updated>2010-12-21T22:31:55.298-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='poesia'/><title type='text'>To friends...</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Hoje não é dia do amigo. Nem aniversário de ninguém. Hoje não é nenhuma data especial e se fosse eu seria, como todos bem sabem, a primeira a esquecer. Eu nunca lembro do dia do amigo. Eu nunca lembro do aniversário de ninguém. Eu nunca lembro de datas especiais. Não compro presentes, não dou parabéns, não gosto de ganhar presentes nem de receber parabéns.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não, eu não sou a melhor pessoa do mundo. Em alguns pontos, estou é bem perto de ser o contrário. Às vezes sou má, às vezes sou burra, e na maioria das vezes sou as duas coisas e mais algumas igualmente ruins.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas é que.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Esse livro sobre a minha mesa não é meu, e provavelmente voltará às mãos da dona amanhã. Esse livro sobre a mesa é o mesmo que eu li sentada no chão do colégio Mercúrio durante os recreios, há muito tempo, quando eu tinha dezesseis anos, um histórico de desnutrição, menos de cinquenta quilos e uma alma pesada demais pra minha carcaça doente. Meus óculos eram menores, meu cabelo era maior, minha vida era oito anos mais longa do que agora é. Mas o livro. O livro que.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Continua o mesmo. Fez minha cabeça com dezesseis anos, fez muito a minha cabeça nos idos da minha juventude, a época do erro, e como, como eu errei. O livro. O livro que.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Caros, pela nostalgia, talvez, por alguma dor, talvez, por amor, talvez, este post é apenas uma homenagem. A todos os meus amigos, que fazem hoje ou que em algum dia, mesmo que por pouco tempo, fizeram a minha vida. E mesmo que ele não chegue, e não chegará, a ser lido por todos, vai aqui abaixo, de mim pra comigo, com uma ponta de esperança hasteada no convés. Uma mensagem na garrafa, a quem interessar possa, com palavras que não são minhas, rumo a algum lugar dentro de cada um daqueles a quem dedico esse poema, um lugar que, pela facilidade do clichê, vou chamar de coração.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Do livro &lt;em&gt;O profeta&lt;/em&gt;, de Khalil Gibran:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E um jovem disse:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;"Fala-nos da Amizade".&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E ele respondeu dizendo:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;"Vosso amigo é a resposta a vossas necessidades.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ele é vosso campo, que semeais com amor de colheis com gratidão.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E ele é vossa mesa e vossa lareira.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Pois ides a ele com vossa fome, e buscais nele vossa paz.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Quando vosso amigo vos fala com sinceridade, não temeis pensar que 'não', nem vos furtais a dizer que 'sim'.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E quando ele se cala, vosso coração não deixa de ouvir o seu;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Pois na amizade, os pensamentos, os ideais e as expectativas nascem e são compartilhados, sem palavras, em silenciosa alegria.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Quando vos separais de vosso amigo, não vos afligis;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Pois o que amais nele pode evidenciar-se na sua ausência, como a montanha, para o alpinista, é mais evidente da planície.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E que não haja propósito na amizade, salvo o aprofundamento do espírito.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Pois o amor que busca algo mais do que a revelação de seu próprio mistério não é amor, e sim uma rede armada: e só o inaproveitável é apanhado.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E que o melhor de vós seja para vosso amigo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Se ele deve conhecer o refluxo de vossa maré, que conheça também o fluxo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Pois que amigo é esse que só o procurais a fim de matar o tempo?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Procurai-o também para viver o tempo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Pois cabe-lhe satisfazer vossa necessidade, mas não preencher vosso vazio.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E na &lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;doçura&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; da amizade, que haja risos e que se compartilhem prazeres.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Pois no orvalho de pequenas coisas, o coração encontra sua manhã e se refaz".&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-965077360568740477?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/965077360568740477/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/12/hoje-nao-e-dia-do-amigo.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/965077360568740477'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/965077360568740477'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/12/hoje-nao-e-dia-do-amigo.html' title='To friends...'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-8190181831296969207</id><published>2010-12-21T14:21:00.002-02:00</published><updated>2010-12-21T14:33:39.636-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='confissão'/><title type='text'>Historinha idiotinha numa terça tediosa</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Era uma vez uma menina. Ela não tinha um rosto bonito. Ela não tinha um corpo escultural. Ela era baixinha, muito branca, tinha os dentes tortos e uma queda incontrolável pelo lado kitsch das coisas. E de bom só tinha uns olhos claros fundos e uma voz diferente e grave demais.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sim, ela cantava. E bem. E muito. E alto. E alguns tinham vindo a ela dizer que aquela voz toda era muito grande pra sua altura. Como se seu corpo não comportasse direito todo aquele volume, todo aquele som.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Um dia, uma criancinha insolente ouviu a menina cantar. E mandou a menina calar a boca. O que ela fez? Cantou com mais força, cantou com mais ar, mais alto, muito forte, até a ária acabar e...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Calou a boca.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Afinal, se alguém souber como se deve reagir numa hora dessas, me diga...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Porque a menina, é claro, sou eu...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A propósito: e o pestinha ainda me agradeceu. Agora eu te digo: os pais do monstrinho me acordaram ontem às onze e quarenta da noite (e eu só consegui voltar a dormir às três da manhã) gritando, berrando, xingando de todos os nomes Deus e o mundo sei lá por que. Eles gritam o dia todo com essas crianças, mas pra repreenderem uma atitude puta desrespeitosa como essa... nem uma palavra!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E vamos que vamos. Eles devem mesmo estar certos. Afinal..., quem precisa de ópera quando se tem o Fiuk?&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-8190181831296969207?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/8190181831296969207/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/12/historinha-idiotinha-numa-terca-tediosa.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/8190181831296969207'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/8190181831296969207'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/12/historinha-idiotinha-numa-terca-tediosa.html' title='Historinha idiotinha numa terça tediosa'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-1657179990195125633</id><published>2010-12-10T10:48:00.002-02:00</published><updated>2010-12-10T10:54:46.339-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Beauty Projection'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='colaborações para revistas'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='conto'/><title type='text'>Óculos pra viagem again!</title><content type='html'>Caros, mais um conto meu está no ar no site Página Cultural. Trata-se do "Scarred", do meu novo projeto de contos &lt;em&gt;Beauty Projection. &lt;/em&gt;Esse conto já foi publicado no Portal Cronópios com o título de "Scar". Deem um pulinho lá! É só clicar no título acima que vocês serão automaticamente levados ao site.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um abraço.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-1657179990195125633?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://paginacultural.com.br/artigos/scarred/' title='Óculos pra viagem again!'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/1657179990195125633/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/12/oculos-pra-viagem-again.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/1657179990195125633'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/1657179990195125633'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/12/oculos-pra-viagem-again.html' title='Óculos pra viagem again!'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-8649671845732543187</id><published>2010-12-07T22:42:00.000-02:00</published><updated>2010-12-07T22:43:52.150-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Beauty Projection'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='conto'/><title type='text'>TEODORO, O BLUES DE AZUCENA</title><content type='html'>&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;b style="mso-bidi-font-weight: normal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt; &lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: right; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="right"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;“La tetra fiama che s’alza,&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: right; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="right"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;che s’alza al ciel”.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: right; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="right"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(Guiseppe Verdi, &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;Il Trovatore&lt;/i&gt;)&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; .&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Teodoro, ela diz em silêncio, eu ainda acabo enlouquecendo! – E passa as mãos brancas nos cabelos crespos apenas porque não há mais nenhum gesto grandioso a se tentar. O estoque de atitudes ponderáveis acabou. E, afinal, nada mais parece fazer sentido. O plausível morreu na guerra, queimado numa das fogueiras talvez..– Teodoro – ela repete, os lábios gesticulando a palavra muda, o enjoo agora verdadeiro lhe crispando o estômago –, ainda acabo louca. Com essas janelas trancadas, o fogo lá fora, esse livro aberto cada dia numa página diferente sobre a mesa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Ela ainda lembra do que lhe parece cotidiano, mães com crianças de mãos dadas nas ruas, carros carregando gente pro trabalho, pra escola, pro motel, pra cadeia, uma barraca de frutas em frente ao prédio rosa da rua de trás, o vendedor lendo o caderno de fofocas de um jornal barato, nenhum freguês. Mas por esses dias de tudo anormal, isso que acontece quando o inevitável chega ao extremo e a ordem das coisas se modifica sob pena de nunca retornar, não há mais cotidiano. Nem mães com crianças, nem carros, nem prédios cor-de-rosa, nem vendedor de frutas, talvez apenas flores sem poder. Faz não mais que uma semana. Quando a guerra há muito anunciada enfim eclodiu. Ele bateu a porta atrás de si ao sair rumo ao comércio mais próximo. E isso será pra sempre. Como uma mancha de nanquim sobre uma folha de papel. Como o passado imutável.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;É noite, a luz na vizinhança foi interrompida em razão de um tiro dado por mais um homem sem rosto no transformador da rua. Ela não consegue sequer imaginar os soldados daquela guerra, como se tudo fosse, e tudo é, tão distante da realidade que parecesse sonho. Ninguém mais transita pelas calçadas. Tudo o que lhe chega é a fumaça e o clarão, ao longe, de mais uma das fogueiras acesas pela cidade. Gritos. Alguém comenta na casa ao lado que pelo menos eles – esse eles impessoal que nunca sabemos exatamente quem é – deixaram que as pessoas saíssem antes de o ônibus ser queimado. Ouvindo isso, ela quase chora. Ela se esforça muito, mas esqueceu como se faz.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;No rádio que a falta de energia impede de funcionar, estava tocando Summertime há uma semana, ela recorda. Pensa algo como: essa música já foi uma ópera. Teodoro lhe disse isso, quando lhe deu de presente de quinze anos um LP raro da Janis Joplin. E, pra não lembrar de Teodoro, ela agora lembra de Verdi. Ela gostava de Verdi. Ela é contralto, voz rara. E sempre cantou tão bem que podia ter sido, podia ter sido, não sabe exatamente, mas algo, grandioso talvez. Tem potencial pra lenda. E sempre teve muito potencial pra se convencer de que é aquilo que nem ela mesma acredita ser.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Rápido, ela se abaixa ao lado da janela. Esconde-se. Dois disparos soaram perto. Alguns gritos também. Ela já não sente medo. Chegará a dizer a um conhecido – num dos muitos telefonemas preocupados que começaram há não mais que uma semana e prosseguirão por mais algum tempo até todos se acostumarem com sua nova condição – que não sente mais nada. Mas é mentira. Sente falta. E, sentada no escuro, no chão gelado ao lado da janela sempre cerrada desde que a guerra começou, uma semana sem luz elétrica por causa do tiro no transformador, uma semana sem luz do sol por causa do medo que sente de abrir as cortinas grossas que Teodoro escolheu sozinho sem pedir sua opinião, abraçada aos joelhos, nos olhos as lágrimas nunca secas porque nunca derramadas, ela imagina a voz dele dizendo assim:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Luiza Vidal.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Só isso, nome e sobrenome. Como antes, como sempre.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Como quando ela tinha doze anos e estava sentada numa das cadeiras do auditório da escola assistindo à primeira aula que ele lhe deu e, antes de liberar a turma, ele chamou nome por nome pra anotar a presença.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Naquela época ele era jovem. Tinha os cabelos longos até a cintura, negros, lisos, e ainda usava aquela camiseta do Metallica que hoje serve de tapete da área de serviço. Naquela época ele mandava a turma sair e pedia que ela ficasse, inventando uma desculpa pedagógica qualquer pra permanecer mais tempo junto a ela num mesmo recinto. Ele se aproximava com cautela, pra não a assustar, pra que ela não contasse aos pais, à direção, às amiguinhas, whatever, que achava que o professor estava dando em cima dela. E estava. Ele, afinal, tinha uma reputação, uma carreira, e precisava do emprego, porque era só um adolescente tardio, um cara tão cheio de sonhos impossíveis que acabou não realizando nada do que podia, que acabou a faculdade tarde demais e não tinha porra nenhuma nessa vida além de um apartamentinho de um quarto alugado na zona norte, cheio de livros e discos de vinil, um Chevette tubarão vermelho com mandalas penduradas no retrovisor, dois pares de tênis All Star e uma calça jeans que rasgou de velha. E tudo isso era o que lhe dava um certo ar misterioso de encanto intocável, de supremacia inalcançável, de sagrado. Ele passava a mão no rosto branco dela, nos cabelos crespos dela, olhava fundo com os olhos claros dele nos escuros dela, e ela se apaixonou. Talvez não fosse preciso nada disso, aliás, pra que ela se apaixonasse. Ele era bonito e doce, como um pai, mas sem a proibição do incesto. E eles sabiam que tudo aquilo era errado. Mas não queriam acertar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Saudade. Dizem que essa palavra só existe no português, ela de repente devaneia sem motivo. Rindo, pensa na mentira dessa informação e, em seu nunca satisfeito desejo de ser especial, põe-se à parte do restante dos meros mortais quando delibera uma teoria qualquer pra que tal bobagem tenha se disseminado tanto pelo povo brasileiro. Algo como a-vontade-que-os-inúteis-e-burros-brasileiros-que-não-são-porra-nenhuma-nesse-mundo-têm-de-se-sentirem-especiais. Ela é muito inteligente e culta e talentosa, ela sempre conclui, concluindo logo após que está mentindo pra si mesma (coisa que nunca admitirá a ninguém), ela é muito inteligente e culta e talentosa e sabe que em galego existe a palavra soidade e sabe que galego não é mais português. Deve saber, e diverte-se com a ideia, mais sobre a Galiza que a própria Nélida, sobre quem ela discorre com perfeição milimétrica sem nunca (e disso os outros não sabem) ter lido uma citação sequer, que dirá uma página, que dirá ainda um livro inteiro.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Ela defende que é preciso conhecer pra opinar, mas tem muita preguiça. Então colhe sempre as-opiniões-mais-abalizadas-e-notáveis, pra que todos pensem que ela sabe muito, mas ela não sabe, que ela é muito culta, mas ela não é, que ela é muito talentosa, mas ela mesma já não se ilude. E ninguém sabe que ela é só um personagem.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Mas Teodoro sim sabia tudo, ela pensa, sabia tudo dela melhor que ela mesma, mais que ninguém. Ela quer querer chorar, mas não consegue. E pensa clichê que há tristezas tão grandes que chorar não adianta.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Sirene. O reflexo vermelho girando girando girando se mostra na parede cor-de-rosa oposta à janela abaixo da qual ela se senta protegendo-se dos disparos, da guerra, do fogo, da morte. Ela pensa: mais um carro de polícia, de bombeiros, uma ambulância talvez, passando pela rua sitiada em direção a mais vítimas. E se pega procurando uma razão pra ainda se esconder do perigo, da morte, da guerra, dos riscos. Tanto quis riscos, viver de extremos, de limites quando tinha Teodoro. Tanto não quis mais ter Teodoro, que era mais velho e já tinha vivido a juventude desregrada que ela queria estar vivendo agora, tanto o quis longe só pra poder correr correr correr correr e se realizar na vitória sobre as chances de cair. E agora? Que me impede de me jogar voluntariamente aos autos-de-fé sem plateia pela cidade?, ela se pergunta lembrando da dança de sacrifício da Sagração da Primavera, pela minha própria liberdade, talvez!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; tab-stops: 279.0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Sente algo atrás das cortinas fechadas, atrás da parede na qual ela se encosta, pra além da janela abaixo da qual ela se senta. O perfume chega antes de qualquer certeza. Ela pensa que está começando, mais uma vez, mais uma noite, e que talvez seja assim daqui pra frente, por todas as noites que virão. O coração se aperta agora, o estômago se contrai. Suspira no meio do silêncio e não se escuta. Ainda acaba enlouquecendo. Ou a loucura já é tão forte que ela não se sabe louca, como acontece aos mais loucos dos loucos. E então, ela delibera a esmo, sentir a loucura à espreita é sentir a sanidade a retornar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Quinze anos antes, ela se recorda. Numa sala escura de uma noite escura, exatamente como agora, mas sem a guerra, sem o medo e sem o caos. Apenas ela e Teodoro, ouvindo a Sagração da Primavera. Tão heróis de novela. Tão perdidos. Querendo o par perfeito, o amor pra vida toda, pra viver em harmonia e ser felizes pra sempre. Tão tolos, meu Deus, tão pequenos. Ela tão jovem. Escalando o abismo etário que sempre os separaria, metáfora clichê. Naquela noite, quando ele a beijou pela primeira vez. Cena tirada de comédia romântica, novela mexicana, drama B. Tudo tão bonito, tudo tão inocente, tão falso.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Pelo menos pra ela. Ou foi ela a própria falsidade desde o início. E sobe-lhe a culpa pela garganta na forma de um vômito contido que ela teima por não extravasar desde que Teodoro bateu a porta atrás de si, não mais que uma semana antes, rumo ao comércio mais próximo. Culpa sim, e é um sentimento compreensível. Porque ela foi muito filha da puta mesmo, muito mesquinha mesmo, muito ela mesma com o pobre Teodoro, apaixonado, o coitado, que deve mesmo tê-la amado até o fim.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;A presença caminha até a porta, ela sente o movimento frio contrastando com o calor do dia e a fumaça da fogueira acesa tão perto. Sente o perfume denunciando a entrada daquela presença entre as paredes da casa e quase se amedronta. Mas antes que o medo possa chegar, ela se lembra de Teodoro e seu amor incondicional. Ele deve mesmo tê-la amado até o fim, e sempre disse, olhando fundo nos olhos dela: confie no Teodoro. Ele não vai deixar que nada ruim te aconteça, Luiza Vidal. Ele tinha um jeito caricatural de falar, como um professor de jardim de infância, e pedia constantemente a ela: look at me! Deeply in my eyes!, apontando com dois dedos pra dentro dos próprios olhos. Depois a abraçava forte, repetindo seguidamente nome e sobrenome, como se ela fosse algo solene. Mas ela não era.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Ruído de papéis se roçando. Ela olha assustada na direção da mesa de jantar e ainda pode ver a página se virando até repousar fora do seu campo de visão. O tempo está quente e a casa, completamente trancada, deixa o ar ainda mais abafado do que é comum no verão carioca. O cheiro de fumaça dificulta a respiração e ela se força a crer que está delirando. Ela sabe que não há sequer uma brecha que possa deixar o vento entrar. Mas insiste por deliberar que está frio lá fora. E que o vento está entrando por alguma passagem desconhecida. Todos os seus esforços agora se voltam à árdua tarefa de manter os pés no chão, não acreditar em fantasias, encarar o real. Até porque, daqui pra frente, não haverá mais ninguém a lhe ensinar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Silêncio pela vizinhança. A fumaça começa a arrefecer. O perigo parece ter passado, mas ela não se levanta do chão. Em vez disso, para a pensar, como sempre, em mais um dos contos geniais que poderia ter escrito, mas nunca lhe sairão. Algo intimista, quem sabe? Quase um diário. E então formula algo assim:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Eu juro que estou esperando alguma coisa. Só não sei o que é. Durmo às seis da manhã, acordo às duas da tarde. Tudo vazio. A casa sem você, as ruas sem ninguém. É por causa da guerra. Ninguém se arrisca, sabe? Não, você não sabe, não está mais aqui pra ver... E então não quero comer, não quero beber, não quero viver, não quero morrer. A casa é pequena, mas estou perdida. Vejo tanta barbárie que o aro grosso e preto dos meus óculos está começando a pesar... Há cinco dias, desde que você fechou a porta atrás de si, tanta gente me telefona. Gente de quem eu nem me lembrava. Gente que nunca me deu a mínima. Gente, tanta gente. É gente demais. Querem saber se eu estou bem. Querem saber de mim, de tudo. Querem saber demais. Fazem perguntas demais, Teodoro. Teodoro, droga, Teodoro!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Ela volta umas seis vezes no texto, ou mais, pra reformular algumas partes, deixar tudo mais poético. E, primeira vez, como somente estar próxima da anormalidade, da barbárie, da guerra, do lado mais extremo da vida poderia lhe proporcionar, é honesta em admitir: sou um pastiche de Caio F.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Talvez por isso tenha desistido. Não apenas desse texto. Ou melhor, desse também. Mas sim, ela desistiu. De escrever algo realmente bom, de escrever enfim. E de cantar e de desenhar e de atuar e de tudo. Agora Teodoro, o guru, o mestre, o amor de juventude, o professor, não estava mais ali. Ela estava sozinha, e não tinha mais ninguém a lhe aconselhar, e Teodoro nunca deixou que ela pintasse os cabelos de vermelho. Mas nem era mais a música da juventude o que tocava no som. O som estava mudo e ela, a Luiza Vidal, nome e sobrenome, ia perder sozinha e jamais ganhar. Só agora ela sabe disso.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Teodoro. Professor Teodoro. Ele era tão bonito, alto, com uns olhos caídos, claros, de cílios longos, a boca com lábios quinze anos mais velhos que seriam os únicos a beijá-la em quinze anos de casamento. Ele era seu professor, seu príncipe-sapo, final feliz. E ela era a menina inocente dele, sua tabula rasa. Estavam condenados a se enganar por quinze anos, desde aquela noite, aquele beijo no escuro. Pelo resto daquele casamento precipitado. Era tudo um grande engano, ela começou a pensar anos e anos mais tarde, naquela casa, naquela vida, sempre junto do mesmo homem mais velho, que já tinha vivido tudo o que tinha pra viver e queria descansar com conforto em frente à televisão seu corpo de lugar-comum sem grandes conquistas, um cara tão normal, o mesmo cara de sempre, de antes, que teria de ser o mesmo até o fim. Mas ela aceitou o jogo, assinou o contrato. E sempre teve tanto medo, tanto medo de, não sabia ao certo. Saberia agora?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Cuidar de si, maybe. Se ela pudesse viver a seu modo e fazer todas as loucuras inconsequentes que desejava, se ela pudesse escalar o Everest e pular de asa delta, usar todas as drogas, abandonar tudo e fugir pro Alasca num Chevette tubarão vermelho com mandalas penduradas no retrovisor, se ela pudesse viver seu ideal idiota de juventude transviada estilo anos setenta, tão bobinha ela, com esse imaginário desregrado ultrapassado, renegando a própria geração, porque ser jovem agora é estudar, trabalhar, ter três estágios, um curso técnico e passar de primeira no vestibular, se ela pudesse deixar a sua vidinha babaca de subúrbio e surtar, aloprar, fugir não sabe pra onde, mas pra longe, muito longe dali, se ela pudesse tudo sem consequências, se ela pudesse mergulhar nos perigos da vida e tivesse sempre pra onde voltar na hora do aperto, um lugar seguro que a recebesse sem pedir satisfações, sem repreender, sem cobrar, então ela iria, ela viveria, ela se arriscaria. Mas ela sabe que isso é só uma ilusão que ela conjetura nos momentos ruins, pra se sentir melhor já que a mentira é só o que ela tem, porque a sua realidade é uma merda. Ela sabe que só existe um jeito de se viver como se deseja e é viver só, num acordo tácito com o destino, em que o papel dele é punir e o dela é aceitar. É o preço pela liberdade, ela sabe. E pensa então que, nem que seja ao destino, a gente sempre tem que se submeter.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Teodoro dizia do quanto ela era inteligente e culta e talentosa. Às vezes ela pensa que ele realmente a amou até o fim. Ele foi honesto, ele foi. Ela é que não sabe conviver na mesma sala por mais de cinco minutos com a verdade plena. E pensando assim, ela conclui o quanto esse clichê grandioso é reducionista e soa falso. Riria se não quisesse tanto voltar (no tempo, nos erros, nesse si mesma que se apoderou do que ela poderia ter sido e em que nunca saberá mergulhar). Mas não ri, o que não faz diferença.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;E mais uma página se vira no livro aberto sobre a mesa. Um aperto fustigante no peito, um soco na boca do estômago, todas as mentiras de não mais que uma semana antes vindo assombrá-la junto com a presença informe e perfumada que entrara pela porta não mais aberta desde que Teodoro a bateu atrás de si.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Seus tios-avós tinham uma casa alugada em Vicente de Carvalho, ela viaja. As paredes eram verdes e ela costumava arrancar pedaços do emboço que caía de velho. Seus pais tinham morado num apartamento em Madureira que eles nunca pintaram, por catorze anos, porque não era deles. E as figuras que ela imaginava nas deformidades da pintura durante a infância ficaram presentes frente a seus olhos até os catorze anos, quando o mundo começou a adoecer sob seu olhar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;E então ela ri, conjeturando que aqueles pensamentos misturados são dignos de uma boa bebedeira. Quer um trago fundo do maço de cigarros quase acabado que ela deixou sobre a pia da cozinha, quer um gole forte da garrafa quase intocada de uísque deposta sobre a cristaleira. Mas agora, sentada no escuro, Luiza não tem coragem de se levantar e ir buscar a garrafa que Teodoro tinha saído pra comprar já durante a guerra. A mulher tinha fingido preocupação: não vai, não sai de casa (disse no jornal que era pra ninguém sair de casa, por causa da guerra, mas eles não veem jornal, eles não veem tevê, eles estão em outra, ela pensava com orgulho enquanto assistiam juntos à mensagem do telejornal local que os pais dela tinham telefonado unicamente pra pedir que assistissem, porque era importante, é perigoso, estão queimando coisas por aí). Ela tinha fingido se preocupar com a saída dele. Mas ela não acreditava na guerra, porque o mal só acontece aos outros.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;E ela não se importava nem um pouco com ele, quinze anos de casamento, ela e Teodoro, a aluna violada e o professor pervertido. Ela só queria o álcool, talvez um cigarro que ele trouxesse (ele dizia que eles tinham que parar, mas nunca parava nem mesmo pra dar o exemplo) ou uma erva que algum amigo lhes desse numa festa qualquer em casa. Os ecos de uma loucura longínqua, os restos da liberdade que ela nunca pôde experimentar, casada tão nova, presa tão cedo. Ela tentava de tudo pra fugir, nem que fosse da realidade. Nem que fosse pra dentro. Huxley explica, talvez Freud, quem sabe Todorov. Ela não sabia explicar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Parando pra ouvir mais uma folha do livro se roçar contra as demais ao virar-se, Luiza agora imagina Teodoro sentado à janela de algum ônibus, rumo ao comércio mais próximo, com um sorriso idiota nos lábios quinze anos mais velhos que os dela, os únicos a beijá-la, talvez conjeturando, coitado, que ela tinha se recusado a preparar o espaguete por conta de algum desejo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Ela não tinha sido feita praquilo, ela pensa, lavar chão, louça, saladas de tomates e alfaces sujas das prateleiras do mercado, bundas de crianças nunca nascidas que o Teodoro queria tanto ter e ela não, e amar um homem só, dar pra um homem só, uma vida comum de subúrbio pra sempre, sem grandiosidade, sem notabilidade, sem produzir algo, qualquer coisa, que a fizesse lembrada depois de morrer, pegando ônibus e metrôs lotados toda manhã pra ir trabalhar num lugar chinfrim que paga mal. Ela não tinha sido feita pro Teodoro, o cara quinze anos mais velho que tinha tido o direito de ser jovem e tinha exigido dela que ela ficasse velha com ele, mulher casada aos dezoito anos, fiel, prendada, comportada, madura, aos dezoito anos, maldito!, ela quer pensar. Mas agora, sentada no escuro, no meio da guerra, sem ele, ela só consegue sentir falta. Nem mesmo medo pelo perigo do conflito, nem mesmo a raiva que tinha semeado, regado, deixado florescer e crescia quinze anos a fio, desde a primeira noite dolorosa e frustrante de amor na lua-de-mel num hotel barato da serra gaúcha, um frio do cão.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;E ela, que na juventude de menina feia tinha querido tanto um homem pra esfregar na cara das menininhas bonitas e populares da escola, ela que estava agora ficando velha, começando a enrugar, começando a decair, conclui que há muito tempo já tinha outros planos e não queria mais aquela vidinha estilo folhetim, conhecer alguém, namorar, noivar, casar, ter filhos, criar os filhos, pagar a educação dos filhos, chorar na formatura, no casamento, no nascimento do primeiro filho dos filhos e então finalmente morrer tendo vivido pros filhos. Teodoro nunca percebeu, todas as noites, quando ela se trancava no banheiro, que ela assinava às escondidas.a carta de alforria da maternidade. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;E, repetindo a conclusão a que chegou anos atrás, Luiza pensa que o casamento vem depois do final feliz.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Antes de poder discernir qual é o barulho que está ouvindo, ela se volta à mesa, automaticamente. E vê que mais uma folha está se virando no livro aberto. Ela deixa uma lágrima escorrer e, sem pensar, enxuga-a dos olhos imitando com sua própria mão os movimentos que a mão de Teodoro costumava fazer ao acariciar seu rosto branco, seus cabelos crespos. Só depois de a lágrima estar seca ela percebe que aquela mão não é a dele e que ela deseja a mão dele. E então outras lágrimas começam a escorrer.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Se você estivesse aqui, eu estaria gritando, ela soluça em silêncio. Eu mandaria você abaixar o volume da televisão, a tampa da privada. Eu recusaria com raiva o abraço que você insistia em me dar enquanto eu cozinhava o almoço, e diria furiosa eu-já-disse-mil-vezes-que-é-pra-não-me-atrapalhar. Eu te mandaria apagar o cigarro infeliz que você nunca largou ou me dar um pra eu fumar junto. Você recusaria e eu gritaria ainda mais. Eu te obrigaria a dormir no outro quarto por causa do seu ronco alto. Mas você não está aqui. Nunca mais estará.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Merda!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Ela chora, chora, chora. E chora mais. E não consegue parar de soluçar no escuro. Vai se deitando no chão enquanto escuta mais uma página se virar no livro aberto sobre a mesa. Não se assusta. Não sente mais medo, apenas falta. E a culpa se revolvendo no estômago crispado de um enjoo verdadeiro e maligno, tumor de remorso empedrado. O silêncio é tão avassalador que ela prefere os tiros, as explosões, os gritos da guerra. Porque a guerra lá de fora não é dela, mas essa que ela agora trava é dentro de si.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Tinha sido tudo mentira, por quinze anos. Ela não amava mais Teodoro tinha quinze anos. E nem mesmo sabia porque tinha se casado se o amor tinha acabado, e nem mesmo sabia porque o amor tinha acabado se ele era, agora ela sabe, o homem perfeito, seu príncipe-sapo, final feliz. O herói de contos de fada que ela tinha desejado na infância, tinha procurado na adolescência. E tinha encontrado. Nele. O homem dos seus sonhos. O homem que acordava à noite apenas pra olhar pro lado e ver se ela estava bem. O homem que perguntava se ela estava com fome numa viagem longa. O homem que estudava com ela por toda a madrugada na véspera de uma prova difícil. O homem que comprava ingressos de cinema e pipoca e refrigerante pra comemorarem mais um aniversário de casamento. Que a levava pra um jantar romântico sem razão. Que lhe trazia água sem que ela pedisse nos dias quentes. Que nunca esquecia o dia do primeiro beijo. Que cuidava dela quando ela adoecia e nunca esquecia a hora de cada remédio. Que dava presentes de Natal pra sua mãe. Que preparava o maldito bolo de batatas quando ela ligava da rua dizendo que tinha sido demitida, pra animá-la, ou promovida, pra comemorar com ela. O homem que, com aquele sorriso aberto, com aqueles olhos azuis, voltava do trabalho todos os dias e lhe dava um beijo de quem sentiu falta dela o dia inteiro. Que a chamava pelo nome e pelo sobrenome, como se ela fosse algo solene, e ela não era.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Mais uma página se vira no livro aberto sobre a mesa. Luiza, Luiza Vidal, ela repete no escuro, tentando dar à própria voz a entonação de Teodoro. Há não mais que uma semana, há exatos cinco dias, a voz de Teodoro tinha dito que ia sair. A voz de Teodoro era doce, aprazível de ouvir, com um sotaque diferente que ela nunca soube de onde era. Luiza, Luiza Vidal, ela vai se acalmando, secando as lágrimas dos olhos. Minha culpa, seus lábios gesticulam, minha, minha! Minha culpa, Teodoro! Por minha causa, tudo por minha causa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Tudo porque ele a amava demais. E ela não entendia, e ainda agora não entende, como ele podia amar tanto uma mulher que o maltratava, que gritava com ele, que reclamava de tudo o que ele fazia, até mesmo, ou principalmente, pra agradá-la, uma mulher que, ao lado do homem que tinha passado quinze anos na única ocupação de fazê-la feliz, nunca tinha se mostrado nem mesmo agradecida. E ela não entendia, e ainda agora, caída no chão, no escuro, no silêncio quebrado apenas pelas páginas viradas no livro aberto sobre a mesa de jantar, não entende, como ele podia ter passado quinze anos amando uma mulher que, em tudo, cada gesto, cada fala, mentia seu sentimento pra ele, fingia um amor natimorto, e, ainda pior, sempre tinha sido muito má atriz, como ele podia ter passado uma vida sustentando uma mulher como ela, cuidando de uma mulher como ela, tão mesquinha, tão cínica, tão aproveitadora, e tão falsa, acima de tudo falsa, falsa, muito, muito mentirosa, como ele podia amar cada detalhe de alguém que desgostava de cada detalhe dele. Ela nunca entendeu. Ela nunca entenderá de onde veio esse amor absurdo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Que fez Teodoro deixar sua leitura inacabada sobre a mesa e ir até a cozinha apenas para ver se Luiza estava bem. Ela preparava o almoço. Ele tinha sugerido espaguete, ela recusou. Ela nunca concordava com ele. E, solícito, ele beijou-lhe o rosto dizendo que o cheiro da carne moída estava uma delícia, que aquele bolo de batatas ia ficar maravilhoso – sempre grandiloquente o Teodoro. Ela lhe repeliu o beijo, como de costume, e disse que já-tinha-dito-mil-vezes-que-era-pra-ele-não-a-atrapalhar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Enquanto mais uma página se vira no livro aberto sobre a mesa, Luiza fecha os olhos. A cabeça lateja. Quer um banho quente pra curar a enxaqueca, mas não há mais cura. Ilude-se na vontade de acordar, mas o pesadelo já cruzou a fronteira. E quando ouve mais uma folha virar-se, pensa que a realidade soa tão louca e a loucura soa tão pesada que é mais fácil gritar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;E mantém-se muda por não saber o que fazer após o grito. Não quer gastar ainda sua última opção.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Teodoro devia achar, ela agora pensa, enquanto se recorda, que ela estava sempre estressada com ele por algum motivo de trabalho. Ela não era assim, afinal, no início do casamento. No começo, ela conseguia fingir. Depois que ela começou a trabalhar tudo ficou diferente. Mas não era culpa do emprego, era dentro dela que tudo tinha mudado. Ela não queria mais aquela vida. Ela não queria mais aquele homem. E ela não queria deixar aquele conforto. Ela não queria se responsabilizar pela própria destruição. Então ficava inerte, ao lado dele, sem mudar nada, a cada dia tratando pior o homem que, vendo-a tão triste, nervosa e frustrada, e sem ter ideia de que era ele mesmo o problema, apenas aumentava mais e mais os carinhos, os agrados, os passeios, os jantares sem motivo, as flores sem razão.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;As amigas invejavam Luiza e isso, ela agora cogita, talvez tenha ajudado a retê-la todo aquele tempo ao lado de Teodoro. Quando saíam com os amigos, ela o tratava com carinho extremo. Ele sorria abertamente, satisfeito, tão bonito, os olhos claros ficando límpidos a cada demonstração de carinho dela.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Então ele redobrava a atenção com a mulher, que já era normalmente demasiada, beijava-a muito, abraçava-a, trazia-lhe um drinque, um doce, o que ela preferisse, o que pedisse, o que quisesse. Pobre Teodoro, Luiza chora, tão apaixonado, tão dedicado, recolhendo apenas sobras de um sentimento nem sequer existente, vivendo enganado das aparências que Luiza queria manter pra se mostrar afortunada às amigas que ela tanto detestava e com quem convivia só porque não tinha nada melhor pra fazer.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;A velhaca metida a adolescente, loira tingida, que era amante do chefe e tinha dado pro filho de um deputado. A negra alta insatisfeita com o cabelo, que dizia ter assumido a negritude depois de tentar sem sucesso sete escovas progressivas. A gorda insatisfeita com o corpo, que tinha um marido barrigudo e um filho retardado. Um grupinho de mulheres frustradas que se faziam de solícitas umas às outras enquanto tentavam exibir o que não tinham, pretender-se o que não eram. Um grupinho de mulheres frustradas metidas a intelectuais liberais pra-frentex, mas com casamentos desgastados ou desfeitos, sonhos mofados, a decrepitude da velhice à espreita. E Luiza, perdida ali no meio, tão culta, tão inteligente, tão talentosa, tão diferente, jovem, bonita, com um marido que ia ganhando a cada dia aquele charme de meia-idade, uns cabelos grisalhos nas pontas das costeletas que ele manteve como resquícios da juventude roqueira, e dedicado ao extremo à mulher que ele amava. Pobre Teodoro, Luiza chora. Ela tinha mesmo sido muito filha da puta com o pobre Teodoro.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Que nunca tinha conseguido muitas coisas na vida, mas fazia sempre de tudo pra dar a ela o melhor. Que tinha financiado aquela casa em vinte e cinco anos gastando toda a sua pequena poupança e o fundo de garantia só porque queria deixar a mulher estabilizada e protegida se algo acontecesse a ele. A casa fica num bairro residencial quase sem comércio, um pouco longe de tudo, mas é um bom lugar, dizem os parentes, perto da praia e com bastante transporte, uma vizinhança calma e silenciosa, muitas árvores. A casa é pequena, mas bonita, e Teodoro sempre tinha feito sacrifícios pra mobiliá-la com tudo de melhor. Sempre tinha feito sacrifícios pra dar à mulher tudo de melhor e ela tinha passado quinze anos sendo mesmo muito filha da puta com ele.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Tinha sido muito falsa, muito cínica, muito má. Durante todos aqueles quinze anos e mais ainda naquela manhã, enquanto preparava o maldito bolo de batatas que o marido tanto detestava, quando fingiu novamente passar mal nos braços de Teodoro, fez-se de enjoada e correu ao banheiro. A comida queimando no fogão, o bolo de batatas, maldito, que ela adorava. Vinha usando aquele teatro como forma de escapar do toque de Teodoro havia duas semanas. Fazia tampo não suportava mais olhá-lo, tê-lo perto, aspirar o perfume, sempre o mesmo, que ele usava todos os dias e denunciava sua chegada. Mas desde duas semanas antes, o toque era o que mais a incomodava. Luiza fugia do toque daquelas mãos grandes, de dedos longos, morenas, nos seus cabelos crespos, no seu rosto branco, nas suas mãos brancas de dedos curtos. Apenas fugia, trancava-se no banheiro, teatral, má atriz, e ficava lá até que o marido desistisse de bater à porta pra saber se ela havia melhorado. Jazia lá dentro, em silêncio, de olhos fechados, com uma vontade enlouquecedora de andar de patins, de comer brigadeiro quente direto da panela e queimar a língua, de fugir pro Alasca num Chevette tubarão vermelho com mandalas penduradas no retrovisor, de dar um tiro no vizinho tricolor, de escalar a estátua do Cristo Redentor. De tomar uma atitude, qualquer uma, que mudasse tudo, mas não tinha coragem. E sempre tentava respirar fundo várias vezes pra sair do banheiro pronta a encarar o marido, o Teodoro, o professor pervertido que casou com a aluna violada, e que, quando a guerra acabasse, sairia de casa novamente, todos os dias, pra trabalhar, deixando-a livre da presença dele, pelo menos até chegar a noite, graças a Deus.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Mas naquela manhã, de porta trancada, Luiza se sentou sobre a tampa da privada, agarrou os joelhos e chorou compulsivamente sem razão alguma, ou por não ter razão alguma, ou por ter razões demais. Teodoro batia à porta, sua voz lá de fora repetindo nome e sobrenome, como se ela fosse algo solene, e ela não era. Mas pra ele aquele era certamente o momento de uma esperança solene. E talvez por isso ela chorasse também.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Teodoro queria tanto um filho, tanto. Ele estava feliz, ela sentia naquela voz que lhe pedia pra abrir a porta. Ele devia estar radiante na certeza de que ela estava grávida depois de duas semanas daquele teatro mal feito, ela era uma má atriz. Quem sabe ele acreditasse que ela chorava lá dentro, agarrada aos joelhos, por, depois de duas semanas de enjoos e corridas ao banheiro, admitir-se grávida, mesmo não querendo ter filhos, como sempre tinha dito. Sim, talvez ela chorasse realmente pelas esperanças que a mentira dela faria surgirem no homem apaixonado que ela tinha em casa, tão cego em relação a ela que nunca, em quinze anos de casamento, a havia visto, todas as noites, tomar escondida a pílula anticoncepcional. Sim, talvez ela chorasse por querer amá-lo. Talvez ela chorasse por não querer filhos, por nem mesmo &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;querer&lt;/i&gt; dar ao menos essa alegria ao pobre Teodoro, que tentou dar-lhe todas. Ou por querer querer ter filhos e acabar não querendo. Ou por querer querer amá-lo e acabar não querendo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Sim, ela chorava no banheiro, chorava, chorava, e na lembrança desse choro descompassado ela agora volta a chorar, mais forte que o choro forte de minutos antes. Talvez por querer, agora ainda mais, amar Teodoro, nem que seja só pra se sentir menos maldita. Ou talvez por não saber porque chorava no banheiro não mais que uma semana antes. Talvez por motivo algum, ou por todos. Ou talvez por ela. Por Teodoro, talvez. E sente uma dor forte, como um soco no estômago, quando mais uma página se vira no livro aberto sobre a mesa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Ele só queria que ela abrisse a porta, ela se lamenta. Por que, por que não tinha pelo menos aberto a porta? Depois de todas as mentiras, de todos os anos de fingimento num teatro muito mal representado, por que não, ao menos, abrir a merda daquela porta? E olhar nos olhos, certamente felizes, e claros, caídos, de cílios longos de Teodoro. E tentar imaginar que quinze anos não se passaram e tentar alcançar por dentro um pouco daquele encanto de antes, tentar ver em Teodoro um homem intocável, sagrado, como antes. Antes daquele casamento precipitado, fracassado, ao longo do qual o marido tinha perdido o mistério. Ou então só deixá-lo olhá-la, pelo menos mais uma vez. Por que não?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Mas conseguiria, ela agora se pergunta, pra tentar se justificar, embora saiba que não há como, conviver eternamente com o olhar de felicidade que Teodoro teria lançado a ela quando a visse sair do banheiro? Honesta, isso que ela nem sabia mais que ainda sabia ser, conclui que não. E o alívio a esmaga por dentro. A culpa sobe, sobe mais, chega do estômago ao peito apertado e vai se chegando à garganta, amarga, cortante.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Desistindo, ele disse que ia sair. Voltaria trazendo um remédio e um presente. Luiza ouviu os passos de Teodoro se afastando da porta. E depois se reaproximando:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Confie no Teodoro, ele disse. Confie no Teodoro. Ele não deixa que nada te aconteça, Luiza Vidal. Os passos se afastaram e a porta bateu.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Só então Luiza deixou o banheiro. A casa estava vazia e ela se sentia melhor. O choro incontrolável foi sumindo, passando e, prática, ela voltou a cozinhar seu almoço. Quando Teodoro voltasse, ela já teria comido. Não gostava de sentar à mesa com ele porque odiava o jeito matuto como ele segurava os talheres. Ela, tão culta, e ele um capial nos modos à mesa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Almoçou o bolo de batatas recheado de carne que sua mãe tinha lhe ensinado a preparar. O livro que Teodoro havia parado de ler antes de sair estava aberto sobre a mesa de jantar da sala, com uma frase grifada em amarelo, “importante é a luz, mesmo quando consome”, que Luiza olhou de relance durante a refeição.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;E o dia passou. Ela livre, sem aquela presença dentro das paredes da casa fechada. E a noite chegou.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;E o dia seguinte chegou. E passou.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Mas Teodoro não voltou.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Pensando nisso, ela agora se contorce no chão, de dor, de culpa, enquanto mais uma página se vira no livro aberto sobre a mesa. Teodoro!, ela fala sem som. Teodoro!, ela sussurra à meia voz. Sente novamente a presença junto a si, o perfume se aproxima, e ela se assusta, e o susto, e o medo, e o desespero somam-se à angústia, à culpa, à falta, à soidade.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Teodoro!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;E pensa em Verdi. Ela gosta de Verdi. E quer cantar a ária de Azucena, mas sente que, se sua voz grave e rara de contralto sair, libertará apenas um berro mortal. Luiza já não se sente nem mesmo capaz de falar, a dor por dentro tão lancinante que não se permite ser extravasada às gotas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Seus membros se gelam quando os dedos tocam seu rosto. Frios. Duros. Ela não tem coragem de abrir os olhos. Teodoro!, ela fala com esforço. Teodoro!, ela chama com a voz embargada.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Teodoro tinha ficado preso numa das fogueiras acesas pela cidade. A caminho do comércio mais próximo. Onde estava indo buscar um remédio pra curá-la de um mal inexistente. E um presente que ela nunca saberia merecer.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Sim, ela se engana, ou não, agora: ele a amou até o fim.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Teodoro!, ela se contorce pelo chão, ela rasteja, tentando fugir do toque daqueles dedos grandes, longos, frios, duros. Teodoro!, ela leva a mão ao vente, o estômago crispado, a culpa escalando a garganta, a vista cheia de figuras brancas circulando frente aos olhos fechados, e uma tontura de desmaio ante aquele perfume forte que a faz querer vomitar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Teodoro!, ela grita. E grita, e grita, e grita, desesperadamente ela grita. Primeiro o nome, Teodoro!, Teodoro!, depois palavra nenhuma, apenas um desabafo desaguando dos pulmões, saindo junto com o sangue da garganta, jorrando junto com o vômito da culpa represada. Vomita, vomita, vomita, tenta gritar durante o vômito e sente o líquido acre sair pelas narinas, com gosto de remorso, de sangue e soidade. Vomita até se engasgar e tossir e tossir e tossir tanto que é preciso levantar o tronco pra que o vômito não a sufoque.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Depois se deixa decair novamente, as costas no chão de piso frio quente de verão e janelas fechadas. Permanece inerte, de olhos fechados, prestando atenção apenas nas reações do próprio corpo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Enquanto a última página se vira, a luz retorna, e Summertime, no disco arranhado, volta a tocar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-8649671845732543187?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/8649671845732543187/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/12/teodoro-o-blues-de-azucena.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/8649671845732543187'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/8649671845732543187'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/12/teodoro-o-blues-de-azucena.html' title='TEODORO, O BLUES DE AZUCENA'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-6265307895537921263</id><published>2010-12-06T11:17:00.002-02:00</published><updated>2010-12-06T11:29:36.844-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='confissão'/><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;A literatura é meio como a psicanálise. Ou totalmente. Na verdade, acho que dividem o mesmo princípio: o de ir-se construindo pela linguagem. Então este será um post de um certo tentar-entender enquanto liberto pela linguagem, no caso escrita, algumas dúvidas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Porque eu de fato não entendo. Sério, é difícil pra uma cabeça meio away, muito misantropa entender algumas coisas como o que tenho visto tantas vezes pelas páginas da internet.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sorte: nunca me aconteceu. Mas poderia. E eu faria o quê?, me pergunto. E me respondo: ficaria na minha. Eu estou sempre na minha. Talvez não tenha me acontecido porque eu não fedo nem cheiro. Ou talvez porque eu sou mesmo muito boa no que eu faço. De qualquer forma, me intriga a maldade de alguns. Me irrita a prepotência de outros. Algumas vezes, me enoja ver os dois no mesmo texto.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não gostou, caríssimo, NÃO COMENTE! Eu sei, eu sei, a velha liberdade de expressão e opinião etc. Não estou defendendo que não se possa criticar, eu também faço lá as minhas críticas. Mas, please, gente de fóruns, comunidades e afins, xingar não é criticar. Uma crítica educada e bem feita é levada a sério. Uma babaquice cheia de ego, maltratando quem não coaduna da sua opinião, só vai fazer de você o bebê chorão de quem vão rir depois.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Há modos e modos de se dizer algo a alguém. Principalmente quando a opinião é ruim. Me pego concluindo que algumas pessoas têm um prazer mórbido em ser grosseiras. Só pode.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não gostou da música, pare de ouvir.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não gostou do texto, abandone a leitura.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não gostou do filme, não veja de novo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E deixe as pessoas que gostaram em paz.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Deixe o cantor, o escritor, o cineasta, o ator, entre et ceteras diversos, em paz.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Porque o mundo, caríssimo, não gira em torno do seu umbigo. E ninguém é obrigado a aturar a sua imaturidade.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Um abraço a todos que, como eu, estão esperando ansiosos por uma atitude mais saudável e respeitosa da parte de alguns malas que frequentam a internet.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-6265307895537921263?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/6265307895537921263/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/12/literatura-e-meio-como-psicanalise.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/6265307895537921263'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/6265307895537921263'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/12/literatura-e-meio-como-psicanalise.html' title=''/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-2946076595932730859</id><published>2010-11-28T09:35:00.000-02:00</published><updated>2010-11-28T09:35:33.915-02:00</updated><title type='text'>Letras et cetera: RAINING - Milena Martins</title><content type='html'>Meu novo conto na revista Letras et Cetera! Deem um pulinho lá! =)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://nanquin.blogspot.com/2010/11/raining-milena-martins.html"&gt;Letras et cetera: RAINING - Milena Martins&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-2946076595932730859?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://nanquin.blogspot.com/2010/11/raining-milena-martins.html' title='Letras et cetera: RAINING - Milena Martins'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/2946076595932730859/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/11/letras-et-cetera-raining-milena-martins.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/2946076595932730859'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/2946076595932730859'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/11/letras-et-cetera-raining-milena-martins.html' title='Letras et cetera: RAINING - Milena Martins'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-7939072659888506195</id><published>2010-11-09T10:44:00.002-02:00</published><updated>2010-11-09T10:47:04.073-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Beauty Projection'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='colaborações para revistas'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='conto'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='livros'/><title type='text'>...Óculos pra viagens vocais...</title><content type='html'>Caros, meu conto "Voices", do novo projeto Beauty Projection, já está no ar em dois lugares: o site Página Cultural e a revista Letras et Cetera. Deem um pulinho lá, clicando aqui do lado, na seção "Óculos pra viagem". Aproveitem pra dar uma olhada nos outros links também! =)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lots of kisses.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-7939072659888506195?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/7939072659888506195/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/11/oculos-pra-viagens-vocais.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/7939072659888506195'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/7939072659888506195'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/11/oculos-pra-viagens-vocais.html' title='...Óculos pra viagens vocais...'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-4240263419295341301</id><published>2010-11-08T01:26:00.003-02:00</published><updated>2010-11-08T01:35:45.163-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='não sei que fim vai ter.'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='poesia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='confissão'/><title type='text'></title><content type='html'>Um gato pulou o meu muro,&lt;br /&gt;se livrou da cerca elétrica,&lt;br /&gt;pisou entre os cacos de vidro&lt;br /&gt;e deitou no concreto.&lt;br /&gt;E o meu cigarro no escuro parou de queimar.&lt;br /&gt;Era amarelo o gato.&lt;br /&gt;Combinava com o roxo dos meus olhos,&lt;br /&gt;hematomas de ver demais.&lt;br /&gt;Combinava com os&lt;br /&gt;oi-to gra-us e me-io dos meus óculos arranhados&lt;br /&gt;da hipermetropia&lt;br /&gt;que já me fez sair correndo do banho&lt;br /&gt;com medo do bicho marrom&lt;br /&gt;que era uma mancha de shampoo na parede.&lt;br /&gt;O gato, o gato amarelo.&lt;br /&gt;Como as manchas do meu passado,&lt;br /&gt;que podia ter sido outro.&lt;br /&gt;Nunca gosto do que fui, do you?&lt;br /&gt;E amanhã não vou gostar do que hoje sou,&lt;br /&gt;will you?&lt;br /&gt;Don't be silly!&lt;br /&gt;Por causa do gato, minha cabeça está girando.&lt;br /&gt;Ele deve ter roubado a minha bola&lt;br /&gt;sob o banco do quintal.&lt;br /&gt;Deve ter gritado o meu nome na fachada,&lt;br /&gt;tocado a campainha que ninguém vê.&lt;br /&gt;Ele deve ter me levado a sanidade,&lt;br /&gt;a paz (promessa vazia),&lt;br /&gt;o meu sentido, a minha direção,&lt;br /&gt;o meu módulo (ele deve ser um vetor).&lt;br /&gt;Ele votou nulo comigo,&lt;br /&gt;cantou comigo o blues dessa manhã.&lt;br /&gt;Ele me assustou, o filho da puta.&lt;br /&gt;Estragou o meu cigarro, o desgraçado.&lt;br /&gt;E eu nem fiz um carinho no bicho.&lt;br /&gt;Amarelo.&lt;br /&gt;Gordo.&lt;br /&gt;Que deitou no meu muro e eu não sei pra onde foi.&lt;br /&gt;Eu bati a porta na cara dele, coitado.&lt;br /&gt;Tomara que ele mate as baratas do quintal.&lt;br /&gt;Se algo passasse, bastaria.&lt;br /&gt;Se.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-4240263419295341301?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/4240263419295341301/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/11/um-gato-pulou-o-meu-muro-se-livrou-da.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/4240263419295341301'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/4240263419295341301'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/11/um-gato-pulou-o-meu-muro-se-livrou-da.html' title=''/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-3548726598577689853</id><published>2010-09-13T22:15:00.001-03:00</published><updated>2010-09-13T22:17:16.358-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Beauty Projection'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Dream Theater'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='conto'/><title type='text'>NIGHTMARE</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;p style="TEXT-ALIGN: right; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="right"&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;Para não lembrar&lt;?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Por que você não me pegou pela mão, não me levou até o portão, não me disse que era fim e que o fim era o caminho? Se eu tivesse notado, em cada linha do seu braço tatuado, o seu pedido de desculpas, o seu bilhete de adeus, talvez eu ainda ensaiasse um afago, um não-vá mal pronunciado, um abraço apertado, um passo atrás, uma eternidade, um som qualquer. Em vez de acordar todos os dias pra me lembrar dos pesadelos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;. &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Eu só quero que você saiba que não era pra ser assim e que você não devia ir embora. Mas isso tudo você já sabe. Olhe os lados, olhe em frente, olhe ao redor. Eles estão rindo. Eles estão vindo, seus dentes de ouro, seus sorrisos de sarcasmo, seus não-lhe-disses de soberba brilhando sob a minha luz. &lt;span style="mso-ansi-language: EN-US" lang="EN-US"&gt;We shall met in a place where there is no darkness.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="mso-ansi-language: EN-US" lang="EN-US"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; .&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;As batidas do surdo sob a minha janela. As batidas dos pés no vidro da minha porta. Uma hora eles vão conseguir. E quando derrubarem os muros, quando quebrarem as janelas, quando escalarem os tijolos da fachada e invadirem a minha solidão, nem mesmo vou poder ligar o rádio pra segurar a sua mão.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; .&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Me socorre, que os cacos espalhados são de antigos pesadelos, que os risos ecoando são de prazer pela minha dor. Volta, volta, volta, volta. Volta, volta por favor.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;. &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Me deixa te guiar pelos tacos gastos do meu quarto, te levar até o telhado, te apontar a lua branca e te olhar mais uma vez. Joga as tuas tranças longas no meu poço, me arranca do breu. Que no primeiro degrau da escada me espera o medo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; .&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Talvez eu abra mais uma vez o cadeado, fume mais um cigarro no escuro, procure sem sucesso os sons que você fazia ao passar. Pra tentar tirar a sua ausência dos meus olhos, dos meus ouvidos entupidos de batidas, repetidas, repetidas, repetidas, repetidas. Toca três vezes o bumbo, três vezes o prato, mais três o tambor. Volta, volta, volta, volta. Volta, volta, por favor.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; .&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Volta a fumar, a beber, a sentir. Desde que volte pro mundo, pra mim, pros apaixonados que te perseguem. Um coração pegando fogo, cada canção numa redoma. Me deixa ouvir mais uma vez o teu compasso ensurdecedor.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; .&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;E só depois eu me entrego às cimitarras.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-3548726598577689853?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/3548726598577689853/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/09/nightmare.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/3548726598577689853'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/3548726598577689853'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/09/nightmare.html' title='NIGHTMARE'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-9161689346011001715</id><published>2010-09-10T22:33:00.000-03:00</published><updated>2010-09-10T22:35:26.854-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Dream Theater'/><title type='text'></title><content type='html'>&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="mso-ansi-language: EN-US" lang="EN-US"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;I'm really sad Mike's leaving, but I can't deny JP is a great guitar player, JM is a great bass player, Jordan's perfect keyboardist and James's a perfect singer. DT will not come to an end because of Mike's departure. All the bandmenbers are completly able to continue showing to us amazing songs. I love Mike, but I believe in u, Dream Theater - the greatest band in the world ever, the band of my life -, not because of him, but because of each one of u guys. I wish good luck both to u and Mike in your separated ways from now on and I'm waiting for new albuns.&lt;?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="mso-ansi-language: EN-US" lang="EN-US"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;span style="mso-ansi-language: EN-US" lang="EN-US"&gt;And just one more thing to say: where are those fans who said frequently that Mike was dominating the band and destroying its music in the name of Roadrunner. Did they disappear and now everyone agrees that DT is over? &lt;/span&gt;Oh, please, tell me about it.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-9161689346011001715?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/9161689346011001715/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/09/im-really-sad-mikes-leaving-but-i-cant.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/9161689346011001715'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/9161689346011001715'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/09/im-really-sad-mikes-leaving-but-i-cant.html' title=''/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-1686965185985612752</id><published>2010-08-21T19:04:00.003-03:00</published><updated>2010-08-21T19:10:50.756-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Beauty Projection'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='colaborações para revistas'/><title type='text'>Óculos pra viagens cronopianas</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Perdi a conta e desisti de contar, o que é um bom sinal. Afinal, se perdi a conta dos óculos viajantes, é porque a minha literatura está sendo mesmo espalhada por aí. Então, perdi a conta, e isso é bom. E o que é melhor ainda vem abaixo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;http://www.cronopios.com.br/site/prosa.asp?id=4705&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por esse link, vocês poderão acessar meu conto "Scar", que está no ar no Portal Cronópios. É um trabalho recentíssimo, saído do forno, que poucos puderam ler. Então, se puderem dar um pulinho lá, enjoyem very muito! =)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Grande abraço a todos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OBS: a mudança está me enlouquecendo. Sim, eu estou surtando (mais, e olha que o normal já é muito). Peço desculpas a muitos pelo sumiço. Espero voltar em breve. Pra vocês. Pra Victoria. Pra minha escrita. E pra mim também...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-1686965185985612752?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/1686965185985612752/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/08/oculos-pra-viagens-cronopianas.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/1686965185985612752'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/1686965185985612752'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/08/oculos-pra-viagens-cronopianas.html' title='Óculos pra viagens cronopianas'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-3690232540707960453</id><published>2010-08-09T21:18:00.003-03:00</published><updated>2010-08-09T21:32:59.381-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Dream Theater'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='fotografia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='confissão'/><title type='text'>Erase it. Start it again.</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/TGCd_zfw6MI/AAAAAAAAAKo/witFxiVPGGM/s1600/GEDC0778.JPG"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 240px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5503572464127502530" border="0" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/TGCd_zfw6MI/AAAAAAAAAKo/witFxiVPGGM/s320/GEDC0778.JPG" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ontem foi um dia difícil. Todos os meus dias têm sido difíceis, aliás, embora eu esteja me esforçando ao máximo pra não demonstrar. Ontem eu explodi, mas toda explosão tem seu ameaço, seu ápice e sua calmaria. Então, que seja. Doce e calmo, se possível calmo. Se alguém aí tiver um anestésico ou um porre de responsa, eu aceito.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Hoje valeu pelos presentes que eu me dei.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-3690232540707960453?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/3690232540707960453/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/08/erase-it-start-it-again.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/3690232540707960453'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/3690232540707960453'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/08/erase-it-start-it-again.html' title='Erase it. Start it again.'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/TGCd_zfw6MI/AAAAAAAAAKo/witFxiVPGGM/s72-c/GEDC0778.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-6537218753096921531</id><published>2010-08-02T20:40:00.002-03:00</published><updated>2010-08-02T21:02:06.858-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='conto'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='confissão'/><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;Para Daniel&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Da janela, a Grajaú-Jacarepaguá com seus faróis passando às vezes, lá longe. Do outro lado, eu sei, está o fim. Há algo se partindo na descida da Serra e algum dos cacos que sobrarem espalhados será-me um eterno talho no rosto, um dedo cortado, uma imagem desfocada em que eu me agarrarei sem certeza.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Em algum dia vou voltar a lavar as mãos com calma, vou poder olhar no espelho o cabelo despenteado, vou descravar os olhos dos meus passos presos ao chão. No futuro, quando eu tentar retornar, talvez eu descubra por que ou quando ou como eu me deixei afundar. Entre essas quatro paredes, esse chão e esse teto, essa distância, esse silêncio, essa revolta ainda não muito bem destinada, essa vontade de sentar no escuro e não levantar porque a vida vai doer. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Desculpa, mas eu não estou sentindo dor. Alguma coisa me roubou a capacidade de expugar o meu sofrimento. Quando a serra desabar sobre os meus braços vazios, quando o teto se desprender das paredes e vier me esmagar sobre o chão, quando os seus cacos espalhados já estiverem sangrando, quando os meus olhos, meus olhos verdes, tão verdes, não puderem mais ver os seus azuis, tão, tão azuis, eu sei que a dor será dupla e mais ainda intensa do que eu jamais imaginei.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Me desculpa. Se eu não sou ou não fui o que devia. Você me fez tudo, você me deu tudo, você me foi tudo. E você nem soube que eu estive lá, talvez pra me despedir.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Você ia voltar pra casa. Ia ficar tudo bem. Você ia continuar sem entender porque eu não dou parabéns nos aniversários nem telefono nos Natais. Você ia me dar queijo enrolado com presunto de novo, ia fazer discursos com palavras que eu nunca vou chegar a conhecer. Ia me ligar pra recitar seus poemas ao telefone. Você ia ficar bem, você ia.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Por favor, fica, por favor, fica, por favor, por favor.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Me deixa cantar pra você alguma música que você nunca tenha ouvido. Me deixa te mostrar a capa ainda desconhecida do meu livro novo que você talvez nunca leia. Me deixa te mostrar as fotos da minha nova casa, onde eu e Pedro Artur queremos te dar uma festa de boas vindas. Me deixa te mostrar só uma vez uma música do Dream Theater, um solo de guitarra do Steve Vai.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não vai, por favor, não vai, não vai, não vai.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ou será assim vazio, assim escuro, duro, feio, sujo e mau, pra sempre, pra sempre, pra sempre. Fica comigo, por favor. Pra sempre...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-6537218753096921531?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/6537218753096921531/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/08/para-daniel-da-janela-grajau.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/6537218753096921531'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/6537218753096921531'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/08/para-daniel-da-janela-grajau.html' title=''/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-8735470911666003598</id><published>2010-08-02T20:25:00.001-03:00</published><updated>2010-08-02T20:29:47.413-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Promessa Vazia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='colaborações para revistas'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='conto'/><title type='text'>...Óculos pra viagem (perdi a conta)...</title><content type='html'>Caros, mais uma vez venho por meio deste(a?!) convidá-los a darem uma olhada nos meus óculos viajantes. A quadragésima sétima leva da revista eletrônica Diversos Afins acaba de sair do forno, com meu conto "Aurirubro", em homenagem ao (mestre) Caio Fernando Abreu. O conto está no Promessa Vazia, que já já estará prontin! =) Deem um pulo por lá. Só clicar no título aqui do post, okay?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abraços a todos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-8735470911666003598?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://www.diversos-afins.blogspot.com/' title='...Óculos pra viagem (perdi a conta)...'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/8735470911666003598/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/08/oculos-pra-viagem-perdi-conta.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/8735470911666003598'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/8735470911666003598'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/08/oculos-pra-viagem-perdi-conta.html' title='...Óculos pra viagem (perdi a conta)...'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-241512468832034947</id><published>2010-07-27T13:29:00.002-03:00</published><updated>2010-07-27T13:41:48.845-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='poesia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='colaborações para revistas'/><title type='text'>Mais lentes</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Olho na parede&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;o relógio de ponteiros&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;que não tenho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Procuro em baixo das almofadas&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;a poeira de ontem.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Minha casa não tem tapetes.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;. &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Talvez eu ache alguma foto antiga.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;O tempo nunca lembra o caminho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; .&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Ou sou eu que estou começando a amarelar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; .&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Lágrimas centenárias&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;rolam&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;no meu rosto de criança.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;. &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Mas meu tecido desbotado&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;já começou&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;a amarrotar. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;***&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Depois de tanta propaganda, já estava mesmo na hora de um novo poema aqui, não? Mas se vocês clicarem no título deste post, serão levados ao meu mais novo conto no Página Cultural, "Organismo quase completo" (huhuhuhuhahahaha - risada macabra! rs).&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Grande abraço a todos!&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-241512468832034947?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://paginacultural.com.br/artigos/organismo-quase-completo/' title='Mais lentes'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/241512468832034947/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/07/mais-lentes.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/241512468832034947'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/241512468832034947'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/07/mais-lentes.html' title='Mais lentes'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-6492542788138323354</id><published>2010-07-24T20:33:00.002-03:00</published><updated>2010-07-24T20:35:25.203-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='de Bruna'/><title type='text'>Delírios em conversa!</title><content type='html'>E aqui vai uma entrevista da Bruna ao blog do Marcelo Novaes. Só clicar no título acima. =)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Kisses to u all!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-6492542788138323354?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://notaderodape-marcelo-novaes.blogspot.com/2010/07/marcelo-conversa-com-bruna-mitrano.html' title='Delírios em conversa!'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/6492542788138323354/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/07/delirios-em-conversa.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/6492542788138323354'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/6492542788138323354'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/07/delirios-em-conversa.html' title='Delírios em conversa!'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-9125175491529066369</id><published>2010-07-23T11:51:00.003-03:00</published><updated>2010-07-27T00:34:37.020-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='EU IMPLORO'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Dream Theater'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='música'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='confissão'/><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;Apenas um pedido aos caros produtores do Rock in Rio 2011. PELAMORDEDEUS, tragam o Dream Theater!!! &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-9125175491529066369?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/9125175491529066369/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/07/apenas-um-pedido-aos-caros-produtores.html#comment-form' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/9125175491529066369'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/9125175491529066369'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/07/apenas-um-pedido-aos-caros-produtores.html' title=''/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-8107953037397680233</id><published>2010-07-21T22:06:00.002-03:00</published><updated>2010-07-21T22:09:43.798-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Promessa Vazia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='colaborações para revistas'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='conto'/><title type='text'>Óculos pra viagem 4!</title><content type='html'>Caros,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora sou colunista do Página Cultural (&lt;a href="http://paginacultural.com.br/"&gt;http://paginacultural.com.br&lt;/a&gt;). Clicando no título desse post, vocês serão levados direto ao meu primeiro texto lá no site. Se puderem, deem um pulinho lá! Victoria vai ficar feliz feliz! =)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um grande abraço grande!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-8107953037397680233?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://paginacultural.com.br/artigos/milena-martins-no-pagina-cultural/' title='Óculos pra viagem 4!'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/8107953037397680233/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/07/oculos-pra-viagem-4.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/8107953037397680233'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/8107953037397680233'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/07/oculos-pra-viagem-4.html' title='Óculos pra viagem 4!'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-120500036406423011</id><published>2010-07-17T11:28:00.002-03:00</published><updated>2010-07-17T11:33:40.515-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='microconto'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='colaborações para revistas'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='de Bruna'/><title type='text'>...Delírios pra viagem...</title><content type='html'>Caros, mais uma propaganda, uminha só! =)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha grande amiga Bruna Mitrano está hoje n'O Bule, com sete microcontos (ótimos) chamados "Pecados". Clicando no título aqui deste post, vocês serão imediatamente levados até o blog. Vale muitíssimo a pena conferir. Deem uma passada lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abraço grandão,&lt;br /&gt;de Victoria!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-120500036406423011?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://o-bule.blogspot.com/2010/07/pecados-sete-microcontos.html' title='...Delírios pra viagem...'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/120500036406423011/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/07/delirios-pra-viagem.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/120500036406423011'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/120500036406423011'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/07/delirios-pra-viagem.html' title='...Delírios pra viagem...'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-2768961846874451986</id><published>2010-07-14T10:13:00.003-03:00</published><updated>2010-07-14T10:17:06.254-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Promessa Vazia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='colaborações para revistas'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='conto'/><title type='text'>Óculos pra viagem 3</title><content type='html'>Caros,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O conto "Do grito", do meu livro Promessa Vazia, está hoje no Artilharia Cultural. Clicando no título desse link, vocês serão imediatamente levados até o site. Deem uma passadinha lá, uma lida. Victoria ficará very happy!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Grande abraço.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-2768961846874451986?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://www.artilhariacultural.com/?p=4245' title='Óculos pra viagem 3'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/2768961846874451986/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/07/oculos-pra-viagem-3.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/2768961846874451986'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/2768961846874451986'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/07/oculos-pra-viagem-3.html' title='Óculos pra viagem 3'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-3729949365855337628</id><published>2010-07-08T01:11:00.001-03:00</published><updated>2010-07-08T01:13:27.156-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Beauty Projection'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='conto'/><title type='text'>VOICES (Foi aberta a tampa)</title><content type='html'>&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Queria aprender a patinar no gelo, a ler em hebraico bíblico e tocar violoncelo, lutar karatê e amarrar os sapatos, pilotar jet ski e dar cambalhota, ler hora em ponteiros, assobiar, nadar e dançar balé clássico, tocar piano e bateria e guitarra e baixo elétrico, harpa, viola e oboé, falar italiano, romeno e grego koiné, cozinhar, sapatear, sorrir na hora certa, falar na hora certa, dormir oito horas por dia, ter dez orgasmos por vez. Mas de tudo o que não fui ficou só a vontade. E essa dor que chamaram esperança.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Vivo calada.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Isolada no meu&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Canto.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Olho o meu passado. Ele é tão feio.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;O maestro disse que não sabe o que eu sou.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;A única diferença entre mim e todos os que me cercam é que o meu fim tem data marcada. Isso não é um desastre. A vida é uma imposição à carcaça. A vida longa é uma tortura à natureza. Cada dia é uma perda e dizer isso é um clichê. Poupo à humanidade a dor do meu perecer.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Passei mais um dia calada à mesa do jantar. Eu não falo porque não consigo. Eles não falam porque eu estou ali. De dentro da minha cela escura, olho a rua. Lá fora não há criança nenhuma brincando agora, às cinco da manhã. Eu não sou mais criança, mas um cadáver não pode envelhecer. A luz amarela do poste em frente à minha janela se reflete na poça da chuva de ontem. Ontem ainda não secou.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Dói muito. Dói muito. Dói muito. Eu quero querer desistir, mas acho que é sina. Devo ser a moura encantada. Cada nota musical é um pedaço de morte. Sou uma cascata rubra desaguando no meu rosto branco. Sou um romance descartado de Santiago Nazarian.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Eles riem do meu nome, porque é feio. Eles riem do meu rosto, porque é feio. Eles riem das minhas roupas, dos meus sapatos, meus olhos opacos, minhas espinhas pustulentas, minhas sobrancelhas grossas com pelos sem direção. Eles riem de mim, eu sei, e talvez eu mereça. Talvez seja a minha sina, meu signo, vidas passadas, e Freud, búzios, tarôs, quiromancias, banhos de ervas, seções de descarrego e benzedeiras possam explicar. Eles podem rir de mim. Mas só eu posso cantar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;MÚSICA PLENA: Você é uma das poucas cantoras no mundo inteiro que conseguem executar mais de uma voz ao mesmo tempo, às vezes até articulando palavras ou mesmo melodias diferentes. O que te motivou a aprender essa técnica tão rara?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;NARA VEIGA: Uma voz só era muito pouco.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;MP: Você possui uma doença raríssima que, segundo os médicos, não te permitiria cantar. Entretanto, você é uma das cantoras com maior habilidade técnica do mundo. Ao que você acha que isso se deve?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;NV: À justiça cósmica.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;MP: Muitas foram, ao longo da sua carreira, as cenas de dor que seu público presenciou durante as suas apresentações. Se cantar te faz tão mal, por que você continua?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;NV: Porque nem toda paixão é prazerosa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Eu sou branca demais, branca demais, branca demais. Eu sou um fantasma. E não consigo nem mesmo gritar pra assustar os vivos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Subi em um palco sozinha pela primeira vez hoje. Meu pai estava na plateia e foi o primeiro a levantar pra me aplaudir. Por um curto momento, acreditei que isso era amor.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Ontem fiz aniversário. Ninguém apareceu. Não tive bolo. Sou a única que poderia cantar parabéns pra mim, mas não posso. Quando eles vestirem preto e as velas acesas não forem mais pra eu assoprar, será um alívio pra eles. Às vezes penso que só vivo pra contrariar meus pais.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;REVISTA CLAVEZ: Você adotou o nome Nara em homenagem a Nara Leão?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;NARA VEIGA: Meu nome é Nara.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;RC: Mas pela nossa pesquisa, seu nome verdadeiro é Vanilceia.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;NV: Nara Veiga é cantora. Vanilceia é apenas humana.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Deixei a caixa cair. Todos os retalhos se misturaram. Achei bonito. Minha vida não tem mais ponto de partida. Olho o digital da cabeceira. São 22:22. De igual já basta o tempo. Vou deixar meus retalhos por organizar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Eles saíram. Devem ter ido jantar. A vida deles é normal com exceção de mim. A filha, a neta, a sobrinha, a irmã que perdeu a deixa e insistiu em viver. A minha morte seria motivo de comoção nos Natais e, todos os anos, no dia que deveria ser o do meu aniversário. Na dor da minha perda, todos se uniriam pra chorar e imaginar como eu teria sido se tivesse podido viver. Mas eu fui fraca e não quis morrer.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Diva Nara,&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Pensa bem, é arriscado. É melhor desistir, vai por mim. Você é a melhor, todo mundo sabe disso. Não precisa arriscar sua saúde para provar nada a ninguém. A última nota é alta demais. Por favor, não esqueça da sua doença. Seu pulmão pode não aguentar, você sabe. Estou voando para o Rio agora mesmo. Não aceite o papel antes de conversarmos. Não faça nenhuma besteira. Você sabe que dessa hemorragia você pode não passar. Quando receber essa carta, por favor me ligue.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Um beijo carinhoso do seu&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Fernando.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Um pé. Eu não vi. Ele não estava lá antes. Mas estava quando eu caí. Eu não pude me levantar, eu não conseguia respirar, eu queria gritar de dor, mas ninguém ia me escutar. Escrever é tudo o que eu tenho. Nesse hospital eu nunca tinha vindo parar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Estamos de mudança. Não faz diferença. Eu tenho quinze anos, nenhum amigo, cinco pares de All Star e um sonho impossível. Não deixo nada. Não levo nada. O Steve Perry deixou o Journey, o Freddie morreu, o James LaBrie rompeu as cordas vocais. Meus heróis não são os do Cazuza, mas eu ando tão down.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;u&gt;&lt;span style="FONT-SIZE: 13pt"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;ESCOLA DE MÚSICA CARLOS GOMES&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/u&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Promoção&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Mensalidade a partir de R$ 350,00 para o primeiro semestre.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;CURSO PREPARATÓRIO PARA VESTIBULAR.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Aulas de canto lírico, canto popular, violão,&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;guitarra, bateria, baixo elétrico,&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;piano, teclado,&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;violino, violoncelo, contrabaixo,&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;clarinete, oboé, flauta transversa,&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;saxofone e muito mais.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;QUEM QUER APRENDER MÚSICA&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;ESTUDA NA&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;u&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;ESCOLA DE MÚSICA CARLOS GOMES&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/u&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="FONT-SIZE: 10pt"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(Mantenha a cidade limpa)&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;A recordação mais antiga da minha infância é da minha mãe chorando ao meu lado no primeiro dos muitos leitos de hospital em que me deitei. Deve ter sido nesse dia que ela ficou sabendo que eu viveria pouco, que o meu ar seria sempre pouco, a minha voz, eternamente sussurrada e a minha força, extremamente nula. Se ela soubesse que eles estavam errados naquele dia, eu teria vivido. Mas desde então ela me matou.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Cantei hoje na varanda. Eles vieram ver quem cantava. Nelson me perguntou quem mais cantava junto comigo. Eu estava só. Ele não acreditou. Então cantei novamente. Espanto. Vi minha avó ajoelhada aos pés do menino Jesus guardado no quarto dos fundos junto com as madeiras velhas e as ferramentas desusadas. Quis gritar muito alto, exigir a autoria do milagre e cobrar os agradecimentos. Abri a boca, articulei a vogal escolhida. Quase, quase, quase gritei. Agora estou com medo. Antes, o silêncio me protegia de mim.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;A professora faz a chamada. Não escuta a minha voz. Depois de dez anos estudando nessa mesma escola, ela ainda não sabe que tenho pulmões de pássaro, que não posso falar alto ou meu nariz sangra, que a minha voz é um sopro informe. É bom que ela nunca aprenda. Porque isso vai mudar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Desmaiei no palco. Antes de perder por completo os sentidos, ouvi o grito de horror da plateia. Antes de fechar por completo os olhos, vi a poça de sangue ao meu redor. Meu empresário acaba de vir me trazer um buquê de flores, um cartão e os jornais de hoje. Sou capa de três dos principais deles. Os entendidos me elogiam. Não há como negar: eu sou a melhor cantora que o mundo já viu. E hoje eu só queria poder esfregar todas essas críticas na cara dos médicos, da minha família, da minha mãe.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Recolho cinco pedaços de papel na escrivaninha de meu pai. Rasuro três, jogo um no lixo. Sobrou só este e só estou escrevendo nele porque eu odeio muito. Eu odeio muito, muito. Me odeiam muito também. Eu insisto, eu insisto. Eu não vou desistir de viver até que eu possa cantar. Eu vou continuar aqui até que a vida ou alguma justiça cósmica me permita extravasar tanta música coagulada no meu sangue.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Os dirigentes do teatro decidiram que eu sou contralto porque eu alcanço o fá da primeira oitava. Depois me disseram que era mentira, que eu sou um enigma e que os recursos humanos não deviam saber que preencher o espaço destinado ao naipe vocal no meu cadastro de funcionários pode dar diarréia mental.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Fugi da escola e agora espero. Tive que roubar muito dinheiro do meu pai pra pagar essa mensalidade. Mês que vem não sei.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Querem que eu interprete uma ária medieval escrita pra um castrado. Fernando disse pra eu recusar, que pode ser arriscado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Aceitei. Achei muito apropriado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Risquei o fósforo, mas não consegui prosseguir. Eu odeio o meu passado, a minha infância de fantasma, a minha juventude sob risos. Eu odeio tudo de tão horrendo que já vivi, o reflexo horrendo que já tive no espelho. Mas essa caixa é um membro meu. Ela também quer sobreviver.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Eu disse:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;“Mãe”.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Ela chorou.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Ontem eles vieram. Me enfiaram um cateter na veia do pulso e o sangue jorrou. Depois jogaram pra dentro de mim algum anestésico sem efeito e eu dormi. Está chegando. Eu sabia desde que nasci e não me enganei, como fazem os outros. Meu lado esquerdo não se movimenta mais. Meu pulso direito dói terrivelmente a cada letra. É insuportável, mas é preciso. Só me resta escrever agora que sou novamente silêncio. E depois de tudo que vivi, no fim só podia mesmo me esperar o grande silêncio. Minha voz é um imenso vácuo pulsando no meu pulmão fetal. Já não gorjeio. Por dentro, sou pura música desperdiçada. Amanhã, quando eles voltarem, talvez eu já não possa mais nem escrever. Cada minuto é uma perda. Todos os clichês são inúteis, que o maior deles está pra chegar. Será breve. E talvez essa seja a minha última frase: estou morrendo de derrame musical.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Perdi minha mãe. Ganhei uma bolsa de estudos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Eu tenho sete anos e não sei falar. Eu me olho no espelho e sou muito feia. Meu irmão é grande, é bonito e sabe nadar. Meu irmão tem um futuro bonito e se chama Nelson. Deve ser bom andar na rua olhando pra frente e se chamar Nelson. A casa inteira está prendendo o ar desde que eu nasci. Devo pesar. Quando eu morrer será mais leve.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;NARA VEIGA interpreta a ópera MEDEIA&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Em cartaz no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;NÃO PERCA!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="FONT-SIZE: 10pt"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(Mantenha a cidade limpa)&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: center; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Minha voz é um feto crescendo num ventre pequeno demais. A cada música, minha garganta pare um membro paralítico do filho natimorto que insiste em se regenerar. O som nunca acaba por dentro. Sou melodia aprisionada num instrumento fadado a perecer.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Diva Nara,&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Sua apresentação ontem foi a melhor execução de Medeia que o mundo já viu. Derrame mais música para o mundo. Muito mais!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Um beijo carinhoso do seu&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Fernando.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Em três meses, termino meu curso de música. O maestro do coro do Municipal me chamou pra um teste. Eu sei que eu passo. Eu sei que eu passo. Eu sei que eu passo. Ele sabe disso também. Eu sou muitas cantoras dentro da minha carcaça perecível.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;“Vanilceia Veiga, não sobe aí! Você vai cair!”&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Queria gritar: meu nome é Nara! E eu não vou cair, bater com a cabeça e morrer agora. Só depois que eu puder cantar, cantar, cantar, pro mundo inteiro ouvir toda a minha música represada. Aí então, mãe, eu te dou essa alegria!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="BORDER-BOTTOM: windowtext 3pt dotted; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 1pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm"&gt;&lt;p style="BORDER-BOTTOM: medium none; TEXT-ALIGN: justify; BORDER-LEFT: medium none; PADDING-BOTTOM: 0cm; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; PADDING-LEFT: 0cm; PADDING-RIGHT: 0cm; BORDER-TOP: medium none; BORDER-RIGHT: medium none; PADDING-TOP: 0cm; mso-border-bottom-alt: dotted windowtext 3.0pt; mso-padding-alt: 0cm 0cm 1.0pt 0cm" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Quando alcancei o fá sustenido da sétima oitava, meu nariz começou a sangrar. Nunca tinha sido tanto. Senti algo arrebentando no meu peito. A dor escorreu por todas as veias. Cerrei os olhos com mais força tentando manter o vibrato sem interrupção. Abri os olhos no sétimo segundo. A plateia me olhava com horror. Fernando gritou a alguém na coxia que era preciso me fazer parar. Senti o sangue cair pelo rosto, descer pelo pescoço, entrar pelo decote e escorrer pelo meu corpo manchando o vestido vermelho. O ar faltou no décimo primeiro segundo. Faltavam ainda dois pra acabar a sequência. Os aplausos foram os mais fortes que já ouvi na minha vida.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Até que o meu fracasso me cegou.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: right; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="right"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(Milena Martins)&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-3729949365855337628?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/3729949365855337628/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/07/voices-foi-aberta-tampa.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/3729949365855337628'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/3729949365855337628'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/07/voices-foi-aberta-tampa.html' title='VOICES (Foi aberta a tampa)'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-6100288643790410488</id><published>2010-07-06T18:45:00.001-03:00</published><updated>2010-07-06T18:48:31.616-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='colaborações para revistas'/><title type='text'>Óculos pra viagem 2</title><content type='html'>Caros blogosfeiros,&lt;br /&gt;Meu conto "Para ouvir o Fado", do livro Promessa Vazia, está na capa da revista eletrônica Letras et Cetera. Se puderem, deem um pulo lá. Deixem uma pegada na areia. É só clicar no título desse post, que ele vai levá-los direto ao site. Victoria ficará muito feliz!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Grande abraço.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-6100288643790410488?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://nanquin.blogspot.com/2010/07/milena-martins-para-ouvir-o-fado.html' title='Óculos pra viagem 2'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/6100288643790410488/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/07/oculos-pra-viagem-2.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/6100288643790410488'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/6100288643790410488'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/07/oculos-pra-viagem-2.html' title='Óculos pra viagem 2'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-2534517312646439672</id><published>2010-07-03T01:14:00.003-03:00</published><updated>2010-07-06T19:08:45.974-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='colaborações para revistas'/><title type='text'>Óculos pra viagem!</title><content type='html'>Caríssimos,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu conto "The Victory and the Page", do Promessa Vazia, está no ar no blog literário O Bule (&lt;a href="http://o-bule.blogspot.com/"&gt;http://o-bule.blogspot.com/&lt;/a&gt;). Deem um pulo lá. Façam Victoria um pouquinho mais feliz deixando uma pegada na areia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um abraço a todos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-2534517312646439672?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/2534517312646439672/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/07/oculos-pra-viagem.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/2534517312646439672'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/2534517312646439672'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/07/oculos-pra-viagem.html' title='Óculos pra viagem!'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-3723272323519528713</id><published>2010-06-30T22:14:00.005-03:00</published><updated>2010-06-30T22:22:56.477-03:00</updated><title type='text'>Drawing!</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Hoje à noite decidi voltar a desenhar. Há pelo menos um ano não pego num bom lápis 6B (e quem conhece os meus desenhos sabe que o 6B simplesmente impera neles). Mas desenhar o quê, quem, onde, como?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Por enquanto o que está saindo é isso aí. Try to recognize the model! =)&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 357px; DISPLAY: block; HEIGHT: 498px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5488741465180433938" border="0" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/TCvtSDAJbhI/AAAAAAAAAJo/VPeu-4x0psM/s320/GEDC0738.JPG" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;É ninguém menos que o incredible singer James LaBrie! =)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-3723272323519528713?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/3723272323519528713/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/06/drawing.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/3723272323519528713'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/3723272323519528713'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/06/drawing.html' title='Drawing!'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/TCvtSDAJbhI/AAAAAAAAAJo/VPeu-4x0psM/s72-c/GEDC0738.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-1604490853456078609</id><published>2010-06-28T22:35:00.003-03:00</published><updated>2010-07-03T23:11:02.223-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Beauty Projection'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='livros'/><title type='text'>Uma ideia</title><content type='html'>Para efeito de esclarecimentos, vai este post:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Algumas pessoas têm me perguntado sobre a estrutura dos novos contos que tenho escrito. Bem, como todos já devem saber, o Promessa Vazia, meu livro de contos, sai em breve pela editora Multifoco. E, compulsiva que sou, comecei a escrever novas histórias assim que dei o livro anterior por terminado. O novo há de se chamar Beauty Projection e, como estou escrevendo muito (as I always do), deve ficar terminado também em breve. But...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O Beauty Projection não é um simples livro de contos. Esse é o principal motivo da nova estrutura narrativa que eu tenho dado aos textos. Esse novo livro tem a pretensão de não ser só um contador de histórias, mas sim de soprá-las no vento, jogá-las pra cima. E você, leitor, pega tudo que alcançar, esteja dito ou não. Costumo dizer que esse projeto é um quebra-cabeça diarístico, em que os fatos vão sendo ditos e só depois é possível juntá-los. Assim como Caio F. dizia dos seus Dragões, meu Beauty é um romance-móbile, em que os trechos dos diários (que formam os contos) e os contos (que formam o livro), quando unidos, oferecem uma história fragmentada, mas completa.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Costumo dizer que os contos do Beauty Projection são gagos, pois são entrecortados como o já tão conhecido "Excertos de um não-diário", que está no Promessa. A estrutura do "Excertos", aliás, foi bastante inspiradora. Pensei em como não seria intenso e, de alguma forma, original escrever todo um livro baseado nela.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Esses novos contos, porém, não estarão aqui nos Oráculos, pois são minha grande aposta para os concursos literários que estão vindo aí! Fiquem curiosos! Torçam por mim! =)&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E aguardem, ó pá, meu pessoal, que o lançamento do Promessa tá chegando já já já!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Grande abraço,&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;de Victoria.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-1604490853456078609?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/1604490853456078609/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/06/uma-ideia.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/1604490853456078609'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/1604490853456078609'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/06/uma-ideia.html' title='Uma ideia'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-4061753507128508450</id><published>2010-06-21T23:11:00.004-03:00</published><updated>2010-06-28T14:21:35.168-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='poesia'/><title type='text'></title><content type='html'>Uma mão no abismo,&lt;br /&gt;um pesticida.&lt;br /&gt;Uma saída,&lt;br /&gt;uma saída,&lt;br /&gt;um homicida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O espelho rachado&lt;br /&gt;me partindo ao meio,&lt;br /&gt;uma bala de canhão&lt;br /&gt;no tiroteio&lt;br /&gt;pra eu desistir&lt;br /&gt;da minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pra eu cuspir a vírgula&lt;br /&gt;nunca dita,&lt;br /&gt;a minha imagem&lt;br /&gt;assimétrica&lt;br /&gt;e maldita,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;um furo na mão,&lt;br /&gt;uma flor apodrecendo&lt;br /&gt;sobre o cimento.&lt;br /&gt;Uma saída,&lt;br /&gt;uma saída,&lt;br /&gt;um testamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um quarteto de cordas&lt;br /&gt;com nó apertado.&lt;br /&gt;Uma orquestra de metais&lt;br /&gt;bem afiados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu quero um bloco&lt;br /&gt;vazio,&lt;br /&gt;novo&lt;br /&gt;e pautado.&lt;br /&gt;Um barbitúrico&lt;br /&gt;e um soco bem dado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma saída&lt;br /&gt;pra palavra&lt;br /&gt;que eu não devia&lt;br /&gt;ter calado.&lt;br /&gt;(M³)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-4061753507128508450?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/4061753507128508450/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/06/uma-mao-no-abismo-um-pesticida.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/4061753507128508450'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/4061753507128508450'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/06/uma-mao-no-abismo-um-pesticida.html' title=''/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-1545590247634570418</id><published>2010-06-06T21:31:00.000-03:00</published><updated>2010-06-06T21:33:04.853-03:00</updated><title type='text'>Se eu quiser falar com Deus...</title><content type='html'>...Vou até o twitter que Ele deve estar online! Clica no título aí!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-1545590247634570418?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://twitter.com/OCriador' title='Se eu quiser falar com Deus...'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/1545590247634570418/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/06/se-eu-quiser-falar-com-deus.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/1545590247634570418'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/1545590247634570418'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/06/se-eu-quiser-falar-com-deus.html' title='Se eu quiser falar com Deus...'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-7700772339561720654</id><published>2010-06-05T00:17:00.002-03:00</published><updated>2010-06-05T00:18:27.020-03:00</updated><title type='text'>Siga a série!</title><content type='html'>&lt;span&gt;&lt;/span&gt;Contos nanicos têm no máximo 140 caracteres. Ideia de Marcelino Freire que eu resolvi imitar. Acompanhe em @thevictoriapage no Twitter!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-7700772339561720654?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://twitter.com/thevictoriapage' title='Siga a série!'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/7700772339561720654/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/06/siga-serie.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/7700772339561720654'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/7700772339561720654'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/06/siga-serie.html' title='Siga a série!'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-7538416735199700773</id><published>2010-06-03T20:58:00.003-03:00</published><updated>2010-06-04T18:28:16.510-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='capítulo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='microconto'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='romance'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Victoria'/><title type='text'>...Do livro sem título que eu pretendo terminar...</title><content type='html'>&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Abri os olhos porque já tinham ficado fechados tempo demais.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Puta que pariu!, a voz ecoou no vazio do quarto, três da tarde! Puta que, puta que pariu!, enquanto eu tropeçava ao levantar da cama, muito sol pela janela aberta entrando a me ferir os olhos acostumados demais ao escuro do sono. E eu esbarrando nas coisas do quarto, apenas formas sem nome – uma quina pontiaguda, outra, um algo pequeno que derrubei no chão, superfícies lisas na boca do estômago, outras ocas nos dedos dos pés doendo. Puta que pariu!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Cara na porta.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Não, não. Parede.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Parei.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Abri os olhos devagar após a pancada, a cara doída da parede crespa, a pele marcada da batida. Com calma, recobrei a calma e retomei a visão. Ora che ho perso la vista, ci vedo di piú. O claro ia parando de doer e vi o quarto. Penetrado de sol às três da tarde de fevereiro. Mais dois meses de trabalho e eu tiraria trinta dias de férias, pensei. Talvez vendesse dez pra empresa e tirasse uma pouca grana a mais. Mas eu não tinha por que ganhar dinheiro. Eu não tinha com o que gastar dinheiro. Eu não tinha nada.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Eu não tinha mais emprego.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Desde o dia anterior eu não tinha mais emprego.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Suspirei com o corpo todo num alívio que me escorregou costas na parede até sentar no chão de tacos de madeira do único quarto do meu apartamento.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Vitória!, disse em voz alta. Vitória, você não tem mais emprego!, continuei dizendo em voz alta. E rindo da ironia do meu nome. Vitória, você não tem nada, Vitória.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;No chão, o frio do piso que não era piso frio me esfriava a pele. A parede crespa nas costas nuas me encrespava a pele das costas nuas. Eu estava nua no meio do vazio do quarto, que tinha se tornado, tal qual o resto do apartamento, um depósito dos meus inúteis pertences, minhas inutilidades apaixonadas:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;meu violão velho de guerra, que eu usei pra ensinar o Júlio a tocar,&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;muitos livros,&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;discos de vinil – eu era uma pessoa antiga, &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;a máquina de escrever verde-claro que o antigo dono do apartamento esqueceu de levar,&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;aquele caderno velho e molhado: “Qual é o seu nome? Me diz o seu nome...”, “Vitória”,&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;meu celular ultrapassado que eu só achava quando telefonavam, e nunca telefonavam.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Eu não tinha ninguém.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Eu tinha sim umas almofadas indianas, que estavam na moda, pôsteres do Freddie Mercury, alguns filmes especiais, Sociedade dos Poetas Mortos, O Enigma de Kaspar Hauser entre diversos etceteras. O meu quarto era cheio, mas o meu mundo era vazio.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Fiquei sentada em meio ao vazio, desempregada e nua, com um futuro branco pela frente a não cumprir. Eu tinha mais de trinta, trinta e cinco actually, e não tinha nada. Nem me espantava mais. Eu não tinha dado certo e a desculpa da juventude já não funcionava. Meus amigos tinham ficado no passado. E deviam estar bem. Isabel casou, não fui. Júlio também, também não fui. Não sabia mais do Eduardo, irmão do Júlio, mas ele tinha ido pro exterior. Devia ter dado certo também. E ele... (Mas ele quem?) Que importava?, devia ser mais um pra lista. E eu era um fracasso, sempre insone de café ou bêbada sonolenta, envelhecendo no meio de escombros, fumaça e umidade.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;E agora ócio.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Minha vida era um livro em branco com a página de ontem arrancada de inlembranças e lacunas e carências e parênteses vazios. E o gosto de álcool preenchendo os vazios. &lt;span style="mso-ansi-language: EN-US" lang="EN-US"&gt;E a ressaca, again and again and again and again, como numa música de Autumn Tears.&lt;?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Eu odiava o meu emprego, aquele que eu já não tinha, I really wanted to quit, pensei com sotaque, mas a demissão feria o meu ego. Eu!, repeti alto, Eu, eu, eu! Era eu que devia ter me mandado de lá!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Então, cansada demais pra continuar pensando, enjoada demais pra continuar falando, disse em voz alta assim: Fuck off! Vitória!, e já não era o meu nome que eu chamava.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Eu tinha desejado tanto aquele letargo sem obrigação que não sabia como começar a aproveitar aquela vastidão de ócio. Parada nua no quarto, eu segurei nas mãos o presente do Papai Noel, que a criança ainda não sabe que a mãe abriu prestação pra comprar. No ápice do meu aborrecimento de escritório, dias inteiros após dias inteiros, eu me pegava pensando: I really wanna quit! E dizendo pra mim mesma: Faz um pedido, Vitória, que eu atendo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Bingo! Meu Papai Noel interior tinha, afinal, funcionado bem e, dois meses depois do Natal, cá estava o presente.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Eu não tinha mais emprego.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Mas, depois da felicidade de ter sido atendida a cartinha (no meu caso, felicidade comemorada no dia anterior com um belo porre de esquecer tudo e vomitar a alma no tapete persa da sala), aquela vontade de devolver o pedido, de nunca tê-lo pedido, vinha subindo. Eu não sabia por onde começar a curtir o vazio, a expurgar de mim a vontade do vazio. Desde o estômago até a garganta vinha subindo a vontade de devolver o presente vazio ao Papai Noel.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Então vomitei, na cara do Papai Noel.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-7538416735199700773?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/7538416735199700773/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/06/do-livro-sem-titulo-que-eu-pretendo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/7538416735199700773'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/7538416735199700773'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/06/do-livro-sem-titulo-que-eu-pretendo.html' title='...Do livro sem título que eu pretendo terminar...'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-6976062413463788186</id><published>2010-05-25T22:33:00.004-03:00</published><updated>2010-06-04T18:26:08.007-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='microconto'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='confissão'/><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Eu quero te esperar como àquele frio que estou sentindo. Eu quero te ver do outro lado da porta quando alguém bater e eu abrir. Quero que seja sempre você esse alguém a bater pedindo pra eu abrir. Quero não ter que olhar fotos antigas pra cismar o seu rosto, porque eu quero o seu rosto, como queria aqui, agora, você me afagando um pouco mais. Talvez eu devesse ter te ligado quando você pediu. Eu devesse ter te chamando quando eu precisei. Eu devesse ter batido à sua porta quando passei em frente. Mas é tão tarde. E lá fora a lua é cheia. E eu queria você aqui, mas você está em algum lugar frio, azul e solitário, com um tubo te ajudando a respirar. Eu não queria isso. Eu não queria estar chorando aqui quando eu tive tanto tempo pra te provar que eu te amo tanto, eu te amo tanto, eu quero tanto você mais tanto, tanto tempo junto de mim. Rindo num filme mudo de Chaplin. Com um palhaço no circo. Imitando o garçon fanho da Parmê da praça Barão de Drummont(d?). Fica, por favor, eu te peço. Que eu vou chorar a vida inteira sem você. Fica, meu querido, de olhos azuis tão leves, tão doces, tão claros. Fica, eu te peço. Não vai embora, pelo amor de Deus. Não vai embora da frente dos meus olhos, do percurso dos meus dias, da minha vida não vai. Eu te imploro e te imploro, fica. Fica, vô, fica. Me abraça essa noite e me põe pra dormir.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-6976062413463788186?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/6976062413463788186/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/05/eu-quero-te-esperar-como-aquele-frio.html#comment-form' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/6976062413463788186'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/6976062413463788186'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/05/eu-quero-te-esperar-como-aquele-frio.html' title=''/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-7522882663772412583</id><published>2010-05-24T14:26:00.002-03:00</published><updated>2010-06-28T22:57:58.187-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Beauty Projection'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='conto'/><title type='text'>MISTAKE</title><content type='html'>&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Ela queria um videogame. Mas só lhe deram uma boneca Barbie peituda e loira com vestido de lantejoulas rosa-choque. E aquela família era tão rica. Podiam ter lhe dado um videogame. Ela mandaria alguém à puta que o pariu naquela porra de noite de Natal se não fosse tão pequena, mas era ainda tão pequena. Ela tinha sete anos. E se chamava Ana Maria. E morava num bairro rico qualquer, de uma cidade grande qualquer. No fundo, ela mesma era uma qualquer. E sabia. Que tinha muito dinheiro ela sabia. E que não tinha nenhuma vontade também.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Mariana chegou da rua com duas notas de dez reais enroscadas no bolso, um pacote de pó branco e algumas folhas de cinco pontas. A madre do orfanato agradeceu com um beijo cínico e um safanão. Depois se trancou no escritório grande e saiu de lá sorrindo. Ela tinha sete anos, a Mariana, e ninguém sabia de onde tinha vindo. Só que tinha sido enrolada num saco de lixo e colocada ali na porta (grande, de madeira de lei, com uma maçaneta de ouro que roubaram duas vezes antes de colocarem a cerca elétrica em volta do muro) por uma moça pobre que todo mundo naquele bairro pobre sabia que vivia tentando se matar. E que era puta lá na zona sul. Mariana subiu pro quarto naquela noite de Natal. Dormiu em paz, porque não tinha esperança nem ansiedade. Já tinham lhe falado que não existe Papai Noel.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Ana Maria passou cinco dias pensando em cima da privada, chorando trancada no banheiro, até que decidiu. Ninguém nunca ficou sabendo que ela empurrou aquela ruiva de merda do terceiro andar. E a garota nem morreu, nem morreu. Foi merecido, Ana Maria tinha certeza. Porque aquela ruivinha de merda tinha tudo o que queria, todos os presentes, todos os garotos, todo o dinheiro, as viagens, tudo isso que Ana Maria não tinha porque era feia e sem sal e porque o pai, aquele burro babaca, estava afundado em dívidas. Nem tinha podido pagar a festa de quinze anos (e ele prometeu, aquele escroto prometeu!). A ruivinha idiota tinha tudo e sabia que tinha tudo. E sabia que Ana Maria tinha cada vez menos e fazia piada disso. Babaca, imbecil, filha de uma puta. Ela tinha que aprender que... que... Mereceu, ela mereceu. Ela tinha que aprender que... que... que... Ana Maria passou mais seis meses chorando em cima da privada até ouvir o disparo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Primeiro, ela aprendeu a beber. Depois ela fumou um cigarro. Um por semana, um por dia, um maço por dia, dois, três. E veio a maconha. Era fácil, ela já conhecia quem vendia. Desde os sete anos. Era só roubar uma grana, e isso há muitos anos ela já fazia. Era fácil. E, enquanto isso, ela fugia do sinal, onde vendia amendoim, e ia pro museu, ali do lado. E ficou conhecendo uns nomes aí e depois pesquisou um pouco mais e ficou conhecendo mais nomes aí e foi gostando. E talvez tenha sido o álcool ou a nicotina ou a maconha. Ou só talento, se ele não é motivado por alguma força maior. E ela começou a pintar. Foi por isso que Mariana entrou pra faculdade. Começou a vender pinturas idiotas na rua, ganhou um dinheiro, pouco e suficiente. E mandou a madre do orfanato à merda com um beijo cínico e um safanão. Só depois veio a cocaína.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Aquela puta deu um tiro na cabeça. Sacou? Um tiro na cabeça! (gole de vodka). Nunca me deu a porra de um abraço, aquela puta! (crise de histeria). Puta! Puta! Puta! Vaca, galinha, desgraçada de merda! Acabou o dinheiro, ela deu um tiro na cabeça. Vadia do caralho! Puta! Vagabunda! Puta! (joga o copo na parede, ele não quebra. Chora muito, talvez por isso). Meu Deus! (vai decaindo até sentar no chão, a maquiagem borrada, o vestido rasgado no meio de uma bad trip nem sabe mais de quê. Soluça, soluça, soluça). Que que vai ser da porra da minha vida, cara? Eu não tenho mais nada, cara... (põe a cabeça no meio dos joelhos, vai se deitando assim, alongamento de bailarina, até encostar a cabeça no chão e esticar as pernas. Lembra de quando ia pra escola de balé na infância). Eu fui muito rica, muito rica. Até ela dar um tiro na cabeça. Ela me levava pra fazer balé, a minha mãe. A gente tinha muita grana, you know? Meu pai gastou tudo (a língua enrola, ela vai virando de lado, vai parando de chorar). Meu Deus! Cara, eu tô na merda, cara... (ele pega Ana Maria pelo braço roxo das porradas de ontem. Leva Ana Maria pra cama. Ela dorme no meio da transa. Ele deixa um dinheiro e sai com a calça desabotoada. Não vai voltar).&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;A casa era de um mau gosto extremo. Mas todo mundo elogiava. As mulheres de cabelos curtos e sobretudo. Os homens de barba cerrada e cabelo bagunçado. Todo mundo de óculos de aro grosso cor escura, quase sempre sem grau, que tudo ali era pose. Alguma peça xadrez na indumentária, um tênis all star sujo ou botas brilhantes. Bolsas com botões de astros do rock setenta, Beatles, Chico Buarque, Mutantes, Caetano e jazz no som. Quadros horrendos de nomes grandes com talento nenhum, mantas jogadas nas costas dos sofás e das cadeiras. Vinho branco e espumante, caviar com torrada pra canapé. No primeiro quarto do corredor, carreiras de cocaína. Na sala, a marola de maconha. Diziam que no banheiro do andar de cima tinha ópio, mas ela não foi conferir. Mariana gostou do primeiro quarto do corredor. Ninguém precisava saber de onde ela tinha vindo nem que ela já tinha rebolado em baile funk, vendido bala no sinal, assaltado turista de noite nos lados da Lapa. E ela não ligava pros sorrisos de propaganda de pasta de dente daquela gente mesquinha. Ela queria mais era fazer a social e cheirar cocaína. Queria mais era usar todo mundo ali. Que quanto mais ela mergulhasse naquele mundinho de classe média alta cheia de si, sorrisse e bancasse a pessoa maneira-tão-elegante-e-culta, mais e mais ela ia ganhar status, ficar conhecida e ter um nome na rodinha cultural de cartas marcadas. É assim que funciona. Ela sabia. Ainda deve saber.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Quando saiu do hospital, Ana Maria viu um sol forte demais. Ficou enjoada, vomitou na calçada, não tinha mais casa, não tinha mais nada. Desmaiou.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Quando acordou no hospital, Ana Maria sentia um frio forte demais. Tinha febre forte demais. Começou a tremer. Começou a chorar. Começou a se debater. Vieram os enfermeiros fortes demais, aqueles do dia anterior, que apertaram forte demais o braço machucado demais da Ana Maria. E eles apertaram forte demais o braço mais machucado demais ainda da Ana Maria. Ela não teve força pra gritar de dor. Sentiu a agulha ir fundo no braço. E não teve força pra gritar de dor. Desmaiou de dor. Ou foi o anestésico.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(Silêncio escuro. Depois, luz.)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;– Quantos comprimidos você tomou (ele olha a prancheta e remexe os papéis), hum..., Ana Maria...?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;– Dezesseis (voz fraca).&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;– E quanto de álcool?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;– Duas caixas...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;– Porra, nenhum fígado resiste!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;No dia seguinte ela ia ter alta. Nem conseguiu dormir à noite. Ali pelo menos tinha cama, coberta, comida. Lá fora estava chovendo, ela não tinha pra onde ir, não tinha o que comer, não tinha mais porra nenhuma nessa vida. Nem a sorte de conseguir se matar. Nem se matar ela tinha conseguido nessa vida.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Pelo menos o bebê tinha morrido envenenado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Parou no sinal. Odiava aquela porra de sinal. Sempre procurava avançar, parar longe da faixa de pedestres ou, em último caso, nem passar por ali. Mas estava com pressa, aquele era o caminho mais curto, não tinha dado pra avançar e o sinal tinha fechado logo que o carro encostou na linha branca da faixa. Então eles vieram. Dá um trocadinho é o caralho (ela pensava), e sacudia a cabeça dizendo que não, que não, que não tinha (mentira) e eles jogavam água suja no vidro, melecavam o vidro, e ainda cobravam um trocadinho (é o caralho!, ela pensava com o sorriso cínico no rosto, vontade de dar neles um safanão). O sinal abriu. Alívio. Três minutos eternos de uma tortura sem igual. Apertou o acelerador do Honda quase até o fundo antes de soltar o freio. Gostava de ouvir o carro cantando pneu. E antes de arrancar, Mariana pôde ver a velha, sentada no meio fio, o braço manchado de cicatrizes antigas, os traços finos e os cabelos pretos, lisos (inveja, que a mendiga tinha cabelo melhor, até a porra da mendiga tinha um cabelo melhor! Mas ia continuar penteando o pixaim pra cima e se assumindo, que tudo ali era pose). Por um momento, o olhar pobre da velha cruzou o olhar rico da Mariana. Depois, o City arrancou voado cantando pneu. Mariana desejou um cigarro mentolado e uma carreira de cocaína. Sorriu lembrando: tinha ainda alguma coisa do último sarau guardada no ateliê. Já estava perto de lá. Logo o Honda subiria Santa Teresa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Mas é que o desejo é burro, o corpo é burro, e o instinto infeliz de preservação faz de qualquer ser que viva um bicho burro. Que luta pra continuar, mesmo quando não tem por quê. Ana Maria começou a mendigar, conseguiu comprar alguma comida por uns dias. Depois se prostituiu de novo, que disso ela entendia bem. Era bonita ainda. Ainda tinha uns traços finos, uns cabelos pretos, longos, lisos, um corpo magro (não comia, afinal). E turista não se importa com cicatriz e hematoma das surras que ela já tinha levado. Eles queriam uma xota, não uma modelo internacional na cama. Eles nem queriam os traços, os cabelos, o corpo. Só um lugar onde enfiar o pau. Os clientes? Apareceram. E as outras putas, que brigavam pelos sinais da zona sul também. Bateram na Ana Maria, deixaram algumas marcas. E daí? Ela roubou a arma de um polícia que tinha dormido com ela, atirou em duas desafetas e nunca mais ninguém incomodou. Alugou um apartamentinho num bairro pobre, sem nada, só pra ter um teto. E ainda tentou se matar mais três ou quatro vezes. Mas não adiantou. Até que.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;De noite, um choro acordou a Ana Maria na quitinete úmida de subúrbio onde ela tinha ido parar. Vestiu um pano qualquer, desceu as escadas. E procurou, procurou, procurou. Até achar o bebê jogado no lixo, enrolado num saco preto, sem mais nada, mais nada. Tentou chorar pelo desgraçado sem futuro que ela tinha achado ali. Mas não conseguiu. Nem morrer nem chorar ela conseguia. Deixou o bebê na porta de um abrigo qualquer, que aquilo não era problema seu. Nem se preocupou de ver o sexo, que aquilo não era problema seu. Voltou pra casa, subiu as escadas e voltou a dormir.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(M³)&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-7522882663772412583?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/7522882663772412583/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/05/mistake.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/7522882663772412583'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/7522882663772412583'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/05/mistake.html' title='MISTAKE'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-903196239916635269</id><published>2010-04-29T22:52:00.003-03:00</published><updated>2010-06-04T18:22:54.020-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='microconto'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='confissão'/><title type='text'>...I am diving, diving to the abyss of my soul...</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Hoje, hoje eu queria um trago fundo e um copo de vodca (isso que eu não sei mesmo se é com c ou k nem ligo mais). Mas, em vez disso, tive uma crise de vômito. Se eu ainda tivesse bebido a vodc(k?)a seria digno. Mas foi só o efeito de alguma comida ruim. Hoje foi um dia ruim.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Hoje, hoje eu queria uma mão estendida no abismo me dizendo assim: segura a minha mão, pisa naquela pedra, e agora nessa, não olha pra baixo, não precisa ter medo, não vou te deixar cair.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas essa mão talvez quisesse me salvar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E quem precisa de salvação não sou eu, eu tenho certeza (até porque eu não vou pro céu mesmo...).&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Hoje, hoje eu queria dar ordem a isso que tem me brotado às vezes. E que eu ainda não sei o que quer dizer:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;"Você tem que morar no mistério, tem que morar no mistério".&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;"Talvez você seja só o resultado da minha necessidade de poesia nessa vida que é pó".&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;"Queria dizer: vem ser meu sol em clave de fá, grave mas leve, aquecido entre as últimas linhas. Mas você confunde as claves. E o mi é agudo e dói".&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;"Um nome só vale enquanto não tem cicatriz" (Alice e Bruna são as responsáveis por essa frase. E nem devem saber disso).&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;"I am climbing, climbing to the stones around my soul".&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Hoje eu queria entender o que é isso.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas talvez eu leia algum livro inútil, ouça alguma música inútil, deite na cama do mesmo jeito inútil de todos os dias. E chore, porque chorar é inútil, porque viver é inútil, porque eu sou muito sozinha e ninguém vai me ouvir se eu gritar, nem se eu cantar, e a minha voz é inútil por isso, e talvez viver seja inútil por isso.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Hoje eu queria um trago fundo e um copo de vodc(k?)a, talvez uma voz ou duas em volta, talvez um outro lugar, um outro momento, não aqui, não desse jeito, não com essa angústia por dentro, essas borboletas voando por dentro, esse espinho doendo por dentro.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Hoje eu queria que fosse ontem.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E que eu acabasse de acordar de um porre.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E não lembrasse dessa bad trip.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-903196239916635269?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/903196239916635269/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/04/i-am-diving-diving-to-abyss-of-my-soul.html#comment-form' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/903196239916635269'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/903196239916635269'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/04/i-am-diving-diving-to-abyss-of-my-soul.html' title='...I am diving, diving to the abyss of my soul...'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-5823998681969956458</id><published>2010-04-26T22:26:00.004-03:00</published><updated>2010-06-04T18:21:55.635-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Promessa Vazia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='livros'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='confissão'/><title type='text'>...Caixão sem corpo. Desenterre, por favor!...</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Estava lendo um texto de Luciene Azevedo, na revista Matraga, falando de blogs. Me identifiquei com muitas coisas, sobretudo com o alter ego (no meu caso, Victoria sweetheart). E cheguei a uma conclusão irrefutável: eu escrevo aqui pra me exibir. REALLY! Mas com isso veio uma constatação ainda mais irrefutável: não tá dando certo, man! Então, não tenho medo ou vergonha de me mostrar uma escritora carente ao extremo. Não sou link em blog ou site de ninguém. Ninguém me conhece, eu não falo com ninguém. Não tô ligada nos blogs da hora, nos sites da hora, não sei fazer contatos nem manter os que fiz. Não sei onde as pessoas estão pra dizer a elas que eu estou aqui. E quem vem aqui não pisa na areia. Alguém aí, me link. Alguém aí, comente. Alguém aí...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Tem alguém aí?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;De qualquer forma, o "Promessa Vazia" tá vindo aí, pela editora Multifoco... Por favor, alguém compre. Ou nunca mais me publicam.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-5823998681969956458?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/5823998681969956458/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/04/caixao-sem-corpo-desenterre-por-favor.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/5823998681969956458'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/5823998681969956458'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/04/caixao-sem-corpo-desenterre-por-favor.html' title='...Caixão sem corpo. Desenterre, por favor!...'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-726958676227182845</id><published>2010-04-20T22:20:00.001-03:00</published><updated>2010-06-04T18:19:52.749-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='microconto'/><title type='text'>...Em resposta à Alice...</title><content type='html'>&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Ontem, ela me perguntou quantas vezes eu já olhei o ventilador girar e pensei em suicídio. Nenhuma, eu respondi. Mas agora essa imagem não para mais de me assombrar. Deitei de ponta-cabeça na cama pra olhar o ventilador a noite inteira.&lt;?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Mas dormi.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Hoje acho que vou passar o dia ouvindo Led Zepellin e lendo Sylvia Plath. Minha vida é um compasso dois por oito em fá menor. Quis querer chorar. Mas acabei não querendo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;No orkut, meus amigos já não passam o tempo todo jogando colheita feliz, isso que os fazia não falarem mais comigo. Nem falam mais comigo. Nem eu com ninguém.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Que o silêncio é seguro.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Fui pra Villa-Lobos cantar até estourar (como as cigarras, na explosão do grito). Não teve aula. Fiquei a salvo, como quem se joga no mar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Porque esqueceu que não sabe nadar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(Rima pobre)&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Meu segundo livro foi aceito pela editora. Ganhei bolsa no mestrado. Pensei que conseguir coisas mexesse com essa amargura.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;E descobri que a vida é uma pitada de sal.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Amanhã vou lavar bem as mãos, pintar um quadro inteiro de roxo e amarelo. Deixar o ventilador bem lento. E ver a hélice rodar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-726958676227182845?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/726958676227182845/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/04/em-resposta-alice.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/726958676227182845'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/726958676227182845'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/04/em-resposta-alice.html' title='...Em resposta à Alice...'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-1192669048852007764</id><published>2010-04-02T22:18:00.002-03:00</published><updated>2010-06-04T18:16:44.296-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='microconto'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Promessa Vazia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='antologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='conto'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='livros'/><title type='text'></title><content type='html'>The second is coming soon.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Promessa vazia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Wait!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-1192669048852007764?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/1192669048852007764/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/04/second-is-coming-soon.html#comment-form' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/1192669048852007764'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/1192669048852007764'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/04/second-is-coming-soon.html' title=''/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-3922394595428521943</id><published>2010-03-21T22:22:00.006-03:00</published><updated>2010-06-04T18:12:59.051-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Dream Theater'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='música'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='confissão'/><title type='text'>...A Night to Remember...</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Eu mantive diários durante longos períodos da minha vida. Todos acabaram destruídos, coitados. Rasgados, jogados fora, só não foram queimados (embora eu até tivesse vontade). Porque, actually, nunca gostei de diários: escrevia neles só pra me libertar. Talvez ou certamente por isso muitas vezes me impedi de ter um blog e, ao criar meu antigo (que acabou rasgado, jogado fora, destruído etc.) e este aqui, fiz e ainda faço de tudo pra não escrever simplesmente um diário virtual e nada mais. Este deveria ser um espaço pra divulgar na web o que eu produzo, não o que eu escrevo pra tentar não me matar num fim frio de noite de inverno, na depressão de um porre, numa crise de TPM do caralho and so on (embora às vezes isso seja exatamente "o que eu produzo").&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas é que hoje (só hoje) não dá.&lt;br /&gt;Hoje (só hoje), eu tenho que abrir mão da personagem autora Milena Martins e deixar a personagem-alter-ego-muito-mais-interessante Victoria Page falar. Porque hoje, só hoje, Mileninha foi pu hell e deixou Victoria (radiante, numa felicidade do cacete) em seu lugar. E Victoria quer muito falar que.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ontem eu tive a emoção da minha vida. Ontem eu fui ao show da minha vida. Fui ontem ver a banda da minha vida. E isso tem que ser dito. Porque poucas ou nenhumas vezes eu fui tão feliz na minha vida.&lt;br /&gt;Quem lê pelo menos alguma coisa nesse blog, ou quem não lê quase nada ou nada mesmo, mas me conhece, sabe o quanto eu amo essa banda, o quanto eu endeuso esses músicos e esse cantor, o quanto a obra magnífica desses caras virtuosíssimos, talentosíssimos representa pra mim.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ontem, ontem eu estive lá, sob o mesmo teto. Ontem eu gritei, ontem eu pulei, cantei todas as músicas o mais alto que eu pude, chorei ao ouvi-los (fantasticamente) tocarem a minha música preferida, aplaudi, perdi a voz, o fôlego. Ontem, meu Deus, ontem. Ontem eu vi o Dream Theater.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;This is a night to remember, not a nightmare. And I'm gonna remember that night forever, even though I live a thousand years.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Cheguei em casa com o corpo dolorido, a garganta queimando, o ouvido fazendo ziiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii. Dormi depois de uma dose cavalar de analgésico. Mas eu me permiti. Me permiti pisar em todos os pés enquanto pulava, gritar pelo Jordan, pelo Mike, pelo James, pela banda toda. Me permiti cantar Lie e Take the time até me faltar o ar dos pulmões. Me permiti em nome do meu amor por eles, em nome de todos os shows a que o meu pouco dinheiro me impediu de ir, em nome da noite depressiva que eu passei há dois anos, em nome das minhas camisetas e discos e videos, em nome de Pedro Artur e Thiaguinho, que não puderam estar lá. Me permiti, me permiti, me permiti. Em meu nome e em nome de Deus.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Uso óculos,&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;frequento teatros oníricos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Minhas lentes&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;são prisões de vidro.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Escrever é uma vitória&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;sobre a página.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Somente fanáticos e apaixonados me compreenderão.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ontem, meu Deus, ontem. Ontem eu vi o Dream Theater!&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;***&lt;/div&gt;&lt;p&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 240px; DISPLAY: block; HEIGHT: 320px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5451278803929454242" border="0" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S6bVMKfU1qI/AAAAAAAAAIQ/s3IgoWjaRzw/s320/20-03-10_2240.jpg" /&gt;E isso tem que ser dito.&lt;/p&gt;&lt;p align="right"&gt;From abyss (and happy pra caralho),&lt;/p&gt;&lt;p align="right"&gt;Victoria.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-3922394595428521943?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/3922394595428521943/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/03/night-to-remember.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/3922394595428521943'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/3922394595428521943'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/03/night-to-remember.html' title='...A Night to Remember...'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S6bVMKfU1qI/AAAAAAAAAIQ/s3IgoWjaRzw/s72-c/20-03-10_2240.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-3036213187519498675</id><published>2010-03-05T15:16:00.004-03:00</published><updated>2010-06-04T18:11:14.460-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='microconto'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Across Infinity'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='música'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='confissão'/><title type='text'>On the road again!</title><content type='html'>Por muito tempo eu me perguntei como se deve agir quando algo muito grande acaba. Depois de tantos fins, penso: I supposed to figure this out already. But no! Então, o máximo que me permito é pensar em ter esperança (mesmo que eu não venha a ter de fato). Continue searching for beyond.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Stargazer. Eu me lembro. Antes de pedir demissão, eu escutava Stargazer incansavelmente naquele mp4 que roubaram junto com o carro de meu noivo Pedro Artur. Eu me sentava na cadeira solitária da frente do ônibus (estava sempre livre, parecia reservada pra mim) e colocava os fones no ouvido. E então, boom, aquela melodia berrada na minha mente, me enchendo de uma esperança tão maldita que não podia mesmo ter dado errado. What a pitty it's now gone (não aceito, eu não aceito o eu não disse, eu não vou ouvir, eu não vou virar estátua de sal, can you hear me?)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu queria tanto aquele colete preto sobre a blusa branca, os rasgos nos meus jeans crescendo tanto, tênis surrado carregado pelos cadarços, meus pés na areia e ondas frias, meu violão nas costas, liberdade, música e poesia, fugir daqui, pro Canadá, Triunfo, Tenerife, Panamarimbo, Yokohama, to live forever, take my time and reavaluate.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é importante. Não vou apagar fotos, não vou lavar as mãos, não vou rasgar papéis, queimar as sobras. Eu vou (porque não me ocorre mais nada a fazer, porque não consigo pensar em mais nada, porque não sei se há mais algo além) continuar, procurar e, talvez, cair de novo, sangrar de novo, levantar de novo e aprender a andar, cair, sangrar, me erguer e andar, assim, repetido, muitas vírgulas, tudo de novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então escutem: tudo o que eu quero é:, tudo o que eu sinto é:, tudo o que eu busco é: I can't let this dream just die. I'm gonna sing. This is what I'm supposed to do.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;If one wants to follow me, just call...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-3036213187519498675?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/3036213187519498675/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/03/on-road-again.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/3036213187519498675'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/3036213187519498675'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/03/on-road-again.html' title='On the road again!'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-4056750943646067915</id><published>2010-02-21T00:44:00.000-03:00</published><updated>2010-02-21T01:24:35.911-03:00</updated><title type='text'>O segundo hemisfério</title><content type='html'>&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Ele levanta do banco e cruza o corredor lotado de gente. A mochila nas costas empurrando outras mochilas em outras costas e costas e bolsas e gente que esbarra em outras gentes sentadas em outros bancos. A multidão do corredor abre espaço, ele passa. Com as mãos meio cegas pelo emaranhado de cabeças e troncos e braços estendidos com mãos agarradas nos ferros do ônibus, ele tateia, tateia, tateia, até encontrar a corda presa ao teto. Puxa a corda. Som. Chega à porta, o ponto chegou, abre-se a porta. É a hora. Ele desce.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Todos os dias por aquela hora. Era a hora. Nem tão tarde que já não houvesse sol, nem tão cedo que o sol fosse ainda forte. Todos os dias por aquela hora, logo depois de o expediente terminar (há quanto tempo?, quantos anos?). Ele saltava ali, na porta do parque, e cruzava o portão em busca do mistério.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Antes de sair do escritório, o mesmo ritual (há quantos tempo?, quantos anos? Tinha que ser tudo igual, ele sempre pensava. Ele tinha medo de algo ser diferente. Ele tinha só isso naquela vida pequena: ele só tinha aquela hora). Guardava na mochila o casaco que tinha ficado o dia inteiro no corpo. Ar condicionado forte demais. Com alívio, olhava o relógio e notava que o expediente estava no fim. Mais um dia ganho, um leão morto, um dia morto. Cada dia um a menos pra viver.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(Era injusto que ele tivesse que continuar. Queria estar preso no tempo. Não havia pelo que continuar, se tudo o que ele tinha era feitiço do tempo, enfeitiçado, imortal – eterno e, por isso, impossível.)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Nesse momento, em que ele guardava o casaco, olhava o relógio e notava próximo o fim do expediente, ele também pensava na perda de tempo de todos os dias. Não era vida, era labuta, difícil labuta, obrigação, castigo, &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;tripalium&lt;/i&gt;, não vida o que ele presenciava em sua face e nas faces de seus companheiros de confinamento todos os dias. (Ele pensava assim, desse jeito, como há tantos anos pensava antes de sair do trabalho. Pra que tudo fosse igual, ele pensava exatamente a mesma coisa. E, meu Deus, ele às vezes completava, eu me sinto assim há tantos anos! Que é que me faz ainda resistir?, se perguntava. E sabia responder: tudo o que ele tinha era aquela hora.)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Nesse momento, em que o expediente chegava ao fim e vinha o alívio, ele também pensava (como tinha pensado anos antes, enquanto se preparava pra sair do trabalho, durante aquele primeiro dia) que mais um dia tinha se perdido por entre os dias não vividos de sua vida. Notava a proximidade da morte ao fim de cada expediente e ao fim de cada ano. Como podiam os Natais se sucederem tão rápido, os anos novos se renovarem tão depressa se cada hora se arrastava pesada até o expediente se acabar?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;E então, quando pensava em tudo isso, ele preferia guardar o casaco na mochila, colocá-la nas costas e sentir com alívio o peso da peça de roupa misturado ao do livro que leria na viagem de ônibus (nunca o mesmo daquele primeiro dia, mas isso não importava). O peso nas costas era o sinal de que, ao menos até amanhã, de manhã tão cedo, suas costas estariam livres do peso desse fardo de todos os dias. O expediente do dia cumprido, enfim. E ele pensava então (pra não pensar demais em si mesmo, no tempo de vida perdido naquele lugar frio demais que era o escritório, no tempo que ele queria que parasse pra ele também) em praias que nunca veria de países para os quais jamais viajaria, em instrumentos que nunca aprenderia a tocar, nas aulas de dança de salão que não faria, nos idiomas não falaria, no mestrado que ficara por terminar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Sonhava como se fosse possível agora, mas sabia que não era. E essa certeza, nesse momento (peso nas costas, casaco e livro, expediente findo, corredor quente demais do prédio, caminhar até onde se enfileiravam os funcionários pra baterem o ponto) era o que menos importava. Precisava alimentar a alma com esse engano. Via-se surfar, tocar piano, sapatear, falar grego koiné e até mesmo pós-doutor a dar aulas na universidade. Tudo engodo, fantasia, ilusão. E a mochila pesando nas costas menos do que cada novo dia. (Ele sempre se iludia assim antes de sair do trabalho. Havia muitos anos, repetia o ritual de acreditar nessa mentira. Pra que tudo fosse igual àquele primeiro dia, porque tudo o que ele tinha era aquela hora, sempre igual, sempre igual.)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Até o ponto de ônibus ele andava (vinha vazio o ônibus até ali, ele podia sentar e ler sossegado. Começava a encher uns três pontos depois. A viagem era longa, cansativa e barulhenta. Mas ele chegaria lá, à porta do parque, a tempo de viver novamente aquele mesmo momento, todos os dias, exatamente igual). Os olhos fixos no chão, enganchados nas imperfeições da calçada. Ele andava.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Seus sapatos estavam sujos na ponta, ele nunca limpava. A casa que lhe esperava todas as noites ele também não limpava. Tinha preguiça de lavar suas roupas, marcar consultas, lembrar aniversários, mandar cartões de Natal. Tinha preguiça de arrumar nas prateleiras da estante a pilha de livros amontoados sobre a mesa. Tinha preguiça de preparar comida (pra quem?, pra ele?, não valia a pena!, se ele ainda tivesse alguém. Mas tudo o que ele tinha era feitiço do tempo. Talvez fosse por isso que esperava tanto, todos os dias, por aquela hora...).&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Todos os dias jantava biscoito recheado de chocolate e comia primeiro o recheio, como fazia quando era criança. Teve vergonha disso na adolescência, quando isso era considerado infantil e a opinião dos outros ainda importava, contava e sempre, sempre incomodava, mas agora, que fosse infantil. Ele não tinha mesmo nada a provar (e se tivesse, não teria a quem, porque tudo o que ele tinha era sempre a mesma hora, igual, todos os dias. Sem provas, sem mágoas, sem futuro).&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Às vezes deitava de costas pro colchão da cama, ainda com a roupa do trabalho, suja da poeira das horas, e olhava o teto no escuro. Só isso. Por horas. Pensava: Victoria, Júlia, Talita, Mariana, quem?, eu nunca vou saber? E ia conjeturando, flutuando, repousando, e dormia. Dormia assim muitas vezes. Não queria levantar. Não tinha quase nada pelo que acordar no outro dia.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Mas aí então ele pensava naquela hora, pouco antes de a noite cair sobre o segundo hemisfério.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Aquela hora, essa que está agora quase chegando. Quase.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;E pensando nisso, levantava da cama, sacudia o letargo e ia tomar um banho quente no verão, frio no inverno, e comer biscoitos, ainda no escuro, com a casa toda apagada, como um fantasma, espectro, vampiro, monstro encarcerado, princesa trancafiada sem salvação. E ficava em silêncio, mastigando em silêncio no escuro, tentando imaginar como seria se o dia seguinte e todos os outros seguintes e seguintes ao dia seguinte não tivessem trabalho, tripalium, se fossem compostos só daquela hora. Seria bom. Porque ele, ser do escuro, do silêncio, talvez do mistério (palavra bonita, bonito pensar assim), parecia ter sido feito apenas pra viver aquela hora.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;E então, como faz todos os dias, ele agora se levanta do banco do ônibus, a mochila nas costas empurrando gente no corredor apinhado de gente do ônibus, as mãos caçando lugar em meio a outras mãos, tateando pra achar a corda que dará o sinal. Aquele ponto, é o dele aquele ponto de ônibus que está chegando, bem em frente à entrada do parque. Ele se desculpa mil vezes enquanto empurra e empurra gentes e mais e mais gentes. E finalmente desce. É a hora.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Como todos os dias, ele olha pra frente e não vê nada. Nunca via nada. A entrada do parque estava sempre vazia, embora muita gente cruzasse aquele caminho de pedras (entre as árvores, cotias, gatos, pássaros, um riacho e um lago), indo e vindo dos seus trabalhos, tripaliuns, suas labutas, seus dias perdidos, àquela hora todos os dias. Não era ali que estava o que ele se preparava pra ver.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Pra manter o ritual, ele guarda o livro que viera lendo no ônibus dentro da mochila, como tinha sido na primeira vez (quando ele ainda não tinha sido iniciado no mistério) e caminha com as mãos nos bolsos. As mãos têm que estar nos bolsos. Tenta lembrar de cruzar os portões do parque com o pé esquerdo, aquele que não dá sorte, porque ele não tinha dado azar na primeira vez (não?).&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;E ele olha agora, fingindo desatenção, primeiro pra esquerda. Depois pra direita (não há mais ali o pequeno gato tentando escalar o tronco grosso da árvore pra pegar um pássaro no galho alto, aquela cena inusitada que o levou a se distrair de verdade na primeira vez. Agora é apenas um ritual, é preciso, pra que tudo pareça como foi naquele primeiro dia). Ele finge parar, distraído, pra olhar a cena que nunca mais se repetiu, e fica ali alguns segundos, fitando o tronco grosso da árvore, vazio, sem gato subindo, e o galho alto, sem pássaro em cima. São vinte, vinte e cinco segundos, os mais longos de todos os longos segundos dos seus dias (mais até mesmo que aqueles dez, quinze segundos apreensivos, ansiosos antes de o expediente acabar), em que ele espera acontecer. O coração na boca. Está chegando. É a hora. A hora está chegando.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;E então o primeiro baque. Ele olha pro lado, já sabendo o que vai encontrar. E a vê (há quantos anos? Uns dez, talvez) exatamente da mesma maneira, desequilibrando-se depois de se esbarrarem, deixando caírem os livros no chão de pedra da estrada daquele parque. (Vem comigo pra Grécia, vem ser meu par de dança de salão, vem aprender piano clássico ou aramaico, vem comigo pro meu tempo, ele pensa, e fica comigo aqui. Não te deixo me deixar quando a noite cair, ele pensa. Mas ele tem medo. Tudo tem que ser igual. Exatamente igual àquele primeiro dia.)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Ele finge susto com o esbarrão dela, pede desculpas por estar ali parado no meio do caminho e se abaixa pra ajudá-la a recolher os livros dispersos pelo chão. Ela sorri (aquele sorriso, aquele sorriso impossível de modificar, de transformar em beijo, em abraço, em mordida, em palavra de amor) e diz que tudo bem. E pede desculpas por não o ter visto. Como sempre.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Abaixam-se os dois e vão catando do chão os livros, sempre os mesmos livros, que ela levava nas mãos antes de se encontrarem E que ela deixa cair, todos os dias, na mesma hora, desde mais de dez anos atrás. (ela é jovem, sempre foi, desde o primeiro dia. Deve ter vinte, vinte e um, e dois, quem sabe?, e tem os cabelos pretos, longos, presos no alto da cabeça. É antiquado, e muito bonito. Às vezes ele quer olhar mais, encará-la, sorrir pra ela. Mas sempre lembra, então, antes de sucumbir ao impulso, que tudo tem que ser igual, exatamente igual àquele primeiro dia). E só então se fitam, como numa cena clichê de comédia romântica, abaixando os olhos logo após, pra dissimular o encontro dos olhares. Tão bobo, tão eterno. Todos os dias, exatamente igual:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;–Me desculpa, ela sempre repete ao se levantar, é que eu achei tão engraçado o gato tentando subir no tronco! Coitado! Mesmo que ele consiga, será que não percebe que o passarinho tem asas e não se deixa alcançar?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;E todos os dias ela aponta a árvore vazia. A árvore sempre esteve vazia, em todos os dias que se sucederam àquele primeiro. Às vezes ele tem vontade de dizer que a árvore está vazia, na esperança de, quem sabe?, acordá-la daquele sono repetitivo de eternidade. Mas ele tem um medo tão maior de dissolvê-la no tempo (e se ela sempre houvesse estado ali? E se ela estivesse ali desde antes de antes de antes de o parque e de a árvore, de as cotias e gatos e pássaros estarem ali, quando a estrada de pedra fosse ainda de terra e ele sequer houvesse nascido?) E então ele ri, agora ele ri, como sempre ri, e repete, como em todos os dias, já não mais achando inusitado, engraçado, coincidente, mas triste, mas doloroso (uma labuta difícil manter as mesmas palavras, os mesmos gestos, como se o tempo não tivesse passado naqueles mais de dez anos – mas tinha –, só pra não perder a única razão que ele ainda encontra pra limpar os sapatos, a casa, lavar as roupas, marcar consultas, ligar as luzes, abrir as janelas e sair pra luz – ele, ser da sombra, do mistério), agora ele diz assim:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;–Caramba! Eu parei pra olhar o mesmo!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(O passarinho pode voar a qualquer momento. É por isso que quem se encanta com a beleza dele primeiro pensa em prendê-lo, depois em amá-lo, e só depois em perguntar se ele está bem – só pra constar, porque ele não pode responder. Ele, ele deve ser tão feliz não conhecendo essa arma fria, laço apertado de forca, barbitúrico em grande dose chamada palavra. E se ele pudesse responder, mesmo assim não importaria a resposta. O importante é possuir. Mesmo a um ser infeliz, ele pensa catártico.)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;E então ele olha os livros que tem nas mãos, aqueles que ela deixou cair e ele se abaixou pra pegar, como todos os dias. São sempre os mesmos. Ele já leu, mas diz que não, porque foi assim que ele disse na primeira vez. Ele ainda não tinha lido na primeira vez, mais de dez anos antes. E ela pergunta:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;–E qual você está lendo?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Então, eles vão agora até um banco à beira da estrada de pedra do parque. Sentam. Ela sempre comenta o vestido vermelho bonito da mulher que nunca mais passou (ele ainda lembra o vestido. Não era bonito. Nem na primeira vez ele tinha achado. Mas sempre concorda, todos os dias. Ele gosta de vê-la feliz [todos os dias, há mais de dez anos] porque ele concorda – ninguém, ele sempre pensa, devia concordar com alguém com um gosto assim!). E ele tira da mochila o livro que está lendo. Sempre algum diferente daquele do primeiro dia, mas isso não importa, porque eles sempre conversam as mesmas coisas, alheias ao livro. E ficam ali até anoitecer. E sempre anoitece.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Ela levanta, então, olhando o relógio, diz que está atrasada, que está ficando tarde e ela tem que ir (pra onde, me diz?, ele quer perguntar, mas não pode. Ele tem medo) e ele lhe entrega os livros que tem nas mãos (aqueles que ele só leu por causa dela, pra tentar chegar mais perto dela, pra tentar saber o que ela pensa, o que ela quer, do que ela gosta; aqueles que ele comprou e deixou empilhados sobre a mesa, relembrando a ele, todos os dias, antes de ele sair pro seu trabalho, tripalim, castigo, labuta, obrigação, que ela existe, e que é eterna, ainda que ela ser eterna a torne impossível).&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;E então eles se despedem. Estão se despedindo agora. Como todos os dias, há mais de dez anos. Às vezes ele tem vontade de gritar por ela, pra que volte (quem sabe se não voltaria mesmo?, e se libertaria enfim daquele pesadelo de juventude imortal?), mas ele tem medo. E quer perguntar: Victoria, Júlia, Talita, Mariana, quem?, quem é você?, mas ele tem medo. Tudo sempre foi assim, tudo sempre foi o mesmo. Qualquer mudança pode adiantar o final.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;(M³)&lt;?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-4056750943646067915?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/4056750943646067915/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/02/o-segundo-hemisferio.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/4056750943646067915'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/4056750943646067915'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/02/o-segundo-hemisferio.html' title='O segundo hemisfério'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-6957051359334591808</id><published>2010-02-18T00:52:00.002-02:00</published><updated>2010-06-04T18:10:24.852-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Promessa Vazia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='conto'/><title type='text'>Daqui a pouco</title><content type='html'>&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(Eu tenho sempre os olhos vermelhos, como quem vai chorar. Mas eu nunca choro. Ela sabe disso. Ela também sabe que eu gosto quando ela usa azul e talvez por isso me olhe agora com esse ar pretenso [– Olha pra mim, amor!, eu estou de azul!, sua cor preferida!, não estou bonita de azul, sua cor preferida, que você diz que me cai tão bem?] e que direi eu?, que ela está linda?, que ela está sempre? [e ela está linda, sempre!], que direi eu?, eu, que tenho que dizer alguma coisa agora, já, qualquer coisa, pra quebrar esse silêncio prenunciador da desgraça, catástrofe, tempestade sem bonança depois!, eu, que tenho que quebrar logo esse silêncio antes que essa dor quase insuportável de tão grande se torne insuportável e maior!, eu, que direi eu?, agora que dói tanto!, que direi eu?, agora que eu queria saber chorar, porque talvez parasse de doer tanto!, que direi eu?, que não sei chorar. Eu nunca choro. Ela sabe disso. Eu sei que ela sabe disso.)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(Briga comigo de novo porque você acha que eu olhei a mulher de vermelho que passou, amor. Dou a minha vida pra que você brigue comigo mais muitas vezes. Daqui por diante. Depois de um daqui a pouco em que nada acabe.)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;–Daqui a pouco vai acabar, ela me diz. Lembra desse filme?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(Claro, eu diria. Mas ela não deixa [ela nunca me deixa responder. Ela nunca faz uma pergunta esperando que eu responda. Ela tem esse hábito. E agora eu queria tanto que ela me fizesse de novo todas as perguntas que ela não me deixou responder, esse hábito que me irritou desde o começo. Agora eu queria tanto de volta tudo que sempre me irritou nela desde o começo. Queria tanto tudo de novo desde o começo.] e continua:)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;–Vimos no cinema, lembra?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(Se tranca no quarto de novo, amor, e chora alto do outro lado da porta pra me fazer perceber que eu te magoei. Dou a minha vida pra que você se tranque chorando no quarto mais muitas vezes. Daqui por diante. Depois de um daqui a pouco em que nada acabe.)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;–Claro, digo então (e quero completar dizendo: –Claro, amor, eu me lembro de cada momento que passamos juntos! [mas sinto a garganta apertar quando penso &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;passamos&lt;/i&gt;. Também pode ser presente, mas é passado.], então penso em completar dizendo apenas: – Claro, amor! [mas não consigo. Nó na garganta. Olho pra ela na cama e sei que dizer amor me mataria, e tento, por um momento muito rápido, lembrar quem era que perguntava por que rimar amor com dor. O meu rima. Meu, meu, você é o meu amor, eu penso, e isso dói. Eu a amo tanto. Dói tanto], e por fim, acabo ficando quieto, apenas olhando, tão branca a minha querida sobre a cama forrada de azul, ela também vestida de azul. Eu queria saber chorar, até expurgar esse raiva que sinto do destino, esse ódio que sinto do talento que a vida tem de ser cruel. Eu queria saber chorar até que tudo isso passasse. Mas eu não sei chorar. E sei que não vai passar. Porque)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;–Daqui a pouco vai acabar... (Ela me olha. Olhos castanhos comuns no fundo dos meus azuis. Ela queria ter os meus olhos azuis, achava que isso era especial pra mim, que gosto tanto de azul. E eu tentava dizer: –Você é mais que especial, amor [amor, essa palavra que hoje me dói, e tanto, porque eu a amo, eu a amo tanto]. Você é mais que especial pra mim. Você é a minha vida [a minha vida, você é a minha vida, e daqui a pouco vai acabar], mas ela não acreditava. Não deve acreditar ainda agora. E sorri fraca enquanto me diz, naquele tom choroso de sempre, olhos fundo dentro dos meus:) Segura a minha mão?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(E ela me estende a mão. Ah, eu quero correr, eu quero fugir daqui, pro Canadá, pra Estocolmo, pra Pequim, Sidnei, Bruxelas, Dubai, pros meus tempos de jovem desregrado, quando eu ainda não a conhecia, quando eu não queria amar, só queria mais um nome pra lista daquelas pra quem eu nunca mais ligaria, fama pra exibir pros amigos, mais noites de sexo sem sentimento, de juras sem verdade. Ah, eu quero correr, correr até que os meus membros doam e a dor do corpo seja tanta que eu me esqueça de qualquer outra dor [dessa dor tão dilacerante de saber que vai acabar, daqui a pouco vai acabar] e me esqueça dela e de mim e nunca mais volte a lembrar de coisa alguma. Ah, eu quero correr até chegar àquele ponto no fim do mundo que me dê a certeza de que é tudo apenas um sonho que daqui a pouco, cedo ou tarde, vai acabar. Ah, eu quero fugir desse quarto fechado de azulejos azuis, desse quadrado azul em que ela apenas espera que tudo acabe. Fixo meu olhar no dela pra não lhe transmitir dor [vai ser mais difícil se ela souber que você está sofrendo, me disseram, mas ela já sabe. Ela só gosta de se enganar, sempre gostou] e seguro sua mão [tão magra, tão branca, tão fraca a mão da minha querida, e a minha querida também], aperto sua mão entre as minhas e tento não pensar que aquelas mãos logo não poderão mais estar entre as minhas, e tento não pensar em como e onde elas estarão depois de não poderem mais estar entre as minhas.)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(Desliga o telefone na minha cara de novo porque eu esqueci seu aniversário, amor. Dou a minha vida pra que você desligue o telefone na minha cara outras vezes. Daqui por diante. Depois de um daqui a pouco em que nada acabe.)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(Ela olha pros lados da janela. Vira a cabeça lentamente [a força já foi embora, eu sei] e olha fixamente a cortina azul fechada. Ruídos de crianças lá em baixo. Crianças são sempre sonoras. Ela não gosta de crianças. Nem eu. São sonoras demais. Ela sempre ri da ironia de ensinar música pra crianças [monstros, demônios!, ela ri, ela ri sonoramente, e me conta as artes dos alunos com carinho demais.]. Ruídos de crianças lá embaixo, lá fora, longe do quadrado azul, azulejos, lençóis, cortinas azuis, a roupa dela também azul, azuis os meus olhos sempre vermelhos de quem nunca chora. E nós dois aqui dentro, quatro paredes e um teto, essa cama e essa pouca luz [das lâmpadas ou dos fatos?, ou do destino, essa grande piada macabra?]. Eu me irrito fácil com o ruído das crianças. Mas hoje..., ah, hoje. Hoje tudo isso só dói. Hoje tudo, tudo apenas dói.)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(Penso que ela pensa em me dizer: –Essas crianças brincando lá fora estão me doendo tanto. Faz parar, amor. Faz parar, por favor. Penso que ela pensa em me dizer: –E os casais se beijando nos cinemas e os bebês sugando leite das mães e os velhinhos de mãos dadas nas praias e os cantores nunca ouvidos nos bares e as nuvens negras de chuva, os raios claros de lua, as flores brancas nos campos e as buzinas dos carros, tudo correndo, passando, nascendo, crescendo e murchando, tudo seguindo o seu curso, o mundo na sua rota, a vida na sua roda, o tempo na sua linha, tudo isso me dói tanto. Faz parar, amor. Faz parar, por favor [Mas quem quer dizer isso sou eu.]. E ela só se volta pra mim e ela só me diz que:)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;–Daqui a pouco vai acabar. Segura a minha mão?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(Vasculha de novo os bolsos do meu casaco procurando algum bilhete de outra mulher, amor. Dou a minha vida pra você desconfiar de mim mais muitas vezes. Daqui por diante. Depois de um daqui a pouco em que nada acabe.)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(Eu tenho sempre os olhos vermelhos, como quem vai chorar. Mas eu nunca choro. Ela sabe disso. Eu sei que ela sabe disso.)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(Os olhos. Ela fechou os olhos. Virou pro lado, mordeu o lábio, depois me olhou. No fundo dos meus olhos azuis, e sempre vermelhos, como quem vai chorar. Mas eu nunca choro. E ela sorri agora [e ela sorrir me faz querer chorar. Mas eu nunca choro.] e me diz assim:)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;–Vou te ensinar a ler partitura. Você aprende? (Ela tenta segurar mais forte a minha mão. Penso que ela pensa em me dizer: –Não solta, não solta nunca mais a minha mão.)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;–Eu aprendo, digo (Mas não vai dar tempo, sei. Mas não vou dizer que não vai dar tempo. Não, não vou dizer que sei que não vai dar tempo. Não vou dizer nada. Porque sei que ela sabe [que ela sabe e que sabe que eu sei] dos fatos, do destino [essa piada macabra]. Sabemos, nós dois sabemos. Que daqui a pouco vai acabar.)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;–E você me ensina a andar de bicicleta? Juro que dessa vez não vou cair!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(Cai de novo da bicicleta, amor. Dou a minha vida pra te ver caída no asfalto de novo, machucada, sangrando e chorando mais muitas vezes. Daqui por diante. Depois de um daqui a pouco em que nada acabe.)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(Eu digo que sim. Eu digo que ensino sim. Ela sabe que é mentira. Eu sei que ela sabe que é mentira. Nós dois sabemos que é tudo apenas uma grande mentira [cada frase, cada sorriso, cada plano, cada minuto de normalidade fingida, de esperança falsa, antes de tudo acabar]. E tento me lembrar com mais força, tento me fixar nessa frase: eu nunca choro. E tento sorrir. Mas não adianta. A dor, a dor é tanta. Tão maior agora que ela diz assim, com essa palavra tão funda, tão triste agora, com aquele jeito choroso tão mais e mais triste agora:)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;–Amor?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(Eu nunca choro. Eu nunca choro!)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;–Que foi?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(Mas eu tenho sempre os olhos vermelhos. E agora tão mais e cada vez mais vermelhos.)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;–Podemos ter um cachorro?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(Ah, amor, grita comigo de novo porque a minha música alta te impede de ler. Dou a vida pra te ouvir gritar comigo mais muitas vezes. Daqui por diante. Depois de um daqui a pouco em que nada acabe.)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;–Claro! (ah, não vai dar tempo, amor! Não vai dar tempo. Daqui a pouco vai acabar.) Mas de que cor?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;–Preto... Um dog alemão todo preto! Bem grande, pra botar medo na sua irmã!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(Ela ri. E eu nunca choro. Eu nunca choro.)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(Silêncio lá fora. Por dentro silêncio. Vai acabar. Daqui a pouco. Penso que ela pensa em me dizer: só quero ficar aqui, quatro paredes e um teto e essa cama e essa pouca luz e a minha mão entre as suas duas mãos, e conjeturar e imaginar e planejar essa vida que não há, esse tempo futuro que não vai chegar, porque nós sabemos o que nos espera lá fora, nós sabemos os próximos passos do destino, essa piada macabra, nós sabemos que eu não posso só ficar aqui, quatro paredes e um teto, conjeturando, imaginando e planejando uma vida que possa acontecer, com o meu piano e a sua bicicleta, as suas caixas de som potentes demais e os meus livros demais e um dog alemão pra assustar sua irmã que não gosta de cães.)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(Mas, em vez disso, ela só me diz:)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;–Na parede da nossa biblioteca (vamos ter uma, não vamos?) eu vou colocar aquela foto que nós tiramos no show do Pearl Jam. (Ela respira fundo, ela dói pra respirar fundo, e me dói fundo vê-la doer pra respirar.) Aquela, aquela moldura marrom que eu não gostei. Pode colocar no nosso quebra-cabeça. Eu deixo (e fala assim baixo, assim difícil, desse jeito dorido, lento e duro que me dói, que me dói tanto, talvez mais em mim que nela). Nós temos que terminar de montar... Vai ficar bonito.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(Usa aquele vestido xadrez roxo e amarelo pra ir ao teatro comigo de novo, amor. Dou a minha vida pra sentir vergonha das suas roupas mais muitas vezes. Daqui por diante. Depois de um daqui a pouco em que nada acabe.)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(É mentira, amor. É mentira isso que eu vou dizer. Mas eu preciso. Você precisa. Você espera de mim que eu diga algo como o que eu vou dizer agora. E então eu digo que:)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;–Vai ficar bonito sim. Vai ficar bonito naquela parede roxa que você quer tanto.Vou comprar tinta pra pintarmos juntos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;–Você vai deixar? (Você quase chora. Parece ter se esquecido de que é tudo apenas ilusão. Uma ilusão mórbida, uma tortura quase vital pra que se suporte esse tempo arrastado, que eu não sei se quero que acabe logo ou que passe arrastado eternamente e infinito, antes de tudo acabar.)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;–Claro que eu deixo. Vai ficar linda! (Linda, amor! Você é tão linda. Fica comigo, amor. Não vai embora. Envelhece ao meu lado, por tudo o que há de mais sagrado, por mim, por mim, por Deus. Ah, eu sei, eu sei. Pedir é inútil. De alguma forma, ou de todas, existir é inútil. Resistir é inútil. Agora que tudo vai acabar, agora é tudo tão inútil.) Vamos pendurar um dos nossos pôsteres de filme na sua parede roxa. Qual você quer? (Brilho Eterno, ela responde sem hesitar. Dói tanto, tanto. Mas eu nunca choro. E daqui a pouco vai acabar.) E na outra parede, vamos pôr seu piano...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;–Eu deixo (e ela respira fundo, com dor, e continua, parece, com ainda mais dor) você pôr do lado a sua mesa de totó.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(Rimos os dois. Mas esse riso é mentira. Esses planos são todos apenas uma grande mentira, ilusão mórbida, tortura, tortura. Tudo isso é uma grande tortura, dilacerante, mórbida e vital.)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;–Também podemos ter aqueles porta-copos com emblema de banda, ela diz.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(Fica triste comigo de novo, amor, irritada, mal-humorada, azeda, porque eu não te deixei comprar os porta-copos caros demais que você queria. Dou a minha vida pra que você gaste dinheiro em porta-copos caros mais muitas vezes. Daqui por diante. Depois de um daqui a pouco em que nada acabe.)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;–Te dou AC/DC, ela me olha sorrindo (amor, amor, é tudo mentira. Eu não queria que fosse mentira. Me dói ser mentira. Mas eu nunca choro. Eu nunca choro.), Kiss, Dream Theater, Offspring, Pearl Jam.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;–E eu te compro um do Queen. E te dou os seus filmes preferidos pra completar a sua coleção. Vamos escutar nossas músicas nas minhas caixas potentes demais (ela me interrompe repentina, rindo, como nunca riu ao falar disso, e constata que eu devo ser surdo, porque gosto de ter caixas de som potentes demais) e todos os vizinhos vão nos ouvir cantar. E saber que somos muito felizes (ah, eu quero chorar. Eu nunca choro. Fica comigo, amor! E nós vamos ser muito felizes!)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;–Temos que ter uma estante grande pra guardar nossos discos, nossos livros, nossos filmes...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;–Vamos ter uma estante muito grande, eu prometo...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(Seguro mais forte a mão dela, magra, branca, fraca, dedos longos de pianista. Meu amor, meu amor, canta pra mim de novo na sua voz desafinada que me irritava de novo. Dou a minha vida pra que você me irrite mais muitas vezes. Daqui por diante. Depois de um daqui a pouco em que nada acabe.)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(Mas daqui a pouco, será daqui a pouco, tudo vai acabar. Ela sabe disso. Eu sei que ela sabe disso. E sabe que eu nunca choro. E deve saber que eu quero chorar.)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;–Amor?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;–Que foi? (seguro sua mão entre as minhas. Fica comigo, vive comigo, envelhece ao meu lado, não vai, não vai embora, nem daqui a pouco nem nunca. Não é assim que tem que ser, não é a ordem natural. Você é tão nova, tão nova ainda. Fica comigo, me deixa ir primeiro. Eu deveria ir primeiro. Dou a minha vida pra que eu posso ir primeiro, pra que eu não precise ficar aqui sem você.)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;–Você já pagou a casa?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;–Ontem, amor... Paguei ontem (e penso: ontem, enquanto os planos ainda eram verdade, enquanto não haveria paredes roxas nem porta-copos nem cachorro nem caixas potentes nem mesa de totó, ontem, enquanto eu me envergonhava das suas roupas e me irritava com a sua voz e você desconfiava de mim e procurava bilhetes nos meus bolsos, ontem, ontem, eu paguei a casa ontem, antes que o destino, num tiro certeiro, nos dissesse que daqui a pouco, daqui a pouco tudo vai acabar, foi ontem, amor, que eu paguei a casa pra onde irei sozinho depois de perder você). Podemos ir pra lá amanhã de manhã.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(A primeira. Dos olhos. Salgada. Fria. Rola pelo rosto dela. Ela sabe que é tudo mentira. Ela também deve ter raiva [da vida, do mundo, de Deus, de todas as pessoas que viverão pra ver o dia de amanhã chegar como apenas mais um dia, esse que pra ela seria uma benção, uma dádiva, um milagre], ela também deve ter medo, tristeza, talvez dor, quem sabe dor. Mas prefere continuar no jogo, continuar, continuar. E eu começo a pedir: por favor!, que acabe logo ou nunca. Que o desfecho venha, bom ou mal. Porque eu nunca choro, eu nunca choro. E eu queria não querer chorar.)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;–As paredes da casa são grandes, ela lembra. (Abre os olhos. Abre os olhos por favor.)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;–São, são grandes. E vamos ter prateleiras até o teto!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(Ela tenta rir, mas quase não consegue. E fala quase sem conseguir:)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;–Nossa casa vai ter mais estantes que móveis!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;–E vai ter o seu piano... E o nosso dog alemão.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(Não, não solta, não solta a minha mão! Por que, por que você está soltando a minha mão?)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;–Amor?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;–Que foi? (Segura firme, segura firme. Eu não te deixo ir, eu prometo. Segura firme, amor. Fica comigo. Eu não te deixo cair da bicicleta, eu não te deixo mergulhar no abismo. Segura, segura a minha mão. Eu não vou te soltar, eu prometo. Vem comigo!)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;–Eu queria ficar de novo entediada no sofá da sua casa enquanto você joga videogame...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(Não faz isso comigo. Eu nunca choro. Você sabe que eu nunca choro.)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;–Eu caí da árvore e quebrei a perna... (e dá um suspiro duro, fundo, doloroso nela e em mim) e me vaiaram no karaokê... Eu queria que me vaiassem agora, de novo, muitas vezes.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(Abre os olhos! Não solta a minha mão! Não faz assim, fala comigo, fica comigo, não me deixa aqui sozinho, não me deixa ir sozinho praquela casa de paredes grandes, de cômodos grandes, vazios e escuros que eu comprei pra nós.)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(Ela abre os olhos agora. Daqui a pouco tudo vai acabar. Tudo está acabando. Fica aqui, fica comigo, não vai embora. E ela me olha fundo com os olhos dela [castanhos, comuns, que queriam ser os meus azuis]. E então me diz:)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;–Você tem sempre os olhos vermelhos, como quem vai chorar...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;(E mais muitas vezes, daqui por diante, depois do agora, em que tudo está acabado, ... eu vou.)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="right"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;font-size:85%;"&gt;&lt;?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;em&gt;(M³)&lt;/em&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-6957051359334591808?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/6957051359334591808/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/02/daqui-pouco.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/6957051359334591808'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/6957051359334591808'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/02/daqui-pouco.html' title='Daqui a pouco'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-7127796108606541018</id><published>2010-02-14T21:44:00.004-02:00</published><updated>2010-06-04T18:09:18.765-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='microconto'/><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S3iLKlIEWkI/AAAAAAAAAII/w5ysbn_1zlc/s1600-h/tios-saudades.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 250px; DISPLAY: block; HEIGHT: 320px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5438249563930778178" border="0" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S3iLKlIEWkI/AAAAAAAAAII/w5ysbn_1zlc/s320/tios-saudades.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Tios, hoje é domingo de carnaval. Eu queria que ninguém pudesse ler esse post (provavelmente ninguém está lendo, nunca lê, ou quase. Nevermind), mas eu não tenho um diário, há muitos anos eu não tenho um diário, então é pra esse lugar que venho quando quero desabafar.&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Tios, amanhã será segunda-feira. Vocês não verão. Não verão o próximo outono, o próximo inverno e o próximo verão. Na verdade, eu queria acreditar que vocês podem, agora, ver mais do que eu posso. Mas eu não acredito. Nem acredito que algo possa doer mais do que não acreditar naquilo que se quer.&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Tios, eu ainda não acredito. Parece que bastará me achegar à sua porta amanhã e eu poderei vê-los (cantando, como gostavam, pela chegada do carnaval). Eu ainda não sei como deve ser, daqui por diante, daqui pra sempre. Eu queria vocês de volta, tios, mas não posso, eu não posso ter.&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Tios, amanhã eu tenho que revisar um livro, talvez eu saia com amigos, assista mais uma vez a um dvd do Dream Theater, do Queen, ao Cinema Paradiso, ao Fantasma da Opera. Tios, tem tanta coisa em mim que vocês nunca conheceram, que vocês nunca saberão (talvez eu mesma não soubesse, e por isso, who knows?, eu não os tenha feito saber). Ah, tios, eu queria tanto poder fazê-los saber.&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Que eu os amo, mais do que vocês, tios, mais do que eu mesma poderia imaginar eu queria os ter feito saber. E queria tê-los de volta, mas eu não posso, eu não posso mais. Eu queria tê-los aqui, agora que sou grande, mulher e independente, bem sucedida e o cacete, pra dividir com vocês o que eu não pude na minha infância mal passada, reprimida e obscura. Nevermind. Eu queria te acompanhar numa Brahma, tio. E cantar, tia, contigo, bem alto e desafinado uma música qualquer num dia de festa. Mas eu não posso, não posso, não posso mais.&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Tio, ah, meu tio, já faz tantos anos. E não sei ainda como deve ser. Tia, ah, minha tia, faz tão pouco tempo - algum dia saberei como deve ser? Meus tios, eu queria estar na sua casa agora, vendo a novela (vocês gostavam das novelas), como nos churrascos de família da minha infância. Eu queria poder escrever versos toscos no tampo de vidro da sua mesa barata (ou me parecia assim), pedir: tia, corta o frango que eu não sei usar faca, mamãe diz que eu não posso usar faca ainda porque sou muito pequena ainda, então não sei; pedir: tio, eu tenho medo, me ajuda a passar entre as folhas que eu não gosto de planta, que espeta, parece mau. Eu queria não lembrar de catar doce de São Cosme e Damião nas ruas de Vicente de Carvalho (nem sei mais como chegar lá) ou ficar conjeturando infantil e inocentemente quem era aquela Maria (eu inventava uma história bonita praquela Maria, na minha cabeça de criança, com príncipes, fadas, bruxas e dragões - que ainda eram maus pra mim) da placa da fachada, que dizia Lar de Maria (algum menino desocupado parou lá de madrugada pra gritar: Maria, ô, Maria - eu me lembro. Eu me lembro, tia, da sua voz arrastada e cheia de vogais, sempre triste, mesmo feliz, me dizer isso na infância).&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Tios, eu não queria que vocês não vissem o desfile da Portela hoje à noite. Eu não queria não poder contar a vocês como será o show do Dream Theater que eu vou ver. Eu não queria que vocês nunca tivessem conhecido o meu noivo. Eu não queria que vocês tivessem ido antes de mim (a ordem natural das coisas, me diz Pedro Artur, mas é que ela dói mais do que eu posso suportar), que não me vissem formada, mestranda, um livro publicado, tanto por ser, tanto por dividir. Eu queria que eu pudesse dividir tudo o que eu tenho pra ser, pra dividir.&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Eu não sei como dizer: descanse em paz. Talvez a minha avó também esteja aí, com vocês (eu me lembro tão pouco dela) a guiá-los, who knows, pela paz da eternidade. Eu não acredito em paz, tios, nem em eternidade.&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Eu só peço, tios, fiquem bem (se existe bem), fiquem em paz (se existe paz) e, se existir eternidade, se existir (eu não sei, eu não acredito), esperem, tios, por favor, esperem por mim. Quando chegar a hora, estejam comigo (talvez seja daqui a muito, a muito tempo, ou amanhã, quem saberá?). Esperem, tios, esperem, por favor, esperem por mim.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-7127796108606541018?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/7127796108606541018/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/02/tios-hoje-e-domingo-de-carnaval.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/7127796108606541018'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/7127796108606541018'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/02/tios-hoje-e-domingo-de-carnaval.html' title=''/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S3iLKlIEWkI/AAAAAAAAAII/w5ysbn_1zlc/s72-c/tios-saudades.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-6322924205084883491</id><published>2010-02-09T22:05:00.001-02:00</published><updated>2010-06-04T18:08:13.104-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Promessa Vazia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='conto'/><title type='text'></title><content type='html'>&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="right"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;Para Marlene Varella, minha tia querida&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Minha mãe me diz durante o jantar: a vida se torna (não sei se vou dizer do jeito certo) tão banal. Duas tampas de cimento e um número (nem um nome, meu Deus, uma foto), só um número por fora.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Acabo concordando. E continuo comendo a janta com meu jeito meio operário de segurar o garfo (duas tampas de cimento e um número fora daquela que um dia cantou alto desafinado no microfone nas tardes de churrasco de aniversários da família).&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Meu dia está indo, nem bem nem mal, apenas uma continuação do de ontem. Tão natural que seja assim o hoje apenas um seguimento de ontem. Tão natural que não imagino que possa não haver mais hoje pra seguir um último ontem. Tento não ser clichê pra pensar: a vida continua. Mas não há outra verdade a não ser: a vida continua. Tão natural que seja assim, a vida seguindo, o curso dos ontens rumando pra outros amanhãs. Tão natural que seja tudo apenas assim: vento, chuva, sol, dia, tarde, noite.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Eu queria ter uma prece pra entoar agora, musical, alta, poderosa, pra guiar aquela que cantava alto, desafinado, nos microfones da família. Olho não sei bem pra onde e tento dizer: tchau, tia, vai, tia, fica bem, tia. Eu tento esquecer que não acredito em vidas passadas, futuras, presentes, eternas. É mais fácil. Como era fácil praquelas mulheres tão naturais conversando sobre coisas tão naturais, banais, normais, sentadas nas cadeiras que a rodeavam na sala do caixão. Aquelas que quebraram com seu cotidiano de fraldas sujas e comidas prontas e roupas passadas e louças lavadas e chãos varridos a magia do meu momento de despedida.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Eu nunca tinha visto uma pessoa morta tão perto, que tinha estado sempre tão perto. Tinha tanto tempo que eu não a via. Eu nem conseguia me lembrar da última vez quando minha mãe me disse, lavando a louça, hoje de manhã: minha filha, nós estamos de luto... (e fez aquela pausa longa característica de nós duas e então, depois de um suspense terrível, me disse que ela se tinha ido).&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Eu olhei bem fundo praquele rosto branco, manchas marrons, um nariz agudo com uma verruga em cima. A boca entreaberta, uma última palavra não-dita (um silêncio alto, desafinado). Dói, ainda dói. Ainda parece que vou acordar amanhã do pesadelo de uma vida com a minha mãe me sacudindo no apartamento da minha infância, rindo pra mim, e me dizendo: dorminhoca, vai se arrumar que a gente está atrasada! E eu, com alívio, vou pegar o 940, Madureira-Vicente (pra mim era só esse o caminho), e vou então pra casa dela, com cheiro de café e cigarro, como devia ser. Saudade do cheio de café e cigarro. Daquela voz arrastada, alta, desafinada e cheia de vogais.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Tentei olhar mais uma vez praquele rosto branco, manchas marrons, um nariz agudo com uma verruga em cima na hora da oração, aquela que eu já não sei de cor, eu sou tão descrente, mas tinha tanta gente entre mim e ela que eu só via a testa, branca, manchas marrons, ser beijada pelo filho dela, último beijo, antes de a tampa se fechar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Então eu repeti em silêncio: tchau, tia, vai, tia, fica bem, tia. E segui o cortejo com a minha mãe ao meu lado, me segurando pela mão como fazia a me guiar no caminho do ônibus, 940, Madureira-Vicente, que me levava pra casa da tia, tchau, tia, com cheiro de cigarro e café, pão francês quente que acabou de sair, bola rosada de borracha, tartaruga e passarinho. Minha mãe me falava do quanto aquela tia, tchau, tia, gostava do carnaval. É mês de carnaval. Dói, ainda dói. E em volta todos falam naturalidades, banalidades, normalidades. A vida, enfim, continua, com essa frase clichê e o nenhum valor que eu sempre soube que ela tem. A vida é uma cova se cavando, nossas mãos tacando pra trás as pás da terra que vai nos cobrir. É a lei, eu acho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Uma folha caída de árvore me bateu forte na cara, vento forte. E eu não sei se folha caída é a vida ou a morte me dando um tabefe a dizer: me veja.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Tchau, tia, vai, tia, fica bem, tia. Espera por mim.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; TEXT-INDENT: 36pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;(M³)&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-6322924205084883491?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/6322924205084883491/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/02/para-marlene-varella-minha-tia-querida.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/6322924205084883491'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/6322924205084883491'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/02/para-marlene-varella-minha-tia-querida.html' title=''/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-5870335786277240840</id><published>2010-01-25T20:37:00.001-02:00</published><updated>2010-06-04T18:07:25.090-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Promessa Vazia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='conto'/><title type='text'>In media res</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Calma, fala mais devagar. O caminhão ainda está passando (rolo compressor, lento) sobre a minha cabeça de pessoa solitária. Você gosta (só pode gostar), você adora me fazer surpresas. E, devo dizer, a cada dia me surpreende mais. Mas (consolo dorido) deve ser porque você me adora, deve ser por isso que me conta assim as suas surpresas. Você gosta (só pode gostar) de me mostrar a sua alegria, gosta (só pode gostar) de mim. Você, você é a minha melhor amiga.&lt;br /&gt;Fala mais baixo, por favor (você fala tão alto quando fica empolgada assim, feliz assim, cheia de novidades a me contar assim). Estou ouvindo cada palavra (como uma facada funda. Eu até tentei, me desconcentrar eu tentei, pensar em outra coisa, no livro que estou lendo, nas coisas boas da minha vida, mas não tem nenhuma. Eu até tentei ter um motivo pra resistir ao dia de amanhã), mas essa avalanche de alegria, de boas notícias, de acontecimentos maravilhosamente especiais na sua vida me comprime (and the pression keeps on burning my soul – lembro agora o quanto gostamos sempre tanto dessa música, o quanto gostei sempre tanto de estar com você pra ouvir essa música, o quanto gostei sempre tanto de você, com ou sem música).&lt;br /&gt;Só por um minuto, eu te peço, para de falar. Só por um minuto, eu te peço, me deixa te observar num silêncio solene, mágico e ficar te olhando (a você, que é tão solene, mágica) enquanto o tempo (rolo compressor, lento, implacável e contínuo) te eterniza em mim, na minha cabeça de pessoa solitária, na minha mente destruída com essa sua alegria (rolo compressor, lento, fatal). Sua felicidade nunca me doeu tanto. Nunca te amei tanto (cada dia mais). E te amar (cada dia mais) nunca me doeu tanto.&lt;br /&gt;Agora sim, eu me repito internamente, em silêncio, solene, agora sim (esse dia ia ter mesmo que chegar, eu sempre soube), agora sim acabou.&lt;br /&gt;Sempre me pergunto (sem resposta) como foi que isso começou. Talvez por ser sem resposta eu me pergunte. Quando foi que isso começou, eu me pergunto (nunca como ou quando vai acabar. Não vai acabar). Não pode ser, não pode ser assim, eu me dizia. Mas já era tarde. Minha linda, tão solene, mágica, e tão linda, eu não queria. Foram tantas as noites insones, tantas as crises de consciência, tantas as tentativas frustradas de impedir que isso começasse. Mas era tarde. Pra te esquecer já era tarde. Pra evitar a maldição, o veneno, a culpa já era tarde, pra tentar recuperar a paz que eu não sabia que um dia tive já era tarde. Eu nunca mais estaria em paz (não pode ser, não pode ser assim, eu me dizia. Mas já era tarde). Pra tirar você de mim era tarde. Desespero, desespero. Concluí em desespero: eu amava a minha melhor amiga (and I still do). Não podia ser. Mas era. Desespero. Eu não queria (minha linda, eu juro), mas já era tarde.&lt;br /&gt;Você é a minha melhor amiga.&lt;br /&gt;My best, you’re my best. Tento lembrar aquela música do Queen (amigos serão amigos até o fim, or something like that), mas, que dor!, não consigo. Talvez me ajudasse a desatar esse nó da garganta, a aliviar o peso desse rolo compressor (lento) sobre a minha cabeça de pessoa solitária. Você, a minha melhor amiga, está, afinal, tão feliz. Você, que é a minha melhor amiga, e que eu amo tanto, muito, cada dia mais, está, afinal, tão feliz. Isso não devia me doer. Infame. Amar é tão infame.&lt;br /&gt;Não vou te deixar saber (acho que você gosta tanto de mim porque sei guardar os seus segredos. Ah, minha linda, os meus eu também sei) tudo o que eu fiz pra que você fosse só minha (eu sei que eu te bastaria, mas eu não te culpo. Eu sempre do seu lado, sempre de lado. Eu não te culpo. Eu não me culpo também). Não, eu não vou te deixar saber que eu te separei do teu noivinho marombado babaca (ele não te merecia. Tanto músculo pra tão pouco cérebro, minha linda. Você merece alguém gentil, uma pessoa culta, um amor que te dê amor, not only status). Eu sei que você gostava de andar com ele do lado, mostrando a sua caça (olhem pra mim, todas vocês, women of the world, vejam o pedaço de mal caminho que eu consegui pra mim), mas eu também sei que era só até ele abrir a boca (você mesma me contou isso, aqui em off, can you remember?). Alguém como você, tão culta, viajada, tão sensível, tão talentosa (ah, canta pra mim alguma coisa agora em vez de gritar as suas novidades alegres que me matam. Canta que é isso mesmo o melhor que você pode fazer por mim agora. Ou cala a boca, porque te ver assim too happy dói demais), alguém como você não poderia ficar com aquele homem, too stupid, uma porta! E eu nunca vou te deixar saber tudo o que eu fiz (e foi muito) pra te manter longe de todos(as) que se aproximavam de você com segundas ou sextas-à-noite-um-cineminha intenções. Não, minha linda, não te mereciam. O teu noivinho marombado babaca, o que veio depois dele, e depois do depois do que veio depois dele, eles não te mereciam (eu – riso irônico –, eu sempre lá, do lado, de lado, te vendo olhar pra todos(as) e pra mim não. Que dor! Mas não pode ser, não pode ser assim, eu me dizia. Porque você, minha linda, você é a minha melhor amiga).&lt;br /&gt;Você sempre teve muito mau gosto pra homens, anyway, minha linda! É incrível como nunca soube escolher bem (até agora. Que dor!, se eu ao menos pudesse ainda fazer alguma coisa, como antes, como sempre. Mas já é tarde. Pra tentar te roubar já é tarde!, sempre, sempre foi tarde. Você é a minha melhor amiga). Sempre foi tão bom te ver chorar de desgosto quando algum deles te deixava. Tão melhor do que estar aqui, à essa mesa cheia nesse restaurante caro (ah, a minha linda, sempre ligada em riqueza – olhem pra mim, todas vocês, women of the world, olhem só o que eu consegui pra mim! –, tão boba a minha linda) enquanto você ri, me conta da sua felicidade (que dor!, rolo compressor, lento, fatal, implacável) e acaba comigo (infame, amar é tão infame!).&lt;br /&gt;Eu sinto falta de quando você era só minha. Do tempo da escola, antes de tudo, antes de eu perder a minha paz, antes de eu descobrir (ou só admitir, who knows?) o meu amor (por você, minha linda, a minha melhor amiga), antes de todos eles que passaram pela sua vida nesses anos da nossa amizade, antes do noivinho marombado babaca e do dia de hoje (que, eu sabia, ia mesmo ter que chegar, o fim, the end, aux revoir, ma cherrie) à essa mesa cheia nesse restaurante caro, com a sua voz estridente na minha cabeça de pessoa solitária e essa torrente alegre que te sai da boca pra me destruir (damn you! Shut up!, eu quero dizer. Mas eu te amo demais). Naquele tempo, só líamos, ouvíamos música, criávamos o nosso mundo (tardes minhas na sua casa, tardes suas na minha casa, Ah!, how I miss those days) e era tão fácil. Viver era tão fácil. Te ter era tão fácil.&lt;br /&gt;Eu ainda não entendia o coração apertado sempre que eu te encontrava, a ansiedade sempre que você ligava eu não entendia, a dor profunda (facas fundas na minha cabeça de pessoa solitária, no meu coração de quem não sabia que amar doía tanto – no one ever told me that love would hurt so much, and pain is so close to pleasure) quando eu te via com alguém (aqueles de quem eu te separei, porque não te mereciam. Aqueles de quem eu te afastei sem ainda admitir que, no meu grande amor desesperado, eu acreditava que só eu poderia te merecer).&lt;br /&gt;Sim, você não vai saber (guardo segredos muito bem, minha linda, you know that) que eu te afastei de todos. E então era você no meu ombro: quero um namorado, vou morrer sozinha, ninguém gosta de mim! Tão boba você, minha linda, tão cega. Ali, te afagando (eu estava tão perto, com o meu grande amor desesperado, enlouquecido, ainda desconhecido e depois ainda maior e mais desesperado e mais enlouquecido porque descoberto), ali, tudo o que você queria estava ali (eu não te culpo por não ter visto, por ainda não ver, eu também não queria ter visto. Você, minha linda, é, afinal, a minha melhor amiga).&lt;br /&gt;Nesses momentos era tão bom. Eu te abraçava e era bom. O cheiro do seu perfume, suor da sua nuca vindo de trás das orelhas, sua cabeça no meu ombro, meu braço sobre o seu ombro, eu te sorria e te dizia algum carinho conselheiro (e você me sorria de volta, como agora ri pra ele de volta, que te ri de volta também, e me dizia que eu era forte, tão boba você, tão cega). Nesses momentos era tão bom, nesse tempo era tão fácil. Você era só minha. Minha. A minha melhor amiga.&lt;br /&gt;E agora você me chama aqui, a essa mesa cheia nesse restaurante caro (sempre tão chegada a riqueza, tão iludida, tão boba, tão cega a minha linda) junto com toda a sua família, pro anúncio solene, mágico (rolo compressor, lento, fatal, implacável, esse dia ia mesmo chegar, mais cedo ou mais tarde, fim, the end, aux revoir, ma cherrie, acabou) da porra do seu casamento!&lt;br /&gt;E você sorri, fala alto, você está tão feliz (damn you! Shut up!, eu diria. Mas eu te amo demais), e esse aí do seu lado, que dor!, eu não posso dizer (nem pra mim eu posso dizer) que não te merece. Porque ele te ama (dá pra ver, ele te olha bobo, cego, só você existe. Que dor! Pra mim também só você existe! A minha melhor amiga). Todo esse porte nobre, essa conta bancária gorda, essa cultura, esse jeito meio blasé de te fazer carinho, te puxar a cadeira.&lt;br /&gt;Eu queria tanto ser esse homem na sua vida. Mas eu não posso. Eu queria tanto te oferecer o meu grande amor desesperado, passar todos os dias na única ocupação de te fazer feliz. Mas eu não posso. Você está tão bem com ele, e tão feliz, e isso me dói (infame, amar é muito infame!). Olha pra mim!, eu quero gritar, pelo amor de Deus fica comigo!, eu quero gritar (mas eu não gritei até hoje, eu sei guardar segredos tão bem).&lt;br /&gt;Uma última vez, você toca a minha mão, seu perfume é caro agora (que ele te deu de presente, você me diz), distribui os convites (vontade de rasgar, jogar os pedaços na tua cara, novela das oito, drama B, e sair gritando Damn you! Shut up! Mas eu te amo demais), pego o meu e olho fixamente, que dor!, e vejo que do lado do seu nome não está o meu nome e o nó na garganta aumenta e quero chorar. Que dor! Ele vai te levar daqui, de mim, ele vai te roubar pra ele, pra outro país (não vai! Fica comigo, pelo amor de Deus!). Que dor! Eu te quero tanto, eu te amo tanto! Ah, minha linda! Você é a minha melhor amiga, aquela que eu amo desde sempre, antes de tudo, antes de todos, antes desse aí do teu lado. Que dor! Que maldita dor (rolo compressor, lento, sobre a minha cabeça de pessoa solitária).&lt;br /&gt;Que é isso?, você diz (tão perto de mim, sorrindo pra mim, te quero pra mim, você é a minha melhor amiga!). Desde quando casamentos te emocionam? Não conhecia esse seu lado sentimental.&lt;br /&gt;(Eu sou, afinal, tão forte. E você tão boba, tão cega.)&lt;br /&gt;Tenho vontade de te puxar pela mão, te roubar do mundo, te prender pra sempre, ou sair chutando as cadeiras e tentar arrancar com um porre, uma overdose ou um suicídio esse amor maldito, eterno, solene, mágico, desesperado e demoníaco do meu coração.&lt;br /&gt;Mas, e em vez disso, enxugo uma lágrima, a única, e te rio de volta (última vez, desespero, esse dia ia mesmo chegar, eu sempre soube, fim, the end, que dor!). Não consigo pensar em esperança, em Deus, nas coisas boas da minha vida (não tem nenhuma), em alguma chance, uma sequer, pra afastar esse homem de você (tão rico, tão apaixonado, eu não tenho dinheiro, eu só tenho amor. E você quer dinheiro, minha linda, ou um pedaço marombado e babaca de mal caminho, uma porta. Você não só quer amar, minha linda) como fiz antes, sempre. Não vai dar certo. Não vai. Não pode ser assim. Quero gritar, chorar, querer tentar me matar. Mas já é tarde. Fim, the end, aux revoir, ma cherrie, que dor! Não pode ser, não pode ser assim. Não pode.&lt;br /&gt;Você é a minha melhor amiga.&lt;br /&gt;...&lt;br /&gt;...&lt;br /&gt;...&lt;br /&gt;E eu sou a sua.&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;(M³)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-5870335786277240840?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/5870335786277240840/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/01/in-media-res.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/5870335786277240840'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/5870335786277240840'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/01/in-media-res.html' title='In media res'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-5783828089869316043</id><published>2010-01-09T00:02:00.005-02:00</published><updated>2010-06-04T18:06:42.960-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='microconto'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='confissão'/><title type='text'>...Hurry! Please, hurry...</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;A cama. Desarrumada a cama. Lua fraca do abajour sobre a cama, num círculo que marca onde eu me deitava minutos atrás. Tentei ler mais uma linha, me arrastei por outra, forcei os olhos na terceira. Nada. O peito. Apertado o peito. Peso. Coração, pesado. Eu pensei em tudo, desde o filme alto no quarto ao lado até os lírios nascendo no meu quintal, em tudo enquanto eu lia. E não li. Rápido, por favor, mais rápido, eu peço. Mas o tempo não atende. É quente a noite, foi quente o dia. Coração, pesado. Abro a caixa de entrada do e-mail, desespero, pressa, alguém, alguém vai ter me mandado uma mensagem, tem que ter, um scrap no orkut, um tweet (se eu tivesse), um comentário no primeiro texto do blog, no segundo, no décimo, no que veio antes desse, alguém, alguém vai me tirar dessa solidão. Nada. Vazio. Silente o vazio. Eu sentada aqui, na frente dessa tela apavorada, tentando jogar o fantasma pra fora antes que vire câncer. Imóvel eu, enquanto quero dançar, cantar alguma música do Human Equation, La Bamba, Air Supply, Whitney Houston, não importa. Penso: mas aquele post que, com esse, vai sumir da primeira página. Quem entrar aqui agora tem que ver aquele post. Lembro: mas quem? E então vou até o orkut, onde todos os meus amigos estão jogando colheita feliz, e eu só, entro no msn, onde todos os meus amigos estão off porque estão no orkut jogando colheita feliz, e eu só. Estranho falar onde, como se fossem de fato lugares, mas, who knows? O caderno diz Jack Daniel's, Cinema Paradiso, Philadelphia, Magliani, Virginia Woolf, bem ao meu lado sobre a mesa. A luz tão fraca, tão fraca eu, tão fraco o vento do ventilador, tão quente o quarto, a solidão tanta. Forte, o coração bate pesado. E forte. A solidão também forte. Desespero. Hurry, peço ao tempo. Traz de volta esse abraço que ia me incomodar à noite com o calor. Eu ia virar pro outro lado na cama pra tentar aplacar o calor, mas ele, esse que hoje me falta, ia me seguir, sempre segue. E eu ia rir sozinha no meio da noite por ele ter me abraçado de novo, como sempre, me coberto com a perna, talvez me impedindo de respirar. Ele sempre me cobre com a perna enquanto dorme, e respira tão fundo enquanto dorme, soprando o ar nas minhas costas. Saudade. Sinto saudade agora. Ninguém com quem falar, um livro mudo sobre as pernas. E ele, ele estaria me abraçando agora. Nunca me deixa ficar acordada na madrugada – sou tão notívaga –, pra acordarmos mais cedo no dia seguinte – eu sempre acordo tão tarde. Gosto tanto do jeito dele de me acordar todos os dias (eu faço manha, só mais cinco minutinhos, pra manter o ritual), de me abraçar todas as noites. Ele estaria me abraçando agora. E eu ia aceitar o abraço quente no tempo quente, sempre aceito, sempre quero. Hurry, mas o tempo nunca atende. Único jeito: voltar a procurar recados que não chegam, comentários que não vêm, scraps nunca postos, na angústia de acabar com a solidão, a solidão é tão grande. Voltar a ler sem vontade, voltar a fazer a sobrancelha, a chorar baixo na escuridão - tanto sono, nenhuma vontade, I'll lie in my bed, waiting for sleep -, a querer assistir Mary Poppins mais uma vez, Dead Poets Society. Vitória, talvez, eu penso, e Jaime, quem sabe. Eles vão me salvar. Abro o mundo deles. Ainda em branco o futuro deles. E nada. Não consigo nada. Eu peço, hurry, please, hurry. Não há novos recados pra você. Fulhaninha/o/s está/ão jogando colheita feliz, monte sua fazendo. 0 contatos on line. Primeiro blog, sem textos novos. Segundo blog, sem textos novos. Nada a comentar. Nenhum tópico novo na comunidade metal progressivo Brasil. Ninguém respondeu ao meu tópico sobre as cenas cortadas nos dvds da Muralha. Hurry, please, hurry. Atualizo três vezes a página do hotmail. O yahoo diz que Christopher Lee acaba de gravar um cd de metal sinfônico. Rio sozinha, gosto, fico contente. Contente é mal agora. Contente não combina agora. It doesn't fit. Na tevê, percebo que Tom Cruise é dentuço. Meu rádio está fora de sintonia. Não ajeito. Não faz diferença depois que acabou a Antena1. Lembro que ele não gosta que eu roa as unhas. Me contenho. Me conter me deixa inquieta. Ficar inquieta me acalma. Só até dar meia noite no relógio. Sábado. Conto os dias religiosamente, e repito num mantra quase ou totalmente autista (segunda opção a mais certa): faltam dez, faltam dez. Será logo. Eu tenho que revisar. Eu tenho que ler a biografia do Caio. Eu tenho que reconhecer a firma da Henriqueta. Eu tenho que. Eu tenho tanto que. Vai passar, tu sabes que vai passar. Vou comprar uns filmes, algum pocket em inglês, who knows?, eu gosto de inglês. Vou tirar umas fotos sem sentido, eu gosto de tirar fotos desesperadas. E será logo. Hurry, time, please. Solidão, solidão. Tão forte o vazio sobre mim. A tampa da caixa escura do meu quarto se fechando. Desespero. Hurry, please, bring him back from the sea. E o tempo nunca atende...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-5783828089869316043?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/5783828089869316043/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/01/hurry-please-hurry.html#comment-form' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/5783828089869316043'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/5783828089869316043'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/01/hurry-please-hurry.html' title='...Hurry! Please, hurry...'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-8171834237580424143</id><published>2010-01-06T17:43:00.004-02:00</published><updated>2010-06-04T18:05:22.344-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='microconto'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Promessa Vazia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Caio F.'/><title type='text'>...Just because I like it...</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Quando ele se aproximou de mim naquela manhã (a praça muito cheia, sol, as sombras das folhas do flamboyant ainda sem flores dançando sobre as páginas do meu livro), senti um reconhecimento. Inexplicável. E insistente. Eu nunca o tinha visto, afinal.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;As crianças competiam pelos brinquedos, com uma crueldade brutal no deboche da vitória (o puro instinto, lembrei, pensando em alguma coisa de psicanálise que li quando ainda não tinha capacidade pra entender - hoje terei? Não acho. Não ligo.) e seus gritos competiam com os pássaros, que nunca têm plateia, pobres coitados. Era esse o som do silêncio, a minha paz, sem as brigas lá de casa, sem os barulhos do trânsito, sem o pagode gospel no último volume vindo do vizinho do terceiro andar, eu morava no nono (deve ser pra Jesus escutar o louvor lá do céu, eu sempre concluía).&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Foi então que ele chegou. Sentou do meu lado, calmo, uma figura alta, magra, doce e muito, muito mesmo, imponente e agressiva na sua luz. Acho que era isso. Ou só era familiar mesmo, e o resto eu inventei.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Gosta?, ele perguntou, apontando pro meu livro.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Só então notei a presença do senhor grisalho ao meu lado no banco da praça. Não tive coragem ainda de olhar pra ele e, como de costume (um impulsivo e irritante costume), perguntei de volta:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Oi?, e, sem deixá-lo repetir (outro costume irritante), respondi que Sim, gosto muito. É meu livro preferido.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ele ficou em silêncio, e me deu espaço (ou senti isso) pra olhar bem fundo nos seus olhos fundos, castanhos. Ele devia ter quase sessenta (acho) e tinha uma pinta negra no nariz (longo, agudo, imponente como tudo nele). Quase não tinha cabelos e a barba de três dias, mal-feita, me fazia lembrar do homem que Dana de Avalon esperava encontrar (que vai encostar seu joelho quente na minha coxa fria, lembrei do conto, mas nunca lembrava o resto, nunca lembrava nada mesmo, nem o aniversário da minha mãe). Um sotaque gaúcho, reconheci na voz dele, e não liguei, que o Rio de Janeiro é mesmo a metrópole dos renegados (sobretudo os que querem praia), daqueles que pensaram em fugir mas erraram o alvo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Estava olhando pro chão o homem, quando olhei pra ele, e se voltou pra mim tão rápido que não pude desviar. Seu olhar me pegou muito fundo. Então&lt;em&gt; não quis &lt;/em&gt;desviar, simplesmente me recusei, e permaneci naquele silêncio muito mágico, muito cheio de crianças más e pássaros maus naquela praça má do mundo mau onde vim cair, mas tudo tão bonito, ele tão bonito, eu (pra surpresa minha, pensei) tão bonita, o silêncio tão forte, tão bonito.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E do que mais você gosta?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;(Que coisa a se perguntar. Gosto de tanta coisa, afinal!)&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;De flamboyants, de cantar Don't stop me now, de tomar porre de vinho (Oiro da Beira, de preferência), ouvir Dream Theater, desenhar olhos nos cadernos dos outros, ficar sentada no escuro de vez em quando, dormir no abraço do meu noivo Pedro Artur. E eu gosto dele (apontei o livro com os olhos), do que sinto quando estou com ele, mergulhada nesse universo. Gosto desses dragões, que nunca morarão mesmo comigo - nem com ele moraram. Ele dizia que queria que alguém o amasse por alguma coisa que ele escreveu. E eu nunca vou encontrá-lo e dizer a ele que eu o amo, eu o amo muito, tanto, infinitamente. Por cada palavra.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O homem tirou do bolso do casaco um maço de mentolados (embalagem tão antiga me pareceu), acendeu e tragou sete vezes, talvez pra dar sorte. Em silêncio, olhava as crianças, talvez se despedindo ou querendo que calassem a boca (quem sabe se não gostava delas, as crionças, who knows?). Depois voltou o olhar pra mim (vermelho estava o olhar), última vez, despedida. E disse meio baixo:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Você gosta de flores vermelhas. Eu gosto de girassóis. Amarelos. Talvez combinem. Espero que sim.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Levantou, então, e ficou tão alto que me senti pequena sentada ali, tendo que virar tanto o pescoço pra cima. Eu era mesmo muito pequena, anyway:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Obrigado.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ele se afastou e sumiu no tempo, no espaço, por trás dos flamboyants da praça, dos coqueiros, do canteiro de flores roxas, nenhum girassol (uma pena). E fechei o livro, porque não conseguia mais avançar uma linha. Eu já tinha lido tantas vezes mesmo, eu já conhecia cada frase de cor.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Abracei aquele livro como se abraça um bebê pequeno, que é frágil, que dá vontade de apertar mas não pode. Abracei tão forte que já teria matado o bebê. E só então olhei a capa. Os olhos da capa. O rosto da capa. O homem da capa. Me assustei.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E acordei.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-8171834237580424143?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/8171834237580424143/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/01/just-because-i-like-it.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/8171834237580424143'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/8171834237580424143'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/01/just-because-i-like-it.html' title='...Just because I like it...'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-8824476881574120293</id><published>2010-01-05T20:44:00.002-02:00</published><updated>2010-06-04T18:04:33.214-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Dream Theater'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='música'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='fotografia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Caio F.'/><title type='text'>...Porque hoje tudo está bem, então...</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S0PDN8yQPaI/AAAAAAAAAHA/4ZkOdMB2BBk/s1600-h/05-01-10_1659.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 240px; DISPLAY: block; HEIGHT: 320px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5423393020706831778" border="0" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S0PDN8yQPaI/AAAAAAAAAHA/4ZkOdMB2BBk/s320/05-01-10_1659.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S0PDNSeoOxI/AAAAAAAAAG4/IwvuRFfO3U8/s1600-h/05-01-10_1658.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 240px; DISPLAY: block; HEIGHT: 320px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5423393009350228754" border="0" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S0PDNSeoOxI/AAAAAAAAAG4/IwvuRFfO3U8/s320/05-01-10_1658.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;...New voice, new law, new way. Take the time, reavaluate...&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336614803138-8824476881574120293?l=oraculosdosoculos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/feeds/8824476881574120293/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/01/porque-hoje-tudo-esta-bem-entao.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/8824476881574120293'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7969575336614803138/posts/default/8824476881574120293'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2010/01/porque-hoje-tudo-esta-bem-entao.html' title='...Porque hoje tudo está bem, então...'/><author><name>Milena Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18142092774515025898</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S_ybvUwAgrI/AAAAAAAAAIY/7IjATjeZMWM/S220/2IMG_0160.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_1Y0s6KY5Fj8/S0PDN8yQPaI/AAAAAAAAAHA/4ZkOdMB2BBk/s72-c/05-01-10_1659.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7969575336614803138.post-4915141909499642797</id><published>2010-01-03T21:41:00.003-02:00</published><updated>2010-06-04T18:03:36.749-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='microconto'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='poesia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='antologia'/><title type='text'></title><content type='html'>Chorei três horas.&lt;br /&gt;Dormi três anos.&lt;br /&gt;Morri há três milênios.&lt;br /&gt;E nada mudou.&lt;br /&gt;Chorei três horas.&lt;br /&gt;Dormi três anos.&lt;br /&gt;Morri há três milênios.&lt;br /&gt;E a dor não passou.&lt;br /&gt;Como o solo de piano intenso&lt;br /&gt;desse verso que não rimou.&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;Voltei sem querer ter ido. Fui sem querer voltar. Na casa do vizinho cantam. Aqui, entra a voz em coro de uma festa qualquer. Queria ter um vocativo, algo a por entre parênteses, eu queria, pra dar intensidade, estilismo, elitismo, deixar o texto menos pessoal, essas armas que usam os que querem esconder que, em cada letra, só escrevem mais um capítulo da sua carta monográfica de suicídio. Queria ler qualquer coisa, arrumar o meu quarto or something like that, mas não hoje, hoje não posso (amanhã poderei, não vou querer, sei). Vou ver meu novo Queen ao vivo em Montreal (cidade do Canadá, you know?, pra onde ainda fujo um dia). E tentar pensar que o melhor é ficar calada, é ficar na minha, é não mostrar o que me torna o que me tornei. Sob pena de precisar mostrar que sofro. E me matarem por isso.&lt;br /&gt;O mundo anda, afinal, tão feliz.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7969575336
